Foster

Render da fachada do empreendimento Tempo – Foto: Divulgação

Por Camila Garcia Russo

Separadas por poucos quilômetros, Balneário Camboriú e Praia Brava oferecem dois retratos bastante distintos do litoral catarinense. De um lado, uma sucessão de arranha-céus que transformaram a cidade em símbolo da verticalização brasileira. Do outro, uma paisagem em que a Mata Atlântica ainda encontra o mar, entre costões rochosos e encostas cobertas de vegetação. É nesse segundo cenário, na Praia Brava, em Itajaí, que começa a ganhar forma o Tempo, primeiro empreendimento residencial no Brasil do Foster + Partners, escritório britânico fundado por Norman Foster, um dos nomes mais influentes da arquitetura contemporânea.

Idealizado pela incorporadora Müze, o projeto reúne sete edifícios residenciais e uma torre destinada ao Hotel Emiliano. Em vez de apostar na altura como demonstração de imponência, a arquitetura acompanha a topografia do terreno, com volumes de linhas curvas que parecem emergir da encosta. São 83 residências, todas com plantas diferentes, distribuídas em edifícios de baixa altura e conectadas por jardins, passagens abertas e varandas generosas.

O Tempo é também o cartão de visitas da Müze, incorporadora criada a partir da união da ZAH Empreendimentos, Nastás Engenharia e F2M Empreendimentos Imobiliários, com investimentos dos empresários Guilherme Weege, do Grupo Malwee, Juliano Custódio, da EQI Investimentos, e Alan Eccel, ligado ao Grupo NDI. Com Arthur Neto entre seus sócios-diretores, a empresa aposta na arquitetura autoral, no design e na hospitalidade como elementos de diferenciação no mercado imobiliário de alto padrão. A estreia na Praia Brava inaugura uma parceria com o Foster + Partners que já prevê outros dois endereços no litoral catarinense.

A decisão de preservar a escala do conjunto exigiu uma negociação pouco habitual no mercado imobiliário. “Vamos fazer um pouco menos de metros quadrados, mas vocês vão vender esses metros quadrados a um valor maior”, conta Juan Frigerio, sócio do Foster + Partners, sobre uma das conversas com os incorporadores. Estudos de insolação, ventilação e sombreamento orientaram o desenho dos edifícios, inclusive a altura de cada volume, para garantir luz natural aos apartamentos e jardins. “É uma aposta não na quantidade, mas na qualidade”, resume o arquiteto.

Foster

Render dos interiores do empreendimento Tempo – Foto: Divulgação

Para Arthur Neto, a intenção desde o início era oferecer uma alternativa à arquitetura que se consolidou na região. O objetivo era criar um empreendimento de linguagem internacional, mas profundamente conectado à identidade brasileira e à paisagem da Praia Brava. Essa premissa aparece especialmente na relação entre os ambientes internos e externos. As varandas, que chegaram a representar metade da área dos apartamentos nos primeiros estudos, permaneceram como elemento central do desenho. A ideia é aproximar a vida em um apartamento daquela de uma casa.

Foi justamente essa característica que surpreendeu Patricia Anastassiadis, responsável pelo projeto de interiores e pelas áreas comuns. Sem conhecer a localização exata, a arquiteta imaginou inicialmente mais uma torre de alto padrão no litoral catarinense. Ao receber o projeto, encontrou uma composição arquitetônica bastante diferente. A imagem lhe trouxe à memória os trabalhos de Lucio Fontana, artista ítalo-argentino que, ao cortar suas telas, abriu novas possibilidades de percepção do espaço. “Quando vi esse projeto, pensei: eles abriram uma outra dimensão”, conta.

A referência artística ajuda a explicar o caminho escolhido por Patricia, que pretende trabalhar com pedras brutas, cerâmica, artesanato, obras de arte e mobiliário brasileiro de diferentes gerações. A pesquisa de materiais e criadores locais também integra o processo. “A arte não entra depois. Ela faz parte do projeto”, afirma. A continuidade entre arquitetura, interiores e paisagismo, assinado pelo escritório catarinense JA8, é um dos princípios da proposta.

Tempo

Render da piscina interna do empreendimento Tempo – Foto: Divulgação

Essa atenção ao design se estende à Casa Müze, espaço recém-inaugurado na Praia Brava que substitui o tradicional estande de vendas por uma experiência mais próxima de uma residência privada. Com arquitetura desenvolvida por um escritório local, mobiliário de design e obras de arte da galeria Simões de Assis, a casa reúne ambientes de convivência e recursos tecnológicos, como uma sala de projeção imersiva de 270 graus, que permite conhecer o empreendimento antes mesmo de sua conclusão. A proposta é que o endereço seja permanente, funcionando como uma plataforma de relacionamento da incorporadora. Hoje dedicado ao Tempo, o espaço receberá os próximos lançamentos da Müze, com novas apresentações e programações, sem perder sua identidade.

A experiência de morar ganha ainda uma dimensão de hospitalidade com a chegada do Emiliano à Praia Brava. Além de operar o hotel integrado ao complexo, a marca levará aos moradores serviços de concierge, gastronomia, spa e cuidados personalizados. As áreas comuns, que somam cerca de 10,4 mil metros quadrados, incluem espaços de bem-estar, atividades físicas e convivência, distribuídos entre jardins e ambientes que privilegiam o contato com a natureza.

Emiliano

Render do restaurante do Emiliano, hotel que integrará o empreendimento – Foto: Divulgação

Juan Frigerio, que já viveu no Rio de Janeiro e conhece a tradição modernista brasileira, destaca a relação com a paisagem entre os fatores que despertaram o interesse do escritório pelo projeto. Ele lembra que Norman Foster, ainda estudante, acompanhou com admiração a produção de Oscar Niemeyer e de outros protagonistas do modernismo nacional. Essa influência permanece presente na cultura do escritório, que também contou com a participação de seu fundador nas revisões do projeto.

Com a abertura do Hotel Emiliano prevista para 2030 e a entrega das residências para 2031, o Tempo marca uma nova etapa da atuação do Foster + Partners no país. Outros dois empreendimentos com a Müze estão em desenvolvimento no litoral catarinense. Em uma região onde a altura se tornou sinônimo de valorização imobiliária, o projeto propõe uma equação diferente: fazer da relação com a paisagem, e não da disputa com ela, seu principal atributo.