Polinésia Francesa

A natureza expressa em três elementos: a terra, a água e o ar. A alma e a riqueza da cultura polinésia

by Patrícia Favalle

Por Shoichi Iwashita, editor do Simonde

Se a experiência nas Maldivas é estar literalmente ilhado no hotel sem nenhum contato com a população muçulmana local (as Maldivas são regidas pela sharia, a lei islâmica radical), e nas ilhas Seychelles, Maurício e grande parte do Caribe, os povos originários foram dizimados e os negros trazidos da África, convertidos para a cultura de seus colonizadores, o grande diferencial da Polinésia – essa área gigantesca formada pelo triângulo Nova Zelândia, Havaí e Ilha de Páscoa –, além de todos os elementos que a gente espera dos destinos românticos e paradisíacos para serem curtidos a dois (água turquesa com praias de areias fofas, natureza preservada e abundante, hotéis de sonho), são o povo apaixonante e sua cultura: a dança extremamente sensual com coreografias repletas de lendas, as dezenas de dialetos bem diferentes entre si, as decorações com flores e folhas nos corpos e nos ambientes, as tatuagens tribais milenares e os cânticos e as canções que têm vivido um renascimento nos últimos anos (as tattoos, por exemplo, haviam sido banidas no século 18 pelos cristãos e voltaram com tudo nos anos 1980 não só entre os polinésios). E o ápice desse renascimento cultural acontece anualmente no mês de julho no Heiva, o grande festival que mobiliza muitas ilhas polinésias e que lembra a dinâmica dos nossos desfiles de escolas de samba ou de Parintins, quando grupos enormes se apresentam com músicas, coreografias e figurinos originais – e meses de ensaios preparativos – a cada ano.

Apesar de ter esse mesmo povo desbravador dos mares como primeiros habitantes (eles viajavam milhares de quilômetros de oceano em canoas de madeira dois mil anos atrás), as centenas de ilhas minúsculas espalhadas por todo o Oceano Pacífico têm diferentes donos: o Havaí é território ianque; a Ilha de Páscoa, chileno; a Nova Zelândia tem como rainha a britânica Elizabeth II; e apenas a Polinésia Francesa, atualmente uma coletividade ultramarina da França (assim como as caribenhas Saint-Barth e Saint-Martin), é formada por 118 ilhas, divididas em cinco arquipélagos, abrangendo uma área maior do que o continente europeu. Isso quer dizer que se passa quatro horas (!) no avião, em um voo sem escalas, para ir do Taiti, onde fica a capital Pape’ete, para chegar à Nuku Hiva, no arquipélago das Marquesas, onde está a Polinésia em seu estado mais rústico (já um voo entre Mangareva, uma das ilhas mais ao sul e com uma população de 1.200 habitantes, e Nuku Hiva leva dez horas com apenas uma escala em Pape’ete).

O Taiti, que no imaginário popular é erroneamente confundido com a Polinésia Francesa em si (o fato de as duas companhias aéreas polinésias terem como nome Air Tahiti e Air Tahiti Nui não ajuda), é apenas o nome de uma das ilhas – e das menos bonitas, preciso dizer (as praias têm areia e águas escuras e os melhores hotéis não estão ali), que na viagem vai servir só como ponto de passagem entre o aeroporto internacional de Fa’a'a (por onde chegam os voos de Los Angeles, Auckland e Santiago) e as outras ilhas que acabam por ser os verdadeiros destinos da viagem, como Mo’orea, Rangiroa, Bora Bora, Tikehau, Tetiaroa, Taha’a. Mas, como a passagem por Pape’ete (a capital da Polinésia Francesa, na ilha do Taiti) é obrigatória, aproveite o tempo entre um voo e outro – os horários são sempre um pouco complicados – para uma introdução à cultura local: conhecer o mercado municipal Mapuru a Paraita, onde se encontra não só frutas e legumes locais, mas também artesanato, o monoï, (o óleo que é feito com coco e a flor Tiaré, da mesma família da nossa gardênia, usado para massagens e hidratação de cabelos) e pequenos restaurantes no mezanino que servem comida típica; visitar o museu de pérolas Robert Wan e o museu do Taiti Te Fare Manaha (com foco na história e nas tradições polinésias), sem deixar de conhecer as joalherias que vendem as enormes pérolas pretas dos mares do Sul.

MO’OREA: MONTANHAS, FLORESTAS, TEMPLOS MILENARES E ABACAXIS

Nos melhores hotéis da Polinésia Francesa, o delicioso abacaxi dos sucos e das saladas de frutas tem uma procedência: Mo’orea, a “ilha-irmã” do Taiti – a mais próxima, e acessível por modernos e confortáveis ferries, em 30 minutos de viagem – que encanta pela topografia, com suas montanhas altas forradas de florestas densas que fazem um belo contraste com a água azul-turquesa que circundam a ilha. Apesar do crescimento nos últimos 30 anos (a população é hoje de 16 mil habitantes), a atmosfera segue tranquila, com aquele clima de cidade do interior, mas com ótima estrada (não tem como se perder já que só tem uma, que dá a volta na ilha), quilômetros de ciclofaixas, e pequenos e sinuosos caminhos (esses acessíveis apenas por veículos 4×4) que levam às plantações de abacaxi, banana e baunilha, aos mirantes e ao sítio arqueológico repleto de marae, os templos sagrados (umas “camas” de pedras retangulares) onde os sacerdotes polinésios invocavam os deuses para obter o mana, a força espiritual que era responsável pela saúde e fertilidade (mas para conseguir o mana era preciso dar algo em troca, e é aí que entravam os sacrifícios de animais e homens; a vida humana era o maior presente que se poderia ofertar aos deuses).

Para explorar a ilha, são várias as opções de transporte: pode-se alugar carro, scooter ou bicicleta (são diversas trilhas, em diferentes níveis de dificuldade, todas sinalizadas), contratar um tour que leva quatro horas, ou ainda, se você tiver espírito aventureiro, conduzir o quadriciclo 4×4 acompanhado de um guia (prepare-se para emoções pois as subidas são íngremes). E no hotel Intercontinental Mo’orea, que ocupa uma área de 110 mil metros quadrados de jardins, praia e lagoa, você já pode entrar no clima polinésio, se hospedando em um dos bangalôs sobre a água, um estilo de acomodação que foi inventado na própria ilha, em 1967, pelos Bali Hai Boys, três californianos que vieram morar em Mo’orea e quiseram criar uma construção que traduzisse o espírito taitiano.

No que se refere à gastronomia, a boa notícia é que dá para ser feliz em restaurantes independentes, fora do hotel. E mesmo sem ter alugado carro, é só fazer a reserva e o restaurante vem te buscar (e ainda traz de volta), sem cobrar nada por isso (o que é ótimo para poder beber). No Mayflower, considerado o melhor restaurante de Mo’orea, você vai ter uma superexperiência com os ingredientes locais: peixes e frutos do mar preparados com técnica francesa, pelo chef Vincent Beauquin. O ambiente é simples, mas charmoso, e a comida bastante sofisticada.

RANGIROA: BALEIAS, GOLFINHOS, TUBARÕES, O MELHOR SNOKELLING DA VIDA E O ÚNICO VINHO DA POLINÉSIA FRANCESA

Partindo das ilhas Sous-le-Vent que formam o arquipélago da Sociedade (da qual fazem parte Taiti, Mo’orea e também Taha’a, Bora Bora e Raiatea), partimos em direção ao arquipélago de Tuamotu, para Rangiroa, o paraíso dos mergulhadores e segundo maior atol do mundo (atol é uma ilha vulcânica que afundou, sobrando apenas o contorno circular formado pelos corais que, um dia, faziam parte do ecossistema da ilha, e acabam por se transformar elas mesmas em pequenas ilhas, ou motu, em taitiano), onde, diferentemente do Taiti e de Mo’orea, não há montanhas (os coqueiros são as coisas mais altas que se encontram por aqui). O voo direto do Taiti dura uma hora (são 350 quilômetros de distância) e, ao chegar, você já se depara com o espírito polinésio: o aeroporto minúsculo à beira-mar onde a pista de pousos e decolagens é rodeada de areia (sem esteiras de bagagens, as malas são entregues em mãos); o hotel que recebe os viajantes com colares de flores Tiaré (as  flores são de verdade e costuradas a mão); a música por todos os lados (se não houver alguém de hotel ou empresa de transfer tocando ukulele, esse irmão mais simples e menor do violão, vai ter alguma família ou grupo de amigos cantando no aeroporto); e sem acesso à internet, mesmo que você tenha comprado um chip da operadora local (não espere tampouco por sinal bom de wi-fi no hotel: é uma eternidade até para subir uma mera fotinho no Instagram).

Rangiroa tem um único hotel de luxo (o resto são pensões) que é o Kia Ora, um hotel de japoneses, que, além de contar com alguns bangalôs sobre as águas calmas (o hotel está virado para a “lagoa”, com aquele tom de azul lindíssimo, típico de águas rasas), oferece quartos de frente para a praia e também espalhados pelo jardim, que não têm acesso direto à praia, mas são mais espaçosos e possuem piscina privativa. Além da piscina de fundo infinito, de onde se pode observar o mar e já ver centenas de peixes, do próprio píer do hotel sai a excursão de barco de dia todo que nos leva para uma das experiências mais incríveis da Polinésia.

O passeio que começa no Lagon Bleu, do outro lado do atol, a 30 quilômetros do hotel, inclui caminhadas pelos vários motu que circundam a lagoa (você já vai ver tubarões-galha-preta nadando enquanto caminha pelas águas entre um motu e outro), com direito a um churrasco de peixes fresquíssimos preparado pelo próprio capitão do barco (que entretém os viajantes cantando e tocando ukulele) numa cabana singela que parece saída do próprio filme “A Lagoa Azul”. De lá, voltamos para o barco e partimos para uma região próxima, mas de águas profundas, onde se pode nadar com os tubarões (e são centenas deles, incluindo alguns com dois, três metros de comprimento; é assustador pular na água com todos eles nadando ao redor do barco, mas até hoje nenhum acidente foi registrado). Um pouco antes de voltar para o hotel, eles ainda passam por Avatoru, uma área de corais onde fiz o melhor snorkelling da vida. A quantidade e variedade de peixes (de todas as cores, tamanhos e formatos), os corais e a cor do mar oferecem um dos mais belos espetáculos marinhos do planeta.

Mas a experiência com os animais aquáticos em Rangiroa não acaba aí. Próximo ao hotel fica a Passagem de Tiputa, um pequeno canal frequentado por baleias e golfinhos, que podem ser vistos confortavelmente do hotel e restaurante – com um terraço privilegiado, principalmente no por do sol – de Madame Joséphine, uma elegante francesa que chegou à Rangiroa trinta anos atrás e que, além de servir comida honesta em seu restaurante, é uma personagem incrível. E para se locomover pelo pequeno motu (só tem uma estrada reta com dois quilômetros de extensão em Rangiroa), o Kia Ora aluga não só scooters e bicicletas, mas também Twizzies, aqueles minicarrinhos elétricos que te levam tanto para o Relais de Joséphine quanto para a visita na vinícola Domaine Dominique Auroy, que produz, além de rum, o único vinho de toda a Polinésia Francesa, em videiras Carignan rouge que crescem praticamente na areia…

TETIAROA E UM DOS MELHORES HOTÉIS DO MUNDO

Nada te prepara para o que é o The Brando: um hotel de luxo que ocupa sozinho o atol de Tetiaroa, um dos mais belos, históricos e protegidos da Polinésia, a apenas 50 quilômetros do Taiti. Um hotel que tem companhia aérea própria, a Air Tetiaroa, com três aviões novinhos e um terminal privativo no aeroporto internacional de Fa’a'a em Pape’ete; com um restaurante gastronômico assinado pelo chef-duas-estrelas-Michelin Guy Martin, do Grand Véfour de Paris; e tão sustentável, que, além das hortas orgânicas, da criação de abelhas (não deixe de comprar o mel do hotel), da reciclagem de praticamente todo o lixo e de duas ONGs próprias e exclusivas de preservação ambiental que recebe cientistas de diversos países, eles têm um sistema de ar condicionado – único no mundo – que é gerado a partir de águas que vêm de dois mil metros de profundidade (a quatro graus Celsius) e é distribuída por uma tubulação subterrânea, resfriando todas as áreas fechadas do resort, e economizando 90% de energia elétrica (o tour pelos bastidores do hotel é um dos mais populares entre os hóspedes).

Sonho de Marlon Brando, que comprou Tetiaroa depois de se apaixonar e casar com a atriz taitiana Tarita Teriipaia, com quem contracenava no filme “O Grande Motim”, de 1962, o The Brando só foi concluído após sua morte pela Pacific Beachcomber. A companhia, que é também proprietária dos hotéis Intercontinental Tahiti, Mo’orea, Bora Bora, e da companhia de cruzeiros especializada em roteiros pela Polinésia, a Paul Gauguin, respeitou os desejos do ator norte-americano (o projeto de ar condicionado sustentável era de Marlon Brando) para inaugurar esse, que é considerado um dos hotéis mais luxuosos do mundo, em 2014 (o atol ainda pertence à família de Marlon Brando, e a Pacific Beachcomber aluga o sul do motu de Onetahi, um dos doze motu que formam Tetiaroa, para o The Brando).

São apenas 35 vilas, todas com piscina privativa e vista para o mar, sendo que a menor, de um quarto, tem 96 metros quadrados (sem contar os amplos jardins que fazem com que não se enxergue as casas vizinhas). Todas as vilas possuem suas próprias bicicletas (por que todos os resorts não são assim?) para que você circule pela propriedade (incluindo um dos mais belos spas do mundo), e não se preocupe em ir jantar com a bike, beber demais no restaurante e querer voltar com um funcionário do hotel de carrinho elétrico para dormir. Não importa onde você a deixe, no dia seguinte, ela estará novamente na porta da sua vila, impecável e pronta para usar.

Esse é o nível de serviço que oferece o The Brando, que funciona no sistema tudo-incluso (tudo o que estiver marcado nos cardápios com o símbolo do hotel, o cavalo-marinho, você pode pedir à vontade; para ingredientes como trufas, caviar e alguns rótulos estelares de vinhos da adega do Mutinés, o restaurante do Guy Martin, é só pagar à parte). Os funcionários do restaurante e do bar lembram o vinho que você tomou no dia anterior, se você estiver na piscina e quiser alguma coisa do quarto, é só pedir e eles trazem, e é possível ainda fazer aulas de dança típica e de língua polinésia com uma das simpáticas monitoras do hotel.

Mas o melhor do The Brando é que nem o luxo, a ótima comida, os vinhos e o serviço conseguem ofuscar a natureza do atol, que era considerado um lugar sagrado e servia de refúgio para os reis polinésios. O Banho da Rainha, uma das praias mais lindas – e desertas – do Taiti está em Tetiaroa (que tal solicitar um piquenique romântico por lá?), e observar a vegetação (são mais de 38 plantas indígenas, seis delas muito raras) e os pássaros que vivem em alguns dos motu a bordo de um caiaque (que o staff do hotel leva dentro dos barcos para que você faça o passeio quando chegar aos lugares mais incríveis), sempre acompanhado por um guia da ONG Tetiaroa Society. Certamente são cenas que farão da sua lua de mel uma viagem impossível de se esquecer durante essa e outras vidas.