Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Muitos historiadores consideram que os antigos sumérios (primeira civilização a ocupar a região sul da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates) foram os inventores do batom, em 3.500 A.C. Outros gostam de acreditar que o verdadeiro nascimento da pintura labial foi no Egito antigo, quando homens e mulheres deixavam suas bocas avermelhadas com uma mistura de ocre vermelho, carmim, cera ou gordura.

Já na Grécia Antiga, as mulheres tinham pouco poder e não eram autorizadas a usar batom em público, com exceção das prostitutas, que na verdade possuíam mais poder legal, o que as possibilitava exibir pinturas labiais (que muitas vezes eram feitas com corante vermelho, suor de ovelha ou excremento de crocodilo). Isso infelizmente levou à primeira lei relacionada ao batom, que dizia que as prostitutas podiam ser punidas se aparecessem sem o batom, pois poderiam ser confundidas com “mulheres normais”.

Na Roma antiga, as mulheres estavam (relativamente) em uma situação melhor. Embora normalmente contivesse uma quantidade quase mortal de ingredientes tóxicos, o batom era usado por ambos os sexos durante todo o império, e servia também para distinguir a classe social das pessoas.

Período medieval
Ao longo da idade média (400 – 1400 d.C.) o batom era controverso: de um lado, os grupos religiosos condenavam a maquiagem por “desafiar Deus e sua obra”, do outro, a população tinha o uso como hábito, já que funcionava como um signo de distinção de classes sociais. Por exemplo, senhoras da alta-sociedade que moravam na região da atual Itália nos anos 1200 usavam uma coloração rosa-choque, enquanto as de classe inferiores eram vistas com tons de vermelho, que indicavam posição inferior.

Em 1700
Nessa época, o governo britânico aprovou uma lei que formalmente condenava o batom. Segundo os legisladores da época, “as mulheres que eram culpadas de seduzir os homens para o matrimônio por meio de cosméticos poderiam ser julgadas por bruxaria”. Como a Inglaterra, alguns estados norte-americanos também “protegiam” os homens da “malandragem” do batom, permitindo um casamento ser anulado se a mulher tinha usado alguma cor nos lábios durante a relação do casal. Felizmente, as mulheres na era pré-revolução francesa ainda assim não deixavam de usar batons vermelhos pois eles ajudavam a dar a impressão de “pele de porcelana”, que era o padrão desejado do período.

Em 1800
A pintura labial saiu de moda no mundo ocidental durante a maior parte de 1800, graças à influência da rainha Victoria. No entanto, segundo alguns historiadores, a década de 1860 marca o início do renascimento do uso de cosméticos em todo o mundo. A marca parisiense Guerlain teve seu primeiro batom bem sucedido comercialmente na década de 1880. Ele era feito a partir de toranja misturada com manteiga e cera. Como aplicar o batom ainda era visto como algo que deveria ser feito em total sigilo, a atriz de teatro Sarah Bernahrdt causou um enorme escândalo ao aplicar o produto em público no final do século XIX.

Início de 1900
Na virada do século 20, maquiagem já havia se tornado socialmente aceitável. De acordo com Madeleine Marsh, autora do livro “Compacts and Cosmetics”, a primeira e mais famosa manifestação de batom vermelho foi quando as sufragistas tomaram as ruas de Nova York em 1912 usando o produto na boca. Depois de séculos de autoridade masculina que restringia as mulheres de usarem batom por razões morais e religiosas, os lábios vermelhos se tornaram um verdadeiro símbolo da rebelião feminina.

Em 1915, o inventor americano Maurice Levy apresentou o primeiro batom em um tubo de metal deslizante. Esse momento pode ser considerado o nascimento desse cosmético como o conhecemos hoje. Apesar do avanço, a receita ainda era bastante rudimentar e incluía insetos esmagados, cera de abelha e azeite de oliva, o que tornava o batom rançoso após varias horas de uso. Além disso, muitas fórmulas continham ingredientes potencialmente tóxicos. Nos Estados Unidos, o congresso só começou a se preocupar com a segurança dos produtos cosméticos em 1938.

Clara Bow e Mae Murray - Fotos: divulgação
Clara Bow e Mae Murray – Fotos: divulgação

1920 – 1930
A resistência ao batom vermelho só diminuiu por causa da crescente popularidade da cor nos filmes, que contavam com estrelas do cinema usando lábios bem escuros. Os consumidores tentavam copiar as cores de suas atrizes favoritas, como Clara Bow e Mae Murray.

Em 1933, teve revista que declarou que o batom era “o cosmético mais importante para as mulheres”, o que evidenciou o crescimento contínuo das vendas do produto, mesmo com a grande depressão. Isso inspirou o Lipstick Effect (efeito batom), um termo usado pelos economistas para explicar por que os consumidores continuavam a comprar algo tão simples para levantar o ânimo durante épocas de grande dificuldade financeira.

Campanha com o “Vermelho da Vitoria” - Foto: divulgação
Campanha com o “Vermelho da Vitoria” – Foto: divulgação

1940
Durante a Segunda Guerra Mundial, os anunciantes de cosméticos introduziram política em suas campanhas publicitárias, criando cores como “Vermelho da Vitoria”. Essa era uma forma de encorajar as mulheres a manter o item como parte da rotina, apesar do que estava acontecendo no mundo. Um anúncio dos batons Tangee, por exemplo, declarava: “Nenhum batom… irá vencer a guerra. Mas ele simboliza uma das razões pela qual estamos lutando – o precioso direito da mulher ser feminina e linda em qualquer circunstância.”

A campanha "Fire and Ice", da Revlon - Foto: divulgação
A campanha “Fire and Ice”, da Revlon – Foto: divulgação

1950
A Revlon lançou sua icônica campanha Fire and Ice (Fogo e gelo) em 1952, que é conhecida como um dos anúncios mais eficazes na história do cosmético. A propaganda de página dupla incluía uma lista de 15 perguntas para “testar” se a personalidade da leitora se encaixava com o novo lançamento deles, batizado de Dorian Leight. Havia perguntas como: “Você já dançou descalça?” ou ” Você acha que qualquer homem consegue realmente te entender?” Para completar, as atrizes Elizabeth Taylor e Marilyn Monroe sempre apareciam com as bocas vermelhas, o que tornava o cosmético mais desejável e onipresente que nunca.

1960-1970
Em 1960 houve uma grande queda na popularidade dos batons vermelhos devido aos lábios, já que o movimento hippie fez com que a moda fosse ter uma aparência natural . Enquanto isso, alguns grupos feministas acusavam o batom vermelho de ser destinado exclusivamente para o prazer dos homens (essa mentalidade mudaria no final dos anos 1990, quando o feminismo da terceira onda encorajou as mulheres a desfrutarem de sua sexualidade e feminilidade em oposição à opressão patriarcal).

No entanto, com o surgimento do glamour da disco-era, os lábios cereja com gloss voltaram à moda. As subculturas do glamour e do punk rock também aumentaram o uso de batom por homens, embora isso não fosse muita novidade, já que os egípcios pintavam seus lábios milhares de anos antes de David Bowie.

Madonna em meados dos anos 1890 - Foto: divulgação
Madonna em meados dos anos 1890 – Foto: divulgação

1980 – 1990
A década de 1980 trouxe os lábios excessivamente vermelhos. Lembra de Madonna usando a cor em seus primeiros anos de fama? No entanto, o fim da década e os anos 1990 trouxeram uma forte tendência de batons nudes, suaves e seguindo uma paleta de tons de marrom. Quando o milênio chegou ao fim, o batom favorito das mulheres era aquele que combinava com o seu humor e aparência.

Dita Von Teese - Foto: Getty Images
Dita Von Teese – Foto: Getty Images

Dias atuais
Lábios vermelhos conseguem ser tão chiques hoje como há centenas de anos. Felizmente, é também muito mais provável que eles não contenham ingredientes tóxicos (embora seja sempre bom saber do que é feito o seu batom favorito). Na maior parte do mundo moderno, as mulheres têm a liberdade de exibir lábios vermelho-ardente, sem receio, e as pessoas são mais livres para usar o cosmético como meio de expressão, independente de seu sexo ou condição social. Talvez uma das maiores dificuldades que enfrentamos nos dias de hoje seja escolher o tom perfeito.