Foto: Christian Maldonado, com styling Larissa Romano

Entre as lembranças da avó, Raquel Correa guarda a de vê-la usando uma clutch feita de casco de tartaruga herdada pela mãe e que, vez por outra, ela assalta para compor um de seus sempre elegantes looks. Essa admiração nascida dentro de casa pelo acessório ajuda a entender seu fascínio pelo material que está entre seus achados preferidos sempre que entra em um antiquário ou leilão mundo afora.

Durante a pandemia, mapeando as aquisições dos últimos quatro anos, notou que tinha a quantidade suficiente para dar vida a uma de suas raras coleções. Nascia, assim, a “Trésor”.

Para criar as 12 joias principais, Raquel desmontou pequenos objetos de decoração e de uso pessoal datados da segunda metade do 19 e início do 20, garimpados de Buenos Aires a Hong Kong. “Boa parte corresponde ao período de Napoleão III, na França“, ressalta.

Foto: Christian Maldonado, com styling Larissa Romano

Para ressignificar essas peças, a designer usou incrustação de ouro rosa e amarelo, flores de madrepérola e pedras. O resultado são nove brincos e dois braceletes que misturam passado e presente sob o olhar afiado de quem transformou o hobby em profissão.

A designer costuma criar joias one of a kind aleatórias, à medida que consegue unir materiais e formas harmônicos, por isso, conta que é inusual montar uma coleção.

Outro fator que torna essa nova safra especial é que ela não existiria se não fosse o caráter de upcycling do processo, já que objetos feitos a partir do casco de tartarugas são bastante raros atualmente no mundo porque a caça desses animais é proibida.

Foto: Christian Maldonado, com styling Larissa Romano

“Na Europa, registros mostram que os primeiros objetos surgiram por volta do século 16. Como é sensível ao fogo, o material pode ser moldado”, explica Raquel, acrescentando que o boom aconteceu durante o reinado de Luis XIV, quando foram produzidos inclusive móveis com incrustações do material.

No século 19, começaram a surgir as primeiras armações para óculos, que virariam tendência na década de 1920. “Hoje, são feitas de acetato e o efeito tartaruga virou estampa”, diz a designer, que fez um amplo estudo sobre o assunto.

A “Trésor” ainda se desdobra em joias de madeira com acabamento em laca, feita com técnica que remete à tradicional japonesa, e finalizadas com pedras como citrino, peridoto e ametista em formato de gota em tons contrastantes.

A garimpagem de itens de colecionador em feiras de antiguidades, antiquários e leilões sempre fez parte dos roteiros de viagem de Raquel que, no ano passado, visitou lugares como Camboja, Filipinas e Tailândia.

Transformá-los em joias era processo que fazia para si e para as amigas bem antes de trocar o marketing pela joalheria. É essa dinâmica que faz o seu trabalho ter caráter slow, único e rico em história.