
Camisa e calça Francesca; corta-vento Piet + Pool; joias Bvlgari
Tiago Iorc completou 40 anos no dia 28 de novembro. Na primeira vez que nos vimos, em meados da década passada, ele tinha pouco mais de 30 anos, estava estourado com o disco Troco Likes e possuía um ar jovial de quem saboreava os primeiros prazeres do sucesso. O Tiago que encontrei em um café em Pinheiros, em São Paulo, tinha um aspecto mais sisudo – sem perder, contudo, a ironia de sempre –, estava mais bronzeado e agora ostenta barba. Os “enta” trouxeram outra mudança na carreira? “Dor nas costas. E hérnia de disco”, responde Iorc, sem perder o bom humor. “Eu tive uma crise séria quatro anos atrás. Tratei de forma conservadora, sem cirurgia”, conta. “Mas estou lidando com as sequelas. Faz seis meses que ainda não sinto um dedo. Tá vendo que ele não fecha direito?”, diz, mostrando a mão. Neste mês, Tiago inicia a turnê Troco Likes – Dez Anos, que revisita o disco que o transformou em ídolo pop e chamou a atenção de um dos totens da MPB (calma, mais detalhes adiante). A nova edição reúne releituras de IZA, Marina Sena, Ney Matogrosso, Vitor Kley, Menos é Mais, Os Garotin e Jota.pê. “Para mim, foi uma situação curiosa, porque eu tenho o costume de não olhar muito para trás. Mas achei bonito”, diz. “Pude revisitar a minha história e entender a dimensão que aquilo teve. Além disso, acabou sendo uma celebração em que me senti como um coadjuvante em meio a todos os tributos.” Marina Sena resume o entusiasmo: “Foi incrível participar desse momento tão icônico. A curadoria de Tiago foi demais. E acho que demos uma nova cara para De Todas as Coisas, uma sensualidade, um dengo”. A retrospectiva, porém, ainda lhe soa estranha. “Minha vida sempre foi movimentada”, justifica o cantor. “Essa coisa de não criar muita raiz e não criar muito apego.”

Full look Prada; anéis, relógio e pulseira Bvlgari

Regata Cohí; corta-vento Lacoste; shorts Adidas; meias Calzedonia; mocassim Prada; óculos Prada na Luxottica; joias Bvlgari
Tiago representa uma nova forma de pensar a carreira. Fez shows com o mínimo de banda – às vezes apenas com o violão –, planejava turnês com antece- dência para reduzir custos e criou ações como apresentações no Dia dos Namorados e um show-surpresa na avenida Paulista, em 2015, interrompido pela polícia porque reuniu uma multidão. Enquanto muitos contemporâneos apostavam na mídia tradicional, cultivou uma relação direta com o público, antecipando o que hoje se chama de comunidade. Também ajudou a renovar o pop brasileiro. Seu cancioneiro, batizado pela crítica de “ folk fofo”, abriu caminho para artistas como Anavitória e Vitor Kley. “Eu até hoje lembro de quando escutei Amei Te Ver na rádio e me identifiquei logo de cara com aquele som”, diz Kley. A admiração virou amizade. “A gente chegou até a dormir na praia”, lembra, sobre uma viagem pelo litoral catarinense acompanhando a banda Dazaranha.

Bermuda Misci; sapatos Viga; gravata Dod Alfaiataria; camisa Working Title; blazer Francesca; moletons Osklen e Piet; joias Bvlgari

Full look Dior; anéis, relógio e pulseiras Bvlgari
O sucesso chamou a atenção de Milton Nascimento (sim, chegamos ao totem da MPB!), que viu Tiago can- tar na televisão. “O (produtor musical) Marcus Preto, que é um grande amigo, fez a ponte para que Tiago e meu pai se conhecessem”, conta Augusto Kesrouani Nascimento, filho e empresário de Bituca. “O Tiago morou com a gente em Juiz de Fora por um período e vi, então, uma oportunidade de levar o meu pai para um público jovem.” A aproximação rendeu shows no fim de 2017 e a parceria Mais Bonito Não Há. A fama, porém, também trouxe cobranças. “Veio o excesso de trabalho, excesso de bebida, sabe? Quando a gente está desconfortável com a nossa capacidade de sentir, a gente fica buscando esse recurso em outras coisas”, confessa. “Fiquei um mês sem dormir. Eu deitava exausto de sono e minha cabeça não desligava.” A pausa veio em 2018, com um sabático em Los Angeles. Para compor? Não: para jogar bola com o guitarrista Mateus Asato (!!!). “A gente criou uma irmandade, uma parceria. Fomos achar uma pelada para jogar. Assim, eu fui resgatando esses prazeres de coisas que eu tinha deixado de fazer. E aquilo foi devolvendo a minha sensibilidade”, diz. Tiago passou seis meses na cidade americana e depois voltou para Santa Catarina, na casa dos pais. Dali, partiu para a Bahia, onde ficou em uma casa alugada, na Costa do Sauípe, do compositor e multi-tudo Carlinhos Brown. Devidamente reconstruído, retomou o disco batizado de Reconstrução. Depois, veio o Acústico MTV e… pandemia. O reinício veio com Daramô, de 2022, quando Tiago acrescentou uma brasilidade às composições, antes mais próximas do folk americano do que do banquinho e violão da bossa nova. “Sou um brasileiro tardio. Cresci no exterior, minhas referências são as músicas que tocavam nos países onde morei”, diz o cantor, que viveu na Inglaterra e nos Estados Unidos por causa da profissão do pai, engenheiro agrônomo. “Eu comecei a tatear pelo universo brasileiro a partir do Troco Likes. Onde eu era James Taylor, hoje sou João Bosco. Eu tocava violão de corda de aço, hoje uso violão de corda de nylon, mais comum na música brasileira. O Daramô é um reflexo disso.” Hoje, Tiago escuta Edu Lobo e deve participar do disco em homenagem aos 80 anos de João Bosco, de quem virou amigo. “Penso que estamos conectados por uma curiosidade musical.”

Calça Osklen; camisa Cohí; camiseta Piet + Pool; jaqueta Piet; chuteiras New Balance; joias Bvlgari

Calça Osklen; camisa Cohí; camiseta Piet + Pool; jaqueta Piet; chuteiras New Balance; joias Bvlgari

Camiseta Misci; anel e relógio Bvlgari
Em uma entrevista em que pouco falou da vida pessoal, Tiago deu algumas pistas. A espiritualidade, desenvolvida por meio da meditação, das orações e do contato com a natureza, o ajudou a controlar os excessos. “Eu venho de uma família que teve alguns problemas com a bebida. Hoje, eu não sinto vontade de beber e acho isso excelente. Mas também não gosto de ser proibido de beber. Se eu achar que uma determinada comida funciona melhor com uma taça de vinho, eu tomo.” Para ele, o encontro com a espiritualidade se dá de muitas formas. “Principalmente, através da música”, resume. Pensando bem, o Tiago Iorc de hoje parece bem diferente do rapaz ansioso de uma década atrás. E você, Tiago, está bem? “Sou um funcionário da canção e empregado do Tiago Iorc. E isso tem me ajudado na hora de pagar as contas.”

Calça e jaqueta 7 For All Mankind; bermuda Adidas na Sunika; camiseta e rasteira Misci; óculos Ray-Ban
na Luxottica; joias Bvlgar

Jaqueta acervo do stylist; pulseira Bvlgari
Créditos:
Fotos: FERNANDO MENDES
Styling: GABRIEL BINOW
Direção criativa: KLEBER MATHEUS
Texto: SÉRGIO MARTINS

