Pabllo Vittar veste Estúdio Traça – Foto: Divulgação

Por Jorge Wakabara

Em 2020, o primeiro ano da pandemia, marcas reclamavam: faltava matéria-prima para produzir. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas indicava que, em outubro, essa falta havia alcançado os maiores níveis desde 2001 – e o setor de vestuário era o mais atingido, com quase 75% das empresas reportando problemas.

Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, comenta: “Houve uma interrupção por mais de três meses da cadeia produtiva, junto com uma pressão de custos que causou muito estresse entre os elos de produção. E ainda há problemas na área internacional.” Resumindo: falta tecido. E, paradoxalmente, sobra: sabemos de estoques excedentes e uma enorme quantidade de lixo têxtil, incluindo roupas e refugo de produção.

Então, que conta é essa? Uma importante mudança de chave vem sendo apresentada desde antes da pandemia: resolve a equação e, de quebra, traz a sustentabilidade para a fórmula. É o upcycling, que resgata o que já está produzido e seria jogado fora e propõe algo novo, aumentando o tempo de uso. Ou seja: o material não precisa passar por um processo mecânico ou químico, como no downcycling (que, no caso do tecido, pode ser desfibrilar e reconstruir). É usar aquilo que já existe e, como o nome já diz… dar um up!

Cris Barros usa tecidos do seu acervo – Foto: Divulgação

“A gente faz upcycling há muito tempo, sem ter esse nome”, explica a professora Monayna Pinheiro, que faz parte do projeto de educação e mentoria em moda e sustentabilidade Re.tecendo e é embaixadora docente do Fashion Revolution. “Hoje dá para fazer upcycling de maneira mais escalável”, diz, dando como exemplo marcas de fast fashion, como a C&A e a Youcom, e também outras brasileiras menores e bem conceituadas, como Farm (em parceria com a Re-roupa) e Cris Barros (que fez uma coleção-cápsula com patchwork de tecidos nobres do arquivo).

Upcycled by Miu Miu lança coleção-cápsula em parceria com a Levi's
Upcycled by Miu Miu lança coleção-cápsula em parceria com a Levi’s – Foto: Divulgação/Johnny Dufort

A técnica também já chegou ao mercado de luxo. A Balenciaga tem se aventurado nisso há algumas temporadas. E a Miu Miu apresentou a coleção “Upcycled”, no fim de 2020, composta por um garimpo de peças únicas do mundo todo dos anos 1930 a 1980, que originaram uma coleção exclusiva de apenas 80 vestidos. Razões mais do que suficientes para elevar a técnica a outro patamar fashion: bem-vindos à era de ouro do upcycling.

À La Garçonne de Fabio Souza, que tem Alexandre Herchcovitch no estilo, contava com o reaproveitamento como um de seus pilares logo no primeiro desfile em 2016, no SPFW. No lançamento atual, a ressignificação mais uma vez é destaque, agora usando o próprio estoque: camisetas viram vestidos, shorts viram calças.

Paula Rondon Brand – Foto: Divulgação

A marca faz parte do grupo seleto que nasceu de brechós paulistanos bacanas – nele também aparece a Up,Majuisi, projeto de upcycling de Marcelo Sommer com a Casa Juisi, e a Paula Rondon Brand. “Tenho acesso a tantas coisas legais, tecidos lindos antigos dos anos 1930 e 1940 com bordados manuais. Fora a quantidade de coisas incríveis que possuo no acervo”, diz a estilista. Esse trio tem mais em comum: gosta de colocar extrema exclusividade nas suas araras – bordados, combinações ousadas de tecidos, imagens de moda únicas.

Look do Estúdio Traça – Foto: Divulgação

Só que também existe outro grupo que a indústria (e a gente!) deve ficar de olho: o de criadores que desejam fazer upcycling em maior escala. Gui Amorim, do Estúdio Traça, que faz parte do line-up da Casa de Criadores, conta como foi esse caminho: “Quando comecei, as pessoas queriam aquela tal peça no tamanho delas, mas só havia uma e não tinha como fazer outra igual. Então comecei a desenvolver modelagens nas quais, mesmo utilizando materiais diferentes, obtenho um produto com as mesmas características”. Amorim iniciou o Estúdio Traça em brechós e feiras, como comprador. Começou a transformar calças jeans que encontrava em hot pants e vender para as amigas na faculdade. Com os restos de brim, fez shorts. O Traça segue fazendo upcycling até hoje.

Comas – Foto: Divulgação

Outra que observou coisas lindas sendo descartadas foi Agustina Comas. Antes da sua marca própria, trabalhou na Daslu Homem e viu a quantidade de camisas descartadas por defeitos mínimos. Ali, enxergou um material que, nas suas mãos, vira chemises, saias e camisas renovadas com misturas de cores e padronagens e, principalmente, com uma esquematização de cortes e costuras que pode ser reproduzida. “Uma das missões da marca é sistematizar esse método para que mais pessoas possam repetir a tecnologia”, explica Agustina.

Victor Belchior – Foto: Divulgação

No caso de Victor Belchior, cuja marca homônima é baseada no tecido de estoques, 90% do que é utilizado vem de lojas de varejo que compram lotes de sobras de confecções e grandes marcas. “Muitos deles são de décadas passadas, têm marcas do tempo. Alguns de tecelagens que nem existem mais”, diz. “Fico encantado com construções que são raras hoje em dia, como o chamalote”.

Da coleção atual, chama a atenção o gazar de seda pura que ele encontrou em uma loja no interior de São Paulo. “É do Atelier Versace, acredito que possa ser dos anos 2000.” Por fim, ressignificar pode ser uma questão de sobrevivência para as marcas pequenas. “Nesse momento de pandemia, devemos olhar para o que temos disponível e fazer o melhor com isso”, sentencia Amorim.