
Fotos: Vitor Jardim; Styling Laura Cavalcante; Direção Criativa: Kleber Matheus
Caio integra uma nova geração de artistas brasileiros que transforma a música em extensão da própria identidade. Sensível e múltiplo, constrói uma obra em que a brasilidade pulsa em memórias, ritmos e afetos. Seu processo nasce do autoconhecimento, guiando melodias, letras e escolhas visuais. A criação parte de sensações, desabafos ou sonhos, registrados antes que escapem. Longe da pressa do mercado, respeita o próprio tempo e investe em projetos sentimentais. Enquanto prepara um novo álbum, também mira o audiovisual e a atuação.

Fotos: Vitor Jardim; Styling Laura Cavalcante; Direção Criativa: Kleber Matheus
Harper’s BAZAAR Brasil – A música brasileira sempre foi construída a partir de misturas. Ritmos, culturas e regiões. Como essa diversidade aparece no seu processo de criação e de escolha de repertório?
Caio – Primeiro, acredito que através de uma jornada diária, com um desejo profundo de me conhecer, entender minhas raízes, origens e efemeridades. Creio que a experimentação sonora é uma extensão disso, sabe? E, de maneira prática, através dessa busca de arranjos musicais, letras e uma linguagem estética que traga essa aliança do que existiu antes de mim com aquilo que existe em nosso tempo. Sou curioso. Então, me alimento de diferentes trabalhos artísticos e procuro encontrar algum padrão que os conecte. Gosto de mapear sintonia entre versos das canções, referências visuais e, no meio disso, me perceber. No fim, creio que estamos buscando a gente mesmo através dessa alquimia.
HBB – Quando você começa uma música, o que costuma vir primeiro: a melodia, a letra ou uma sensação que você quer traduzir?
Caio – Uma sensação, um desabafo. E um sonho. Geralmente sonho que estou cantando alguma canção. Daí acordo e busco imediatamente gravar no celular. Depois desenvolvo mais a ideia. A música tem esse apelo de diário de bordo para mim. Então nasce a melodia e alguma frase junto. E o resto é poesia.
HBB – Muitos artistas falam da música como um lugar de memória. Quais lembranças ou momentos da sua vida você sente que mais atravessam as suas composições?
Caio – Com certeza minha infância. Acredito que tudo nasce de lá, né? O samba, sonoridade que fala muito comigo, surgiu nessa época da minha vida. Já era uma rotina da família aos finais de semana. Daí sinto que, através da música, a gente retorna a esses espaços internos e vai pintando telas muito subjetivas. Reimaginando dias. Sugerindo possibilidades. É uma forma de manipular o tempo e a história que nos atravessa, mantendo vivo dentro da gente o que faz sentido.

Fotos: Vitor Jardim; Styling Laura Cavalcante; Direção Criativa: Kleber Matheus
HBB – O Brasil tem uma história musical muito rica. Quais artistas ou movimentos da música brasileira você sente que mais influenciaram o seu caminho?
Caio – Sou muito influenciado pela velha guarda do samba, principalmente o recorte setentista. Pelo gospel, por ter uma família cristã, e pelo pagode noventista. Sons que tocavam diariamente na casa da minha avó e do meu pai. Nas minhas andanças pessoais, fui descobrindo mais sons da MPB. Mas certamente Clara Nunes, Maria Bethânia e Cartola me influenciam fortemente.
HBB – Em um cenário musical cada vez mais acelerado, dominado por algoritmos e lançamentos constantes, como você preserva autenticidade no seu trabalho?
Caio – Eu sigo meu tempo. Já fui muito pilhado com a “necessidade” de lançamentos regulares para atender aos algoritmos. Na prática, entendi que não estava prazeroso e o resultado não acompanhava o tamanho do esforço. Entendi e aceitei que sou um artista de obras. Gosto de pensar em um novo álbum, com história e estética, daí criar um show dele. E, quando essa história termina, entrar em pausa e deixar a criatividade e o momento trazerem uma nova pauta. Mas no tempo certo das coisas, sem essa pressão digital toda. Tem dado certo para mim.

Fotos: Vitor Jardim; Styling Laura Cavalcante; Direção Criativa: Kleber Matheus
HBB – Existe algum som, ritmo ou estética da música brasileira que você acha que ainda é pouco explorado hoje?
Caio – Hoje, acredito que a representatividade digital trouxe muito foco para muitos ritmos e estéticas. Tudo tem se misturado e criado novas possibilidades. Mas a música indígena brasileira ainda é interpretada como música supernichada, e tem artistas maravilhosos fazendo coisas lindas.
HBB – Que papel a música tem para você hoje: expressão pessoal, diálogo com o público ou uma forma de refletir o tempo em que vivemos?
Caio – Expressão pessoal, sem dúvidas. Cantar é dizer o que somente as palavras não dão conta, sabe? Sinto que a música tem tantas camadas. Ela regula nossa química, nos leva para tantos lugares sem nos tirar de onde estamos. Dá nome e endereço aos sentimentos. Empodera, ensina, reflete nosso tempo. E a consequência é ela se tornar essa linguagem única que permite um diálogo genuíno com o público.
HBB – Quais são os projetos que você está desenvolvendo atualmente e que caminhos você imagina explorar nos próximos anos?
Caio – Estou preparando um novo álbum que será muito especial. E um show derivado dele. Nos próximos anos, quero permanecer nesse ritmo de me manifestar musicalmente quando realmente tenho algo a dizer, participar de mais projetos como ator e viajar muito fazendo arte.

Fotos: Vitor Jardim; Styling Laura Cavalcante; Direção Criativa: Kleber Matheus
HBB – Mesmo no mundo dos sonhos, se você pudesse escolher qualquer artista para compor e cantar uma música junto, quem seria e por quê? O que você imagina que surgiria desse encontro?
Caio – Maria Bethânia!! Porque eu a considero de uma força interpretativa, de uma sensibilidade poética tão grande. Ela é cênica. Visceral. Autêntica. Pra mim, surgiria um projeto sagrado, porque a força que ela carrega é mítica.
HBB – Quando alguém escuta a sua música, qual sensação ou reflexão você gostaria de despertar nas pessoas? O que você sente que seu trabalho busca transmitir?
Caio – “Eu me vejo”. Gosto de pensar meu trabalho como um espelho, capaz de refletir aquilo que se passa no mais íntimo de quem ouve. E que isso, de alguma forma, colabore para que essa pessoa possa se sentir bem ao se enxergar. Somos únicos. Todos nós. E que bom.

