Foto: Bruna Castanheira

Nos primeiros meses do distanciamento social, a designer Regina Dabdab fechou o ateliê que funcionava em uma charmosa casinha na Vila Madalena, em São Paulo, e transferiu toda a estrutura para o seu apartamento. Entre a rotina diária da moradia e o acompanhamento dos estudos da filha de 7 anos, mergulhou em um universo que traduzia o impacto dos novos acontecimentos: a concepção de catástrofe na obra de Anselm Kiefer.

Assim como ela, o artista alemão construiu sua trajetória utilizando materiais orgânicos e tendo como respaldo o pensamento místico da cabala. Dessa imersão, deu vida à mais recente coleção, que exala transformação.

Os códigos que fizeram sua joalheria orgânica famosa no exterior, e que já atraíram a atenção de nomes como o da atriz Marion Cotillard, continuam no seu radar: colares-escultura que vão do corpo à parede. A eles, Regina acrescenta braceletes, anéis e brincos que já foram delicados e agora surgem em grandes formatos, feitos com materiais minerais e vegetais.

Foto: Bruna Castanheira

Na lista entram madeira balsa, vinda de praias da Córsega, casca que envolve a paina, pirita e cristal translúcido e rutilado. Pontos de cor em vermelho saem de corais garimpados em feiras de antiguidade e da jaspe norina. “É uma pedra recomendada para aliviar o estresse e estimular a fertilidade, que é especial em um momento em que estamos perdendo tantas pessoas”, analisa a designer, que também encontrou respaldo na obra de Kiefer – que foi influenciado por Joseph Beyus e utiliza resíduos como cinzas, cabelo e cacos de vidro – para a relação entre vida e morte.

Essa conexão é estendida às peças com banho de ouro, construídas a partir de moldes tridimensionais feitos com conchas e ossos de peixes fossilizados. Para Regina, reaproveitar materiais descartados pela própria natureza – madeiras, cipós e sementes -, sempre teve simbolismo de renovação de energia, um verdadeiro talismã.

A ampliação do uso de pedras brutas reforça esse caráter, que tem a ver com a conexão com o meio ambiente, e também com ensinamentos místicos. “Entrei de cabeça no estudo das propriedades das pedras. Não virei bruxa, mas acredito que elas têm poder”, explica bem-humorada, acrescentando: “Estou me acolhendo nos materiais.” Batizada de Kiefer, essa é uma coleção pequena, com apenas 25 peças produzidas sob encomenda.

Foto: Bruna Castanheira

Essa estratégia, ao mesmo tempo que dribla os desafios impostos pela Covid-19, expande e reforça os valores de sustentabilidade e consumo consciente que permeiam todo o trabalho da designer – é ela quem monta pessoalmente todas as peças, experimentando encaixes e misturas muitas vezes improváveis mas que, ao final, formam harmonias vindas do acaso.

Formada em moda pela Faculdade Santa Marcelina, Regina chegou a trabalhar como designer de sapatos nas marcas Alexandre Herchcovitch, Cori e Arezzo antes de embarcar para Milão para estudar acessórios no Istituto Di Moda Burgo. Depois, foram 13 anos morando em Paris.

Após passar pelo renomado Studio Berçot de Marie Rucki, começou a criar joias. De volta ao Brasil no final de 2016, seu trabalho ganhou ainda mais conexão com o ciclo de renovação nas florestas, tendo como ponto alto a imersão na Amazônia, no ano passado, que resultou na coleção “Origem”. Com a nova safra, ela diz que encerra um ciclo e começa outro. A conexão entre eles é a sua sensibilidade.