Piscina do hotel GoldenEye, na Jamaica (Foto: Joana Nolasco)

Por Dani Pizetta

A pandemia revelou um mundo sem viagens e hoje sentimos falta do que antes parecia nunca nos faltar desde que tivéssemos dinheiro, disposição e vontade. Mas bastou nossa saúde – como indivíduos e como planeta – se colocar em risco iminente, para percebermos quão frágil nossa liberdade era.

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Viajar como antes não existe mais, então “bora” reaprender. Meu processo pode lhe inspirar e aqui apresento um breve resumo. Comecei por exercitar minha memória e, mesmo sem viajar, escrevi sobre viagens que já fiz, entrevistei viajantes que já foram e me informei periodicamente sobre o “futuro” das viagens.

Meses depois de decretada a pandemia, percebi que, mesmo para otimistas como eu, as respostas ainda são incertas e, no geral, encontramos os negócios relacionados ao turismo, à aviação e à hospitalidade abalados e precisando da nossa colaboração.

Por isso, não esperemos que os órgãos responsáveis trabalhem sozinhos, usemos nosso bom senso e nossa criatividade para (paralelamente) repensar, reaprender, exercitar e colaborar com a retomada de um turismo com mais cuidado, consciência e, por que não, propósito. Segue aqui, uma lista de bons exercícios para construir o futuro das suas viagens, pois quem comanda este leme é você.

Foto: Acervo Pessoal

Por que viajo?

A primeira coisa que você deve fazer antes de planejar o próximo destino é se perguntar “por que?”. Não me refiro a quais são as “ocasiões” que te fazem viajar, mas quais os reais motivos que te levam para longe. Fiz este exercício no começo da quarentena e publiquei a resposta e as consequências dela aqui. Entender o que te move ajudará a priorizar as ocasiões que te fazem viajar, e por consequência, melhorar o jeito que você viaja.

Além do umbigo

Se assim como eu, você ficou feliz com o “germinar” do planeta, ou emocionado ao saber que o pico do Himalaia foi visto a olho nu durante a quarentena, entenda que foi a falta das nossas “pegadas” por lá foi a responsável por esta façanha. Portanto, voltar a circular pela sua cidade ou pegar um avião é considerado um importante ato político, e o primeiro passo para unir prazer e ativismo é mirar em um turismo que cuida do planeta, do ser humano e das culturas locais. Um bom lugar para aprender mais sobre turismo sustentável é a United Nations World Tourism Organization (UNWTO), que detalha esses três pilares que sustentam um turismo consciente.

Conforto e sustentabilidade

Sim. É possível ser um “viajante verde” sem abrir mão do conforto e dos mimos dos hotéis. O segredo é focar em experiências e não em coisas. Outro fator importante para unir as duas coisas é “fazer perguntas e planejar”. Nunca antes os agentes de viagem foram tão importantes para ajudar na escolha de destinos sustentáveis. Eles podem encontrar hotéis alinhados ao movimento, programas mais seguros e lugares menos cheios. Perguntas que você pode fazer ao seu agente ao planejar sua próxima viagem: de onde vêm os alimentos servidos neste hotel? Quais os critérios para a contratação de pessoas? Como a energia é gerada? Como o lixo é tratado? Colabora com causas locais? E por aí vai. Pode soar chato no começo, mas acredite: a indústria vai se acostumar.

Foto: Acervo Pessoal

Não banalize sua ida ao aeroporto

Viagem a trabalho é coisa do passado. Tirando raros casos em que sua presença é mandatória, opte por um encontro online. Viajar para fazer reuniões parecia cool até o início deste século. De agora em diante, vai pegar mal.

 

Fique mais tempo

Ao planejar suas férias, se puder, pegue um mês inteiro e fique mais tempo nos lugares. Nada de ficar pegando mil aviões para poder tikar tudo rapidinho. Organize seu tempo dentro da viagem para pegar trens e andar a pé ou de bicicleta. São os pequenos detalhes que fazem a maior diferença e te inserem nas diferentes culturas deste planeta.

 

Voar longe sem aviões

Se você tiver amigos com veleiros ou barcos, pegue carona com eles. Se não tiver (como eu também não tenho), infelizmente teremos sim que pegar aviões. Mas saiba que nem todas as companhias aéreas são iguais e, mais uma vez: faça perguntas. Procure saber se os aviões de uma determinada empresa são mais novos que outros (pois são mais tecnológicos e podem gastar menos combustível). Descubra se alguma empresa faz a mesma rota, porém mais curta ou, se puder, pegue sempre voos diretos. Ao escolher uma passagem relativamente mais barata, muitas vezes você fará escalas com rotas mais longas, o que não é bom para o planeta. Por fim, você precisa mesmo fazer esta viagem? Caso sim, saiba que “tudo não terás” (como diz John Milton, o diabo de Al Pacino, a Kevin Lomax [Keanu Reeves] em cena do no filme O Advogado do Diabo) e que você pode colocar em prática outros cuidados para compensar a emissão de CO2 gerada pelo avião que você usará.

Mais de uma razão

O turismo é um meio poderoso de distribuir receita, especialmente de quem tem muito para quem não tem nada. Quando viajamos para centros urbanos ou para vilarejos, estamos colaborando com a economia de um povo, de uma comunidade ou de um ser humano. É isso que chamamos de “travel as a force for good” (viajar como uma força para mudanças de impacto positivo em português).

Se, assim como eu, seu próximo destino será “verde”, saiba que só existe uma forma de colocar em prática sua jornada, chama-se: slow travel (viaje lentamente). Em outras palavras: adicione propósito à sua viagem, planeje melhor, faça perguntas, circule menos e não esqueça da maior lição de todos os tempos: seja lá qual for seus planos, sem saúde, sobram apenas os sonhos.

Foto: Acervo Pessoal