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Foto: divulgação

por Ligia Carvalhosa

Comida pronta, tevê desligada e celulares fora do alcance. A hora da refeição pressupõe um ritual e sua ausência pode ser o motivo número um da relação pouco saudável entre seu filho e os alimentos. “O modelo que a criança segue costuma vir de dentro de casa, a família proporciona a cultura alimentar. Muitas vezes os pais ou cuidadores não têm um vasto repertório e esse comportamento acaba sendo perpetuado, a criança aprende observando”, explica Lilian Cardia, especialista em nutrição materna e infantil e mestre em ciências da saúde. Comer é um processo de aprendizado que inclui organizar uma boa rotina, estimular a autonomia e oferecer o novo. “Precisamos ofertar pelo menos dez vezes para afirmar que de fato há uma rejeição ao alimento. Muitas vezes não existem problemas, mas os próprios pais têm referências inadequadas, os parâmetros de quantidade de um adulto são diferentes e as crianças têm sinal de saciedade apurado.

”Negar novos sabores, comer apenas alimentos brancos ou até, em casos mais graves, se limitar apenas a sorvetes (!), são alguns dos episódios que aparecem em consultórios especializados no assunto. Existem classificações e linhas gerais de tratamento, mas é imprescindível entender desde cedo qual a particularidade de cada pequeno e procurar ajuda. “É fundamental lidar com a ansiedade, observar o que gera o desconforto, repulsa, medo e entender se existe uma dinâmica de controle familiar por parte da própria criança.” E é por essa pluralidade de fatores que o tratamento de uma dificuldade alimentar pressupõe profissionais multidisciplinares.

“Nós diagnosticamos se há alguma dificuldade em funções orais como sucção, mastigação e deglutição, além de identificarmos se há problemas sensoriais que façam com que seja difícil organizar a comida na boca, o que dificulta a aceitação de diferentes texturas”, explica a fonoaudióloga Patrícia Junqueira, especialista à frente do Instituto de Desenvolvimento Infantil. “A negação alimentar também passa por questões orgânicas, como refluxos gastroesofágicos que geram dor e desconforto, o que faz com que a criança associe desprazer ao momento da alimentação.” E as consequências vêm em via de mão dupla, crianças com magreza constitucional ou obesas. “É necessário corrigir intervalos, controlar tamanho de porção, estabelecer a frequência dos alimentos no consumo diário e então fazer correções”, explica Lilian, lembrando que o período fora da escola costuma ser o de menor disciplina e, consequentemente, o que pode trazer mais riscos. “É importante deixar claro que horas ela pode fazer refeições, do contrário, pode ficar beliscando o dia inteiro – e elas procuram o que tem no ambiente, como aquela bolacha recheada que está no armário, mas não é liberada.”

Conhecidas por unir a psicanálise e a culinária, as psicólogas Kika Melhem e Mariana Davi foram além dos tratamentos convencionais e lançaram sua Cozinha como Experiência, projeto que parte de oficinas de culinária para pensar questões que vão além da gastronomia. “A maneira como a criança come é uma via de manifestação, uma maneira de dizer algo aos pais e reflete um momento de vida. Impor comidas não é algo positivo, é preciso olhar para a subjetividade e os limites de cada criança”, diz Kika, que usa o espaço das oficinas para trabalhar questões terapêuticasde forma original.

“Nosso projeto é cozinhar e comer juntos, mas a dinâmica é mais social, é um ambiente onde relações importantes se desenvolvem num universo de sensações.” Na prática, no ambiente lúdico que mantêm em Perdizes, as mães aprendem a fazer papinhas mais saudáveis e variadas, enquanto crianças e adolescentes têm a oportunidade de se conectar com a comida, entender o que estão comendo, como aquele alimento é feito e de onde vem. “O processo torna a comida e o próprio ato de comer algo criativo, que permite ampliar e valorizar a experiência do convívio e ainda ajuda no desenvolvimento motor.” Com três anos já é possível levar seu pequeno para viver essa experiência –, claro que com aulas mais curtas e adaptadas aos limites de cada um. :

cozinhacomoexperiencia.com