
Parede da Taipal Brasil na Casa Píer, assinada por Sergio Sampaio Archi + Tectônica – Foto: Leonardo Finotti
Por Romullo Baratto
Na mitologia iorubá, Olodumare, o Ser Supremo, encarregou Obatalá da criação das mulheres e homens que habitariam o Ayê. Obatalá moldou cada ser a partir de um barro primordial, emprestado de Nanã, guardiã dessa matéria. Quando o sopro vital lhes era concedido, vinham à Terra para viver, cultivar e amar. Mas esse barro não era infinito. Diante da escassez, Olodumare estabeleceu um ciclo: os corpos deveriam ser desfeitos e retornar à origem, para que novos pudessem nascer. Assim, a vida se manteve em fluxo, renovando-se pela circularidade da terra. É precisamente a natureza cíclica que recolocou a terra no centro dos debates sobre sustentabilidade ambiental na arquitetura. Trabalhado a partir de diversas técnicas — moldado em blocos, comprimido, empilhado ou seco ao sol —, este material pode ser desfeito e devolvido ao solo, pronto para reiniciar um novo ciclo. É por isso que arquitetos têm retornado à terra, não por nostalgia, mas pela sua acessibilidade alinhada à agenda ecológica do nosso tempo.

Projeto da Muddy Robots no Desert X de 2025 – Foto: Divulgação/Lance Gerber
Do ponto de vista prático, a terra possui atributos difíceis de igualar: excelente inércia térmica, baixo custo e disponibilidade quase universal. Do Sahel às Américas, do Mediterrâneo ao Oriente, há milênios a terra serve de base para cidades, palácios, muralhas e residências – desafiando a ideia de que o material seria frágil e efêmero –, mas voltou a ser discutida nos úlimos anos. Impulsionado por iniciativas que unem tradição e inovação, o cenário brasileiro acompanha a pauta. Tomaz Lotufo, do coletivo Sem Muros Arquitetura Integrada, estuda o material e suas aplicações em busca de uma arquitetura de baixo impacto ambiental. Reticente sobre a popularização desse material para fins simplesmente estéticos, ele busca começar os projetos pela compreensão do contexto — ambiental, social e econômico. Sua Casa KG ilustra a metodologia. Localizada em Botucatu, em São Paulo, numa região rural onde a disponibilidade de terra é abundante, a residência tem seu térreo construído com taipa de pilão — técnica na qual o solo é comprimido dentro de formas de madeira ou metal até atingir a densidade necessária para resistir às cargas e intempéries. A laje, feita em forma de abóbadas, suporta o pavimento superior, construído em taipa de mão, uma das técnicas tradicionais mais populares no país, na qual uma trama vegetal é manualmente coberta por terra. Parte da construção é feita, ainda, com tijolos de demolição. A Taipal Brasil, empresa com mais de duas décadas de atuação, colabora com grandes escritórios do país desenvolvendo sistemas de taipa de pilão e taipa de mão de alta precisão técnica.

Parede criada pela Taipal Brasil na Casa Montemor, desenhada pela Brasil arquitetura – Foto: Manuel Sá
No campo experimental, a 14ª Bienal de Arquitetura de São Paulo exibiu projetos de nomes como Arquipélago, Alain Briatte Mantchev e grupo CRAterre. Já na densa Dakar, no Senegal, o escritório Worofila vem desenvolvendo trabalhos com blocos de solo comprimido, produzidos pela empresa local Elementerre. “Há um entendimento intuitivo de que esses são os materiais certos”, comenta Nzinga Mboup, à frente do escritório junto a Nicolas Rondet. “Mas seu uso foi, de certa forma, esquecido. Por isso, estamos tentando trazê-los de volta ao foco com técnicas contemporâneas.” Além de barro, a dupla utiliza taboa, uma planta aquática endêmica, em vedações e coberturas. Feita com blocos de terra comprimida (BTC), a Casa NKD conta com dois átrios que garantem luz natural e ventilação cruzada. Na fachada, fileiras alternadas de tijolos salientes fazem o sombreamento, reduzindo a absorção de calor.
Se na escala residencial a terra reafirma sua pertinência, na obra de Francis Kéré ela se converte em símbolo de dignidade coletiva. “Utilizamos materiais que as pessoas já conheciam, como a terra, tida como algo relacionado a contextos mais pobres, mas nós o transforma- mos”, relembra o arquiteto sobre a Escola Primária em Gando, seu primeiro projeto, de 2001. O burquinabê, laureado com o Prêmio Pritzker em 2022, desafia preconceitos, e suas iniciativas com solo seguem gerando frutos. Em 2016 concluiu o Orfanato Noomdo, um conjunto de pequenas edificações construídas com blocos de adobe e conectadas por pátios; e em 2021 inaugurou o Instituto de Tecnologia de Burkina, construído com argila moldada in loco. “Não é porque você tem recursos limitados que deve aceitar a mediocridade”, destaca.
Do outro lado do Atlântico, o norte-americano Ronald Rael radicaliza o diálogo entre tradição e inovação. Professor na faculdade de arquitetura de Berkeley, Rael argumenta que a terra é o material construtivo mais sofisticado já criado pela humanidade, resultado de 10 mil anos de desenvolvimento. Para ele, o próximo passo é automatizar a construção com barro — algo que já vem sendo feito por sua empresa, a Muddy Robots. Empregando técnicas de impressão 3D e matéria-prima local, seus robôs já construíram instalações artísticas e pequenas estruturas. Em sua visão, a impressão 3D com terra representa uma oportunidade de reinserir esse material, tão alinhado aos ciclos naturais, na cultura contemporânea: “Quero que o robô reintegre esse ciclo às nossas vidas — e ele pode fazer isso melhor, porque faz mais rápido e mais barato”. Entre tradição e inovação, construir com solo parece mais atual que nunca. Diante dos desafios da urbanização, crise climática e desigualdade social, quando as coisas parecem já ter escapado das mãos dos arquitetos, talvez a solução mais ajustada aos ciclos naturais sempre tenha estado aqui, sob nossos pés: terra.

Construção da Muddy Robots feita a partir da impressão 3D de barro local – Foto: Divulgação/Ronald Rael

