O presidente da Sisley Philippe d’Ornano - Foto: reprodução
O presidente da Sisley Philippe d’Ornano – Foto: reprodução

Por Anna Paula Buchalla

Quando o assunto são novos lançamentos, a família d’Ornano, proprietária da Sisley, marca francesa que praticamente criou o termo fitocosmetologia e devota da perfumaria fina tradicional, não tem pressa. “Nossos produtos só são lançados quando realmente estão prontos. E isso pode levar dois, cinco e até vinte anos”, diz o presidente da empresa, Philippe d’Ornano.

Foi assim com a estrela mais recente da marca, o Supremÿa Yeux La Nuit, um poderoso creme rejuvenescedor noturno para o contorno dos olhos, que levou quatro anos entre pesquisas e testes para chegar ao mercado. A espera invariavelmente vale a pena.

A família já está na terceira geração à frente dos luxuosos cosméticos. O avô de Philippe criou a Lancôme em 1935. Dezenove anos mais tarde, em 1954, seu pai, o conde Hubert d’Ornano, fundou a Orlane. Em passagem recente pelo Brasil, Phillipe conversou com Bazaar:

Harper’s Bazaar: Foram quatro anos até o lançamento de Supremÿa Yeux. O que as consumidoras podem esperar do produto?
Philippe D’Ornano: Posso dizer que a espera valeu a pena. A Sisley tem essa tradição de só lançar um produto quando ele está realmente pronto. Nós não temos pressa para comercializar novas fórmulas. Não temos estratégia de marketing montada e não lançamos novos produtos todos os anos. Os ingredientes das plantas variam muito e temos de estar seguros de que usamos os ativos certos nas proporções corretas. A Sisley já é tradicionalmente muito forte em skincare para o contorno dos olhos, a área mais sensível e de maior expressão do rosto. Temos o Phyto-Cernes que faz muito sucesso no mundo todo e é ótimo contra envelhecimento e olheiras. São todas fórmulas complexas, com mais de 15 ingredientes combinados. A grande vantagem do Supremÿa Yeux é que ele age durante a noite, quando a pele está se recuperando dos danos do dia.

HB: Na sua opinião, o que faz os produtos da Sisley terem esse status icônico? A resposta estaria nos laboratórios sofisticados da empresa?
PD: As pessoas imaginam estruturas gigantescas quando se pensa em um laboratório de cosméticos. Mas na verdade, muito pouco do resultado que temos em uma fórmula se deve a máquinas e técnicas de extração. Assim como o primeiro computador foi criado por dois estudantes em uma garagem, as pesquisas nessa área se resumem a basicamente saber onde estão os melhores ativos naturais e qual a melhor forma de buscá-los. O que fazemos é juntar peças de um quebra-cabeça para chegar ao melhor resultado da fitocosmetologia, que é o centro do nosso trabalho há mais de uma década. Buscamos sempre o produto perfeito, com a melhor textura e a melhor eficácia. Muitas vezes, importamos a matéria-prima porque, assim como a uva tem o seu terroir próprio, o mesmo acontece com as plantas. Por sermos um negócio familiar, a decisão final sobre um lançamento é sempre nossa: minha, do meu pai, da minha mãe e de minha irmã. Cada detalhe do processo é acompanhado por nós e nada que não seja de nosso agrado pessoal sai do laboratório. A resposta a isso é medida pelo tempo que um produto continua a agradar os consumidores, mesmo depois de muitos anos no mercado.

HB: Como é para uma empresa familiar competir em um mercado com gigantes da cosmética?
PD: Somos uma empresa familiar, mas somos líderes em nosso segmento. Para mim, por exemplo, trabalhar com meu pai, que criou a Sisley, não é e nunca foi um desafio. Aprendo com ele e desenvolvemos a empresa juntos. Somos muito próximos e mantemos valores e inspirações familiares. Por sermos uma companhia grande (estamos hoje em 95 países), temos milhares de pessoas trabalhando para nós em várias partes do mundo. E, precisamos, claro, ter um perfil de negócio corporativo apesar de termos uma estrutura familiar. Mas a chave de tudo está nos nossos valores.

Supremÿa Yeux La Nuit - Foto: divulgação
Supremÿa Yeux La Nuit – Foto: divulgação

HB: Quais são esses valores?
PD: O primeiro deles é que somos realmente orientados pelo produto: não seguimos moda, nem tendências, mas focamos muito em tecnologia. A eficiência do produto e a qualidade da textura são essenciais no nosso negócio. E temos a vantagem de que não nos orientamos pelo preço, ao contrário de nossos competidores. Uma das grandes vantagens de uma marca como a nossa, que não tem ações em bolsa, é que não temos essa pressão de termos uma política de longo prazo. Temos a liberdade de se acharmos algo bom e ele for caro, podermos ir em frente com as pesquisas. Digo a nossos pesquisadores que eles não devem se preocupar com o preço. Grandes empresas, a certo ponto, precisam voltar atrás muitas vezes por causa dos valores mais altos. Nosso objetivo, evidentemente, não é ser uma empresa de produtos caros, mas se eles forem bons, temos isso a nosso favor e de nossos clientes, claro. Muitas vezes ouvimos dos consumidores que determinado produto é ótimo, mas é caro. Se ele é ótimo, é isso o que importa para nós.

HB: Quando a Sisley começou, nos anos 70, havia poucos produtos naturais no mercado. Hoje já são muitos. Como você vê esse movimento da indústria?
PD: Nos últimos 20 anos, houve uma grande revolução na indústria e muitas marcas migraram para os ativos naturais, o que é ótimo para todo mundo. Nossa vantagem é sermos os pioneiros nesse processo e termos o know-how de extratos botânicos por mais de 30 anos. Isso faz toda a diferença.

HB: Além de produtos para tratamento da pele, a Sisley também tem maquiagens e perfumes no seu portfólio. As pesquisas são fortes nessas outras áreas também?
PD: Eu costumo dizer que a Sisley não é uma marca única, mas é dividida em três: skincare, makeup e perfumes. E, para isso, temos que tratar cada uma delas como se fossem únicas. Nosso diferencial está justamente em agregar tratamento aos produtos de maquiagem. Este ano, por exemplo, chegamos à marca de um milhão de unidades do nosso lip balm, super hidratante e com uma textura inconfundível. Com relação aos perfumes, é curioso porque nossas criações são muito associadas à veia artística da nossa família. Minha mãe é uma apaixonada por pinturas, eu escrevo poesia, minha mulher trabalha com teatro…tudo isso nos dá muita base para a criação de uma nova fragrância, que tem muito da expressão artística.

"Nossos produtos só são lançados quando realmente estão prontos. E isso pode levar dois, cinco e até vinte anos", conta o executivo - Foto: divulgação
“Nossos produtos só são lançados quando realmente estão prontos. E isso pode levar dois, cinco e até vinte anos”, conta o executivo – Foto: divulgação

HB: Bem diferente do processo de criação de um creme de tratamento, por exemplo…
PD: Exatamente. Um creme de tratamento é bom ou não é. Simples assim. Já o perfume é subjetivo: tem que se encaixar na sua pele, na sua história, nas suas memórias. E essa é a beleza da coisa toda. O sucesso da perfumaria francesa está em fazer produtos que gostamos. E a Sisley tem uma história forte nesse sentido. Nossas escolhas são muito pessoais e não baseadas em testes. Certa vez, uma jornalista americana me perguntou como essências tão caras não eram submetidas a testes de aceitação com os consumidores. E eu respondi: “Mas nós fazemos, sim, testes. Meu pai testa todos os perfumes na minha mãe”, brinquei. Eau de Soir, por exemplo, foi um presente dele, criado especialmente para ela. E é um sucesso no mundo todo.

HB: Você testa os produtos também?
PD: Claro! Todos nós da família fazemos isso. Todas as quartas-feiras nós temos um encontro técnico para discutir pesquisas, estratégias e testar novos produtos e até as embalagens, porque elas são fundamentais. Conheço cada detalhe de cada produto (são cerca de 300 no portfólio da marca), e tenho os meus preferidos também. Participei ativamente do lançamento de nosso perfume mais recente, o Eau Tropicale, uma fragrância especialmente otimista. Atualmente estou usando o Sisley Youth, um hidratante revitalizante para as primeiras rugas também lançado recentemente. Como gosto muito de surfar, não fico sem o stick de proteção solar que tem um poder de fixação forte. E, claro, testei e continuo usando o Supremya Yeux.

HB: Qual a sua definição de luxo?
PD: As pessoas veem a Sisley como uma marca luxuosa, eu não. Claro, temos uma elegância em nossos produtos, mas, mais do que isso, somos uma marca de alto nível, com produtos ao mesmo tempo eficientes e bem tolerados, o que é muito difícil de conseguir. Nossa meta é levar beleza e bem estar às pessoas. É fazer com que elas envelheçam honestamente, ou seja, aceitem bem a idade, sintam-se bem com ela e os cosméticos são parte essencial nesse processo. É uma relação altamente emocional. E, claro, prazerosa também.