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Por Manuela Bueno

Se na maior parte do mundo o problema são os quilinhos ganhos durante a pandemia, para quase sete milhões de crianças os efeitos da desnutrição em decorrência da crise econômica e social são alarmantes.

Para ilustrar o tamanho do problema, antes de o mapa ser contaminado pelo coronavírus, 47 milhões de crianças sofriam com a desnutrição, perda de peso e magreza extrema, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef).

 

Durante a pandemia, esse número deve atingir quase 54 milhões de crianças nos primeiros 12 meses da crise, o que pode se traduzir em dez mil mortes infantis adicionais por mês, principalmente nos países da África Subsaariana e na Ásia.

Isso quer dizer que ações distintas devem ser coordenadas para frear a desnutrição nas nações mais vulneráveis e a obesidade entre os ricos. “A pobreza e a insegurança alimentar aumentaram nesse período. Os serviços essenciais e as cadeias de suprimentos foram interrompidos. Os preços dos alimentos dispararam. O resultado é que a qualidade do regime alimentar das crianças diminuiu e as taxas de desnutrição foram acentuadas, diz a diretora executiva do Unicef, Henrietta For.

A publicação “The Lancet” adverte que a crise alimentar deve impactar em um aumento de mais de 14% na prevalência de perda de peso moderada ou grave em crianças menores de cinco anos. A estimativa analisou dados de 118 países de baixa e média rendas.

Em uma carta aberta, o Unicef e três outras agências das Nações Unidas – OMS (Organização Mundial da Saúde), FAO (Alimentação e Agricultura) e PAM (Programa Mundial de Alimentos) – pedem ações imediatas para conter o colapso alimentar. Tais organismos estimam em US$ 2,4 bilhões de dólares as necessidades para proteger as crianças em maior situação de risco.

“Devemos estabelecer ações e investimentos substantivos para a nutrição, a fim de impedir a crise da Covid- 19 e as suas repercussões na fome e na desnutrição infantil”, defendem as organizações.

Fast food

 

No Brasil, o consumo de fast food bateu recordes nos últimos meses. Crianças em casa, pais trabalhando em esquema de home office e o tempo apertado para pensar nas refeições podem ter contribuído para esse índice.

A nutricionista Michele Alessandra de Castro, doutora em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, e integrante da Coordenadoria de Alimentação Escolar (Codae) da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, alerta que 38% das crianças entre cinco e nove anos que frequentam a rede municipal paulistana estavam acima do peso quando a Covid-19 chegou ao País.

“Nessa faixa etária, as estimativas apontavam para um baixo consumo de fibras e o consumo excessivo de sal, açúcar e gorduras. Na quarentena, notou-se que nas populações mais vulneráveis houve uma queda importante na qualidade nutricional das refeições. Até porque as crianças e os adolescentes deixaram de almoçar e lanchar na escola. Isso sem contar o sedentarismo… O poder público precisa fazer alguma coisa, como estimular a oferta de serviços de alimentação saudável a baixo preço, e incentivar as doações de alimentos de boa qualidade nutricional.”