Arroz branco x arroz dourado - Foto: reprodução
Arroz branco x arroz dourado – Foto: reprodução

Por Júlia Tibério

Fabricado em laboratório nas Filipinas, em 2000, a partir de pesquisas para suprir a carência de vitamina A de crianças subnutridas do país, o chamado arroz dourado acabou caindo nas graças de pessoas com necessidades um tanto diferentes daquelas: mulheres em busca de cabelos mais fortes e brilhantes, melhor funcionamento hormonal, manter a pele jovem e os dentes brancos. A tendência, um tanto contraditória, começou quando os médicos passaram a recomendar o consumo também para mulheres grávidas, que logo perceberam que o grão trazia outros benefícios, além da nutrição.

“A genética do arroz dourado é modificada através da inclusão de um gene do milho e outro de uma bactéria, para que ele produza betacaroteno, um precursor de vitamina A”, explica Aderuza Horst, nutrigeneticista e consultora do Centro Brasileiro de Genomas. É do milho que vem o tom amarelado do arroz, daí o nome. A carência da vitamina A é responsável por quase 2 milhões de mortes ao ano, além de incontáveis casos de cegueira, entre outros malefícios. “Além de ser importante para o sistema imunológico, essa vitamina melhora a elasticidade e estimula o bronzeamento da pele, é antioxidante e aumenta o brilho e a força dos cabelos”, completa Aderuza.

Daí o hype de beauté em torno do alimento. O que ainda não se sabe, entretanto, e tem causado uma verdadeira guerra entre médicos, pesquisadores e ativistas de todo o mundo, é quais são os efeitos colaterais do consumo a longo prazo, seja para fins nutricionais ou estéticos, já que se trata de um alimento transgênico.

Em matéria publicada pelo site filipino GMA News Online, que repercutiu algumas semanas depois no The New York Times, Michael Purugganan, professor de Genômica e Biologia e pró-reitor de Ciências da Universidade de Nova York, defende o consumo do arroz dourado, argumentando que os genes nele inseridos para aumentar o potencial de betacaroteno não são nenhum material manufaturado esquisito, mas, sim, genes naturais, que já existem e podem ser encontrados em abóboras, milhos, cenouras e melões. Michael afirma que o grão foi testado por cientistas da Organização Mundial de Saúde e não oferece nenhum risco às mulheres que o consomem. A torcida contra, entretanto, é enorme.

Em agosto passado, 400 manifestantes destruíram uma plantação em Bicol, nas Filipinas, alegando que, além de cientistas não saberem os riscos do consumo a longo prazo, o arroz é apenas objeto de altos lucros de grandes indústrias agroquímicas. Enquanto as discussões internacionais continuam, o arroz dourado deve chegar ao Brasil para venda no segundo semestre.

“O arroz dourado pode, sim, melhorar nosso cabelo e a aparência de pele enrugada. Contudo, é melhor ter cautela”, adverte a nutricionista funcional Daniela Jobst, de São Paulo. “O que acontece com alimentos transgênicos é que nosso corpo não reconhece a sequência final do DNA, o que pode nos trazer algumas infecções, alergias e até câncer”, alerta. “Nós temos tantos alimentos ricos em vitamina A – inclusive os que tiveram alguns de seus genes usados para enriquecer o arroz –, abusar deles é a maneira mais saudável de se obter os benefícios desejados.”

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