Vivemos em um momento no qual a infância se tornou corrida, conectada e sobrecarregada. A rotina acelerada, a pressão por desempenho e o contato intenso com telas estão alterando o desenvolvimento emocional dos pequenos – e já há muitos alertas para os riscos. “A criança ansiosa não é apenas uma miniatura de adulto sofrendo; ela sofre de um descompasso sensorial e emocional que a sobrecarrega”, avisa a psicóloga Patrícia Penteado, orientadora da Escola do Futuro Brasil.
O contato excessivo com gadgets, aliado à ausência de pausas, impede que a meninada simplesmente “seja”. E é esse simples “ser” que está em falta. O exagero de estímulos, os compromissos escolares, as atividades extracurriculares e a vida online conspiram contra os períodos de ócio – que, segundo Patrícia, são “essenciais para a saúde mental”. De acordo com dados globais, essa imersão no online está associada a alterações no comportamento socioemocional e nos problemas de regulação emocional.
Ao mesmo tempo, a literatura mostra que o brincar ao ar livre e manter o convívio com amigos “reais” têm efeitos positivos, já que melhora a atenção e contribui para minimizar os sintomas de estresse. Vale reforçar que o “green time” (como é chamado o ambiente desplugado), contrabalança com o frenesi negativo da web. Essa evidência reforça a tese de que o problema não está apenas no que as crianças não fazem, mas, também, no que deixam de fazer, como brincar, correr, imaginar, errar.
Para a geração alfa (nascida a partir de 2010), que já vive submersa em tecnologia, a tarefa de preservar o espaço físico para brincadeira torna-se estratégica. Pais e responsáveis devem limitar o uso de telas, garantir intervalos desconectados e incentivar atividades externas. Há pouco tempo, a proibição do uso de celulares nas escolas promoveu uma revolução dentro e fora das salas de aula. Longe de demonizar a tecnologia – ela também educa e conecta –, a ideia de reequilibrar o tempo e trazer de volta as crianças para o convívio social (já abalado depois da pandemia do covid-19) foi uma tacada certeira. Neste sentido, brincadeiras despretensiosas, conversas animadas e fins de semana no parque funcionam como antídoto numa época em que feeds ditam regras. Enfim, é hora de proteger a infância e não atrasar o desenvolvimento natural dos minicidadãos.



