Marco Tomasetta – Foto: Divulgação

Meu primeiro encontro com Marco Tomasetta aconteceu em 2022, pouco depois de ele assumir a direção criativa da Montblanc. Naquele momento, eu ainda não sabia que estava diante de alguém raro, desses que transformam passado em poesia e objetos em narrativas. Bastaram, porém, algumas palavras para perceber que sua visão redesenharia o futuro da Maison sem jamais trair sua essência.

Desde o início, Marco trouxe consigo um olhar sensível para os arquivos da marca e uma mente livre para imaginar. “Os arquivos da Montblanc em Hamburgo são uma enorme fonte de inspiração para mim e muitas vezes um ponto de partida do meu processo criativo”, contou. “É nesse acervo rico que encontro inovação em estilo e funcionalidade, já que a Montblanc sempre teve códigos de design atemporais. O Meisterstück é o maior exemplo desse equilíbrio: tem mais de cem anos e, ainda assim, continua sendo minha estrela-guia porque representa um ícone de design e de harmonia visual.”

Esse diálogo entre herança e inovação se traduz em detalhes precisos. “O acabamento em resina brilhante da caneta Meisterstück inspirou a linha de couro que criamos, enquanto o formato da pena pode ser visto em muitos detalhes das bolsas. O mesmo acontece com os tons de verde e coral das novas coleções de couro: parecem jovens e modernos, mas, na verdade, vêm de instrumentos de escrita da nossa herança, desde os anos 1920. Gosto de usar a história da Maison como uma tela sobre a qual crio algo novo, mas que ainda é inconfundivelmente Montblanc.”

Mais do que uma casa de acessórios, Tomasetta entende que a Montblanc é feita de ideias, conexões afetivas e jornadas. Durante nossa última conversa, em julho de 2025, ele abriu seu caderno de anotações, um verdadeiro mapa de sua direção criativa. Ali estavam desenhos detalhados de bolsas, instrumentos de escrita, peças em couro e até esboços minuciosos do showroom: a disposição das vitrines, o jogo de luz, os caminhos do olhar. Nada era aleatório. Marco Tomasetta é um criador completo, presente, sensível, preciso. Um verdadeiro poeta das formas. Naquele momento, porém, eu ainda não sabia que o mais surpreendente estava por vir.

Na última temporada de moda masculina em Milão, a Montblanc realizou, pela primeira vez em seus mais de 100 anos de história, um desfile de moda e surpreendeu a todos. Eu estava lá. E posso dizer, sem exagero: foi absolutamente lindo. A noite começou na Estação Central de Milão, onde os convidados embarcaram no Trem Montblanc rumo a uma estação ferroviária desativada, transformada em cenário. Um deslocamento físico que também era simbólico, uma travessia entre passado e futuro.

No destino, assistimos à première de “Let’s Write”, curta-metragem dirigido por Wes Anderson. “Trabalhar com um criativo como Wes Anderson foi uma experiência única, um verdadeiro luxo ter acesso à sua visão artística”, afirmou Tomasetta. “Ele compreendeu instantaneamente os códigos da Montblanc. Nos conectamos especialmente pelas cores dos nossos arquivos, já que ele é reconhecido pela forma como trabalha a paleta cromática. Foi uma colaboração genuína, uma celebração do que acontece quando grandes contadores de histórias se encontram.”

Em meio ao jantar à luz de velas, apitos começaram a soar e, então, os modelos desceram do trem em perfeita sincronia. As peças em couro, criadas exclusivamente para aquele momento, eram o grande destaque. O que se via ali era excelência absoluta: couro de acabamento impecável, cortes precisos, construção sofisticada e uma atenção quase obsessiva aos detalhes. Os tons chamavam atenção, com marrons profundos, verdes elegantes e nuances quentes e envolventes que dialogavam com a herança da Maison, mas com frescor contemporâneo. Era impossível não admirar. Marco transformou o couro em poesia vestível, e a Montblanc reafirmou sua capacidade rara de unir técnica, emoção e beleza.

“Essas criações em couro vestíveis são uma nova forma de expressão para nós, que colocam quase um século de savoir-faire em destaque e o trazem para a vida em movimento”, explicou Tomasetta. “Minha intenção era criar um estudo de design sobre nossa cultura da escrita, sobre como ela pode se tornar parte ainda mais íntima da vida das pessoas.” As peças, por enquanto, não estão disponíveis para venda. Ainda assim, torço sinceramente para que um dia encontrem seu caminho até a realidade.

É justamente essa experiência física, sensorial e emocional que define a Montblanc hoje. Um universo em que tradição e inovação não competem, mas se completam. Marco Tomasetta honra o passado com respeito e constrói o amanhã com coragem. Na Montblanc, os objetos não são apenas belos, são portais para histórias. E, no mundo de Marco, criar é sempre um ato de viver, com alma, com detalhe e com propósito.