Por Erika Masckiewic
@corujadedois

O estilo e o comportamento de Shiloh, filha primogênita dos atores Brad Pitt e Angelina Jolie, sempre chamaram a atenção da mídia. Desde muito nova, por volta dos dois anos, a garota preferiu se vestir com roupas de menino e aderir a cortes de cabelos curtinhos. Antes de completar dez anos, ela anunciou que se sentia como um menino, e desde então, os pais celebridades apoiaram a decisão da filha transgênera, que agora é chamada de John.

Mas, afinal, Brad Pitt e Angelina Jolie estão certos em apoiar essa decisão? Ou deveriam apenas desencorajar tal postura? “Primeiro é preciso entender para respeitar e aceitar. Se for a verdade daquela criança, não há o que modificar. Se for uma brincadeira, o ideal é conversar e explicar o porquê de não seguir esse caminho, oferecendo possibilidades de outras vivências”, explica o médico psiquiatra Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

A estilista britânica aposta na moda genderless
A estilista britânica aposta na moda genderless

Um indivíduo transgênero é aquele que se olha no espelho e não se identifica com a imagem refletida. Ou seja, não se reconhece em seu sexo biológico e necessita ser compreendido ou ter mudanças corporais para o gênero no qual se identifica. Assim como Shiloh (que agora é John), as crianças que têm questão de gênero apresentam comportamentos destoantes desde muito cedo, por volta dos dois anos de idade. Mas como identificar os primeiros sinais que evidenciam uma criança transgênera? “Os meninos apresentam necessidade de buscar ou usar adereços, enrolam toalhas ou panos na cabeça para simular cabelos longos, se identificam com danças, roupas e manifestações todas como femininas; já as meninas, mostram-se mais briguentas, ligadas em atividades de demonstração de força ou em super-heróis”, esclarece Alexandre Saadeh.

De acordo com Ramiro Figueiredo Catelan, psicólogo e pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o papel dos pais, neste caso, é dar apoio à criança, validar a sua expressão de gênero e combater a hostilidade da sociedade. “Para isso é preciso buscar informação de qualidade a respeito sobre a questão e eventualmente procurar ajuda especializada para que possam receber orientações adequadas para um acolhimento e criação mais sensíveis”, exalta.

Tentativas de “curar” e de “reparar” a expressão de gênero da criança são inúteis e podem causar intenso sofrimento. “Ninguém escolhe seu gênero; tanto um quanto outro se desenvolvem por um combinado de fatores psicológicos, biológicos e culturais que ainda são muito difíceis de serem explicados pela própria ciência”, conta Ramiro.

Outra grife que não faz gênero é a Tobias and The Bears
Outra grife que não faz gênero é a Tobias and The Bears

Nessa jornada de autodescoberta, geralmente a criança transgênera tem preferências associadas à homossexualidade. “Isso faz sentido, pois além de ser mais comum que as questões de gênero, o tópico que abrange a orientação sexual carrega em si estereótipos que os pais associam com mais facilidade. Outro ponto é que esses comportamentos descritos para crianças transgêneras são comuns na infância de transexuais e de homossexuais”, exemplifica Alexandre Saadeh.

Na infância trans, os pais devem proteger e orientar seus filhos contra a rejeição, a intolerância e o bullying praticado pela sociedade. A escola será o primeiro obstáculo. Os pais devem conversar com diretores e professores, mas se não houver aceitação, considere a possibilidade de mudar a criança de escola. “É no colégio que a sociabilidade se inicia e deve ser estimulada. Se a escola não propicia essa experiência, algo de errado acontece nesse local”, salienta Saadeh.

É importante ressaltar que a proteção e a aceitação dos pais é a base para uma infância, adolescência e vida adulta feliz. “É fundamental procurar se educar e informar a respeito dessas temáticas a fim de minimizar e reduzir o preconceito dentro da família, buscando ajuda com psicoterapia. Os pais devem estar presentes na vida das crianças para que elas não sejam excluídas do convívio social, trabalhando o respeito e a valorização da diferença”, finaliza Ramiro Figueiredo Catelan.