Por Érika Masckiewic (@e.masck)

O ano escolar se inicia hoje, mas você já se perguntou: meu filho está preparado psicologicamente para começar mais um ano letivo? “Em primeiro lugar é importante que os pais entendam que o ambiente escolar é desafiador em todas as esferas do desenvolvimento, ou seja, cognitiva e afetiva. As crianças e os adolescentes não vão “só estudar”, como se isso, por si só, não fosse uma tarefa complexa”, explica a psicóloga e neuropsicóloga, Valdeli Vieira, especialista em saúde mental infantil e de adolescentes.

O processo de aprendizagem envolve muitas questões. A criança precisa superar dificuldades e desenvolver habilidades, como criar rotina e organização, descobrir métodos eficazes de assimilação do conhecimento, lidar com frustrações e controlar seus impulsos.

Bobo Choses
E aí, prontos para retornar à rotina? | Foto: Bobo Choses (Divulgação)

O segundo passo é acolher as angústias, medos e expectativas relacionados a esse momento. “Diante de uma criança ansiosa, não podemos dizer: mas é só uma volta às aulas! Ao contrário. Devemos dizer: Como você está se sentindo em relação a isso?”, ressalta Vieira.

A equipe escolar, incluindo professores e orientadores, devem saber como o aluno vivenciou o ano anterior, tanto o desenvolvimento acadêmico quanto os possíveis problemas de relacionamento enfrentados com colegas e professores. “Essas experiências irão modular suas reações iniciais ao novo ano. Conhecer cada aluno e desenvolver uma relação de proximidade é fundamental”, conta.

Além do suporte da equipe escolar, vale reforçar a relação de pais e filhos como um lugar de pertencimento, acolhimento e espaço de desenvolvimento de habilidades e de relações. “É importante que crianças e adolescentes sintam que tenham um amparo social-familiar, uma vez que isso diminui a sensação de medo”, alerta a psicóloga.

Como estabelecer uma rotina escolar

Para ter um bom desempenho é fundamental criar uma rotina eficiente, baseada em quatro pilares estratégicos: alimentação saudável, sono adequado, momentos de lazer e a presença dos pais. “Atualmente, em função das exigências da vida moderna, os pais estão pouco disponíveis aos filhos e muitas vezes mantê-los com a agenda cheia de atividades é uma forma de tentar preencher o vazio causado pelo pouco convívio familiar”, afirma Valdeli.

No entanto, impor regras da rotina escolar não é uma tarefa tão simples para os pais. “A sociedade interpreta a rotina como algo ruim, porque de fato ela impõe um limite ao prazer imediato do aqui e agora. Não se entende a rotina como algo positivo, que organiza nosso dia, ações e pensamentos. Então, quando mostramos para os filhos o quanto eles ganham com uma vida mais organizada e o quanto eles se desgastam com uma vida desorganizada e damos exemplos disso, eles tendem a aceitar melhor a rotina.”

Mas é importante que as regras sejam estáveis e permanentes, e que não oscilem ao longo da semana, porque só assim elas permitem a criação de hábitos saudáveis para o desenvolvimento da criança e do adolescente. “A rotina pode e deve ser estabelecida com eles, considerando os seus ritmos biológicos e as suas necessidades”, finaliza.

Participação na vida escolar

Os pais costumam achar que participar da vida escolar dos filhos se restringe a perguntar a eles o que aprenderam no dia e qual foi o desempenho em tarefas e provas. “Essas questões mais afastam do que aproximam o vínculo familiar. Tente outras perguntas: me conte uma coisa engraçada que aconteceu hoje? Alguma coisa te deixou triste hoje na escola?”, sugere Valdeli.

De acordo com a psicóloga, crianças e adolescentes adoram conversar, mas não aguentam se sentir cobrados em relação ao seu desempenho. “Mas quando a gente vai bem devagarzinho, como se estivéssemos pisando em um solo delicado, eles, ao se sentirem seguros, se abrem e compartilham o que vivem, profundamente.”