Foto: divulgação
Foto: divulgação

Por Marco Aurélio Safadi

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um distúrbio do desenvolvimento com impacto múltiplo e variável em intensidade em áreas fundamentais do desenvolvimento como a comunicação, interação social, aprendizado e capacidade de adaptação. As características da doença já são observadas nos primeiros anos de vida, antes dos três anos, e ela se apresenta com importante predomínio no sexo masculino, na proporção de quatro para um.

Embora o TEA seja mais conhecido atualmente, ele ainda surpreende pela diversidade de características que pode apresentar. Com mais informação a respeito da doença, temos observado aumento importante no diagnóstico, assim como reconhecimento em idades mais precoces.

O portador do TEA apresenta um perfil irregular de desenvolvimento, com bom funcionamento em algumas áreas enquanto outras se encontram bastante comprometidas.

Estima-se que a frequência chegue a uma em cada 150 crianças.  As causas não são totalmente conhecidas, mas acredita-se que tenha origem multifatorial, ou seja, associação da genética com fatores ambientais como problemas na gestação ou no parto, uso de medicamentos, álcool, fumo ou drogas ilícitas na gravidez, além do ambiente em que a criança vive.

Na maioria das vezes, o que chama a atenção dos pais  é que a criança é muito calma e sonolenta, preferindo ficar sozinha a interagir. O bebê geralmente não gosta do colo ou rejeita o aconchego, tem pouco contato olho a olho e não responde aos chamados de voz. Parece não compartilhar sentimentos ou sensações e não aprende a se comunicar com gestos observados na maioria dos bebês, como acenar com as mãos para se despedir.  Por volta de dois anos passa da calmaria para a agitação. É comum o aparecimento de movimentos repetitivos com as mãos ou com o corpo. Problemas com a alimentação e com o sono também podem ocorrer. Essas crianças têm atraso no desenvolvimento da fala ou adquirem comportamentos de repetir o que ouvem ou informações decoradas, sem conseguirem de fato se comunicar.

O TEA apresenta-se de forma muito variável, sendo que a Síndrome de Asperger é o grau mais leve da doença, em que a criança apresenta linguagem e inteligência normais podendo passar sem diagnóstico por longos períodos. Nesse caso, o predomínio do sexo masculino é ainda maior (oito para um). No entanto, apresentam uma linguagem diferente, pouco usual, muitas vezes pedante e rebuscada, falam como adultos desde cedo. Não conseguem perceber ironias e fazem  sempre  interpretação literal daquilo que ouviram. A criança costuma ter uma memória destacada para assuntos restritos como calendários ou listas telefônicas e costumam focar em uma atividade específica como colecionar objetos (dinossauros e carros, por exemplo), tornando-se verdadeiros especialistas no assunto. Isso também ocorre com tablets, jogos e computadores.

Não existe um exame que confirme o diagnóstico de TEA, e é através da observação desses aspectos que se vai chegar ao veredito final. Para isso, é importante que o profissional tenha profunda experiência em TEA. Poderá ser o neuropediatra, o psiquiatra ou até mesmo o pediatra geral.

A doença não tem cura, porém a suspeita e a intervenção precoces, com o auxílio do psicólogo, fonoaudiólogo e do psicopedagogo visando evitar o comprometimento global da criança, melhora a condição do paciente. Trata-se de uma terapia comportamental. Em geral, só se usa medicamentos no intuito  de atenuar alguma conduta que possa atrapalhar o desenvolvimento da criança, não existindo medicações específicas para o TEA.

Marco Aurélio Safadi, o doutor Nuk, é professor de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e coordenador da equipe de Infectologia Pediátrica do Hospital Sabará.