Por Rodrigo Casarin*

María José Ferrada. Prestem atenção nesse nome. Já no final do ano que os livros dessa autora do Chile começaram a chegar por aqui. Gostei bastante de Kramp, no qual acompanhamos uma criança que busca compreender como a vida funciona enquanto segue o seu pai no trabalho de vendedor de artigos para serralharia.

Uma pequena protagoniza “Kramp”, romance ambientado num Chile sob coturnos militares. Hoje escrevo sobre os livros infantis de Ferrada, que acabaram de ser publicados no Brasil pela Pallas Mini. Num trio de alto nível, o destaque é “Crianças”, justamente um livro a respeito dos 34 chilenos com menos de 14 anos que desapareceram ou foram assassinados pelos capangas de Pinochet durante a ditadura que sucedeu o golpe de 1973 contra Salvador Allende.

Feito em parceria com a ilustradora María Elena Valdez, “Crianças” é um livro infantil tão duro quanto sensível. Nele, o leitor encontra 34 breves poemas nos quais María José imagina bons momentos de vida para os pequenos trucidados pelo exército. Marcela (referência a Marcela Angélica Marchant Vivar, executada aos 8 anos) brinca com o seu cachorro durante a tarde toda. Nadia (referência a Nadia del Carmen Fuentes Concha, assassinada aos 13 anos) calcula quanto tempo levará para que os seus barquinhos de papel cheguem ao mar. Raúl (Raúl Armando Sepúlveda Catrileo, morto aos 5 meses) gosta da maneira como a mãe lhe chama de passarinho. Já Soledad (Soledad Ester Torrer Aguayo, executada aos 4 anos) curte ouvir as gotas da chuva caindo no telhado.

A perseguição e o assassinato de crianças pelos militares é uma das camadas mais sórdidas de um dos períodos mais terríveis do nosso continente. A partir do Chile, a escritora joga luz numa prática abominável que se repetiu na ditadura de outros países latinos. No ano passado, Eduardo Reina lançou “Cativeiro Sem Fim” (Alameda/ Instituto Vladimir Herzog), necessário livro-reportagem sobre bebês, crianças e adolescentes sequestrados pelos fardados brasileiros e seus cupinchas. Em muitos casos, a ordem superior era simplesmente assassinar filhos de pessoas contrárias ao regime.

Outro de María José Ferrada com uma pegada rara de encontrar em livros infantis é “Mexique”, este feito em parceria com a ilustradora Ana Penyas. Nele, a dupla condensa a história de 456 filhos de republicanos da Espanha que foram colocados num navio em maio de 1937 com destino ao México. A ideia era afastar os pequenos da Guerra Civil Espanhola; cessado o conflito, retornariam para a casa dos seus pais. Não foi o que aconteceu. Com a derrota dos republicanos, essas centenas de pessoas viraram exiladas políticas apartadas de suas famílias e passaram a ser conhecidas como “crianças de Morelia”, numa referência à cidade que lhes acolheu.

O terceiro infantil de María José também foi feito com Ana Penyas e, como os outros dois, traduzido para o português por Carla Branco. Falo de “Meu Bairro”, simpática obra sobre a liberdade e a independência na terceira idade protagonizada por alguém que entende que “as vidas, assim como as meias, são elásticas”. Se é bacana ver um livro para crianças povoado por pessoas idosas, também é precioso encontrar nas ilustrações detalhes como o grito contra o feminicídio “Nenhuma a menos” escrito numa das paredes do canto onde as senhorinhas jogam cartas ou um casal formado por dois homens levando sua filha para a escola.

Aproveitando a leva de bons livros infantis para crianças não apalermadas, deixo a sugestão de outros dois: “A Alma Perdida”, de Olga Tokarczuk e Joanna Concejo (Todavia, tradução de Gabriel Borowski) e “Lina – As Aventuras de uma Arquiteta”, de Ángela Leon (Pequena Zahar). Este é uma breve biografia ilustrada de Lina Bo Bardi, italiana que fez a carreira no Brasil, onde projetou prédios icônicos como o MASP e o Sesc Pompeia. Já “A Alma Perdida” é uma incursão da polonesa vencedora do Nobel de Literatura de 2018 numa seara infantil cheia de silêncio e de subjetividade. Em “A Alma Perdida”, acompanhamos os dias de um homem que espera ser reencontrado pela própria alma, que desapareceu por conta do ritmo de vida que o superatarefado levava.

*Rodrigo Casarin é autor do blog Página Cinco, especializado em literatura. Siga: @pagina.cinco