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Will Santt chega ao Festival de Música de Saint Barthélemy em um momento-chave da sua trajetória. Em sua quarta turnê europeia, o cantor e compositor brasileiro de 22 anos se apresenta nesta segunda (19.01), na Igreja Anglicana da ilha, integrando a programação de um dos festivais mais respeitados do Caribe, que há 42 anos celebra a música como linguagem universal. “Tocar em um festival com tanta história traz responsabilidade e calma ao mesmo tempo. É menos sobre impressionar e mais sobre honrar o espaço”, diz o artista à BAZAAR Man.

A apresentação acontece às vésperas do lançamento de Cores do Meu Coração, seu novo álbum de estúdio, gravado em fevereiro de 2025 nos estúdios da Red Carpet Productions, em Maiorca, na Espanha. Com lançamento marcado para 30 de janeiro, o disco aprofunda a relação do artista com a Bossa Nova contemporânea. “É um trabalho íntimo, cuidadoso nos arranjos, que nasce do silêncio e da escuta, mas sem perder o espírito vivo da música”, afirma. Leia, a seguir, a íntegra do papo:

Queria começar falando sobre o timing do universo. Luísa Sonza acaba de lançar “Bossa Sempre Nova”, um álbum com Roberto Menescal e Toquinho, e você está nesse movimento de renovação do gênero. O que você acha desse diálogo com o pop?
Eu vejo esse movimento com bons olhos, desde que ele seja honesto. A Bossa Nova sempre foi moderna no seu tempo. O diálogo com o pop pode ser interessante quando parte do respeito pela linguagem, pela sutileza e pela intenção musical. O risco está em usar a Bossa só como estética, sem compreender o que ela carrega de silêncio, espaço e sofisticação. Quando esse cuidado existe, o encontro pode ser bonito e necessário.

Você já disse que sua maior inspiração é o Djavan, mas que se sentia um “velho por dentro” ouvindo Tom e Elis aos 12 anos. Como essas duas forças, a sofisticação da Bossa e o balanço do Djavan, conversam na sua música?
O Djavan me ensinou que a sofisticação não precisa ser fria, que ela pode dançar. Já o Tom e a Elis me apresentaram cedo uma música que respeita o silêncio, a harmonia e a melodia. Na minha música, essas forças se encontram no equilíbrio: harmonia refinada com balanço; letra delicada, mas viva. É como se a Bossa fosse a estrutura e o Djavan fosse o pulso.

Sabemos da história de como Emanuel virou Will Santt (por causa do seu cabelo, que lembravam o de Will Smith). Como você se relaciona com esse nome artístico hoje? Ele te ajuda a separar a pessoa do artista ou já se tornaram uma coisa só?
No começo, o nome surgiu como brincadeira. Hoje, ele já não é máscara. Will Santt e Emanuel coexistem. O nome não serve para esconder, mas para potencializar aquilo que eu já sou. No palco, eu sou mais concentrado, mais silencioso, mas não é um personagem: é uma amplificação da minha essência.

Sua carreira internacional é impressionante e, em certa medida, mais consolidada que no Brasil. Você já tocou em Davos a convite de Angélique Kidjo e fez turnê pela Europa. A que você atribui esse sucesso lá fora? O público estrangeiro tem uma escuta diferente ou mais aberta para a Bossa Nova hoje?
Acredito que o público estrangeiro escuta a música brasileira com menos preconceitos geracionais. Lá fora, ninguém questiona a idade de quem toca Bossa Nova, só a verdade do som. Existe também um respeito grande pelo Brasil como berço de uma música sofisticada. Talvez o Brasil ainda esteja redescobrindo o próprio valor cultural.

Você já contou que aprendeu violão “com raiva” para não brigar com seu irmão pela bateria. Como foi esse processo de se tornar um violonista autodidata tão refinado? E o que daquela “raiva” inicial ainda move sua música hoje?
A raiva inicial virou obsessão. Eu estudava por necessidade, depois por curiosidade e, por fim, por amor. Ser autodidata me obrigou a ouvir muito, a errar muito e a criar meu próprio caminho técnico. Hoje, o que ficou daquela raiva foi a intensidade: a vontade de ir fundo, de não tocar nada pela metade.

É inevitável não associar sua voz baixa e o violão minimalista a João Gilberto. Mas você já disse que se irrita com a ideia de ser um “decalque”. O que, na sua opinião, é a assinatura inconfundível do Will Santt, aquilo que é só seu?
Minha assinatura está na forma como eu organizo o tempo e o silêncio. Meu violão é percussivo, quase arquitetônico, e minha voz não tenta imitar nada: ela aceita suas fragilidades. Não busco a perfeição, busco presença. Isso cria uma identidade que não vem da referência direta, mas da vivência.

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Seu visual, com o cabelo black power ou cacheado e as roupas de estilo retrô, também chama a atenção. Como você pensa a sua imagem e de que forma ela se conecta com a sua música, que é ao mesmo tempo clássica e contemporânea?
Minha imagem não é pensada como moda, mas como coerência. Gosto de referências atemporais, de algo que poderia existir hoje ou há 60 anos. Assim como a minha música, meu visual não tenta seguir tendências: ele tenta permanecer.

Você tem essa missão pessoal de “trazer a Bossa Nova de volta”. Se você pudesse criar uma colaboração dos sonhos com um artista de outro universo, como o rap ou o funk, para furar a bolha e levar a Bossa para um público ainda maior, quem seria?
Recentemente recebi um convite do Xamã para colaborarmos juntos. Vejo nele um artista excepcional, consciente da palavra, do ritmo e da construção estética, e acredito que nossas musicalidades podem dialogar bem. Também penso na Liniker, pela força interpretativa e pela sofisticação emocional, e na Luísa Sonza, que tem mostrado curiosidade artística e abertura para experimentar novos territórios. São artistas que me chamam atenção porque não têm medo de atravessar linguagens.

Seu primeiro álbum foi gravado ao vivo no Blue Note, um palco icônico. Agora que você já rodou o mundo, o que podemos esperar do seu próximo disco? Será um trabalho de estúdio, com outras sonoridades, ou a energia do ao vivo ainda te atrai?
O próximo disco se chama Cores do Meu Coração e é totalmente de estúdio. Foi gravado em fevereiro de 2025, nos estúdios da Red Carpet Productions, em Maiorca, na Espanha. O álbum terá 11 canções autorais, todas escritas por mim, e será lançado no dia 30 de janeiro. Duas músicas já saíram como single: Pra Dois, ou Três e Dona do Mar. Convidei Lucas Duarte (violoncelo) e Ivan Sacerdote (clarinete), cada um em três faixas. É um disco íntimo e cuidadoso nos arranjos, que nasce do silêncio e da escuta, mas sem perder o espírito vivo da música.

Você já falou sobre as críticas que recebeu no início por ser jovem e querer tocar Bossa Nova. Qual foi o momento ou o desafio mais difícil que te fez pensar em desistir, mas que, no fim, te deu a certeza de que estava no caminho certo?
O momento mais difícil foi perceber que muitas críticas não vinham da música, mas do medo de mudança. Quando entendi isso, parei de tentar convencer e passei a apenas tocar. A resposta veio no silêncio atento do público: ali eu tive certeza.

Suas letras falam de amor e do cotidiano com uma sensibilidade poética. Onde você busca inspiração? Você é mais um observador do mundo ou suas canções são um reflexo direto das suas próprias experiências e relações?
Eu observo para depois sentir. Minhas canções não são diários literais, mas traduções emocionais do que vivi, ouvi ou percebi. Às vezes, uma história que não é minha diz mais sobre mim do que uma confissão direta.

Fora da música, o que você faz para se desconectar? O que o Will Santt ouve na playlist quando não está tocando ou compondo Bossa Nova?
Quando estou em turnê e volto para São Paulo, costumo me recolher. Às vezes passo até dois meses quase sem sair, só indo à padaria ou ao mercado. É um tempo de desconexão e descanso energético. Fico em casa ouvindo vinis, acompanhando notícias, documentários, séries e filmes, às vezes maratonando em um dia.

No primeiro mês, raramente pego no violão. Depois, volto a tocar, componho arranjos, escrevo canções e penso em repertórios e shows. Escuto muito jazz, especialmente a playlist Jazz in the Background, quase todas as manhãs enquanto preparo meu cuscuz. Gosto muito do Tigran Hamasyan, e também ouço rock, R&B, MPB e, às vezes, pop americano. Quando esse período acaba, gosto de voltar a circular: festas, encontros musicais, saraus, parques, natureza e pedalar pela cidade para descobrir novos lugares.

Você está em sua quarta turnê europeia e agora se apresenta no Festival de Música de Saint Barthélemy, uma instituição que há 42 anos celebra a música como linguagem universal. Como é estar em um festival tão tradicional e respeitado? O que muda na sua energia quando você toca em um lugar assim, com tanta história?
Tocar em um festival com tanta história traz responsabilidade e calma ao mesmo tempo. Você entende que faz parte de algo maior, de uma continuidade. Minha energia fica mais concentrada, mais respeitosa. É menos sobre impressionar e mais sobre honrar o espaço.

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