(Foto: Trunk Archive)
(Foto: Trunk Archive)

Por Rosana Rodini

Quarta-feira, 10h da manhã. No segundo andar de uma das esquinas mais nobres de São Paulo, Ariane Sameen me recebe. E eu começo a suar frio. Nervosismo cabível ao de uma primeira vez. Mas, pensando bem, aquela era a minha primeira vez. “Tira a roupa”, ordena, em tom tântrico. Tenho vontade de rir. Depois, penso em cobrir o rosto de tanta vergonha, mas obedeço. Deito-me no colchão, barriga pra cima. A sala tem meia-luz, música de fundo, todo um clima. “Fecha os olhos”, diz ela, enquanto aperta um ponto no meu pé e vai tocando minhas pernas, barriga, cabeça. “Respira. Não pense em nada, este momento é só seu”, diz, no que percebo que não estou respirando. Não pensar em nada? Pronto. Minha cabeça disparou: pensava que não queria estar ali, que queria que acabasse logo, pensei o que eu escreveria nestas linhas, depois, que não queria escrever mais nada, pensei em trocadilhos infames, na minha viagem, em uma saudade, pensei que eu morreria por um cigarro e que não queria mais pensar em nada. Impossível. Enquanto pensava em toda e qualquer coisa, já podia prever o desastre final, que era, justamente,não chegar ao final.

Pulei as preliminares do texto com esperança de chegar direto ao ponto (o G, no caso). Não deu. Corta, uma semana antes do meu one day stand.

“Foi o melhor orgasmo da minha vida.” A frase não é minha (bem que eu gostaria). Escutei numa mesa de bar e me interessei. É da minha profissão estar atenta às tendências – não só as da passarela, mas, principalmente, as do boca a boca, que incluem do papo de salão ao do botequim. Pois foi neste último que ouvi o trend da vez. Depois dos detox de todos os tipos, a onda agora entre as mulheres de São Paulo é chegar lá. Não que o orgasmo tenha saído de voga algum dia. Mas 70% das mulheres que praticam relação sexual têm dificuldade de atingi-lo. Aí que elas andam frequentando centros especializados no clímax, veja só. Pego o telefone de um deles, que fica nos Jardins, a poucas quadras da revista – só pode ser um sinal. “O Centro Metamorfose é o precursor de novas abordagens, revisadas e atualizadas, ligadas à visão original do tantra. Contamos com uma rede de terapeutas (você pode escolher o seu pelo site, que mostra foto e currículo de cada) credenciados em mais de 35 cidades no Brasil.” Leio e deduzo que tem muita gente gozando por aí. Ligo. E marco um horário, para depois me arrepender. Ossos do ofício. Ao menos este viria com happy end. Já na clínica, uma terapeuta me recebe. Hyanna Sannyas, “nome de batismo de Osho”, conta que mulheres entre 18 a 78 anos frequentam o Centro, que também atende homens. Mas, se até o ano passado eles eram maioria, agora elas dominam as sessões de até duas horas. Grande parte tem dificuldade para chegar ao orgasmo. Mas há também quem busque autoconhecimento. São quatro tipos de massagens: Sensitive Massagem (o corpo é a fonte de prazer); Êxtase Total Massagem (associar o prazer dos genitais ao restante do corpo); Yoni (desenvolvimento neuromuscular dos genitais); e G–Spot (hiperorgasmo e supraconsciência), em ordem crescente de intensidade e intimidade. Ela me indica a segunda.

Corta. Meia hora de massagem depois, viro de lado. Ela continua, meus pensamentos idem. Fico de costas, idem. Não estou sentindo tesão, só tensão. “Certeza que não vou chegar lá. Mas não era excitação técnica, orgasmo garantido? Vou escrever sobre quê? Vou fingir”, pergunto e respondo para mim mesma, para depois pensar no absurdo do pensamento. Penso ainda que as pessoas que sentem dificuldade para chegar lá durante o sexo talvez se sintam exatamente da mesma forma. Eu estava presente em todos os lugares, menos ali, onde deveria estar. Coisa louca a cabeça. Desisto de fingir. Viro de frente. Olhos fechados. Decido sair correndo. Desisto, eu estava nua. Escuto um som de borracha sendo esticada. Ela deve estar colocando a luva, penso (nossa, como eu penso!). E entro em pânico. Bom, aí ela começa. A massagem (pelo menos a que escolhi) é, digamos assim, pouco invasiva. Com movimentos alternados, toca o clitóris e outros pontos do órgão sexual, mas sem penetração. Percebo a minha respiração mais ofegante. Quando acho que vou chegar ao orgasmo, uma música cafona quebra o clima. Eu me distraio. Ela para. E eu penso que faria mais rápido sozinha, mas daí reflito que a graça deveria estar exatamente naquilo (ao retardar o clímax, você o potencializa). Até que, de repente, não penso em nada.

Um orgasmo dura entre 6 a 10 segundos. Seguindo as técnicas ali aplicadas, ele pode chegar a 23 segundos. Do lado de fora, acendo meu cigarro. Se foi bom pra mim? Claro. Um orgasmo sempre é, que dirá três em plena quarta-feira. Mas prefiro ainda aquele que vem acompanhado de uma taça de vinho ou numa manhã qualquer de domingo. Se indico? Óbvio, é libertador. E, em alguns casos, necessário. Se eu volto? Acho que, pra mim, já está mais do que visto. O preço do clímax? R$ 390.