Foto: Arquivo Harper's Bazaar
Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Se ele vai bem, todo o resto flui melhor, a cabeça inclusive. Por isso dizem que o intestino é o segundo cérebro. Não é apenas uma constatação. Há uma influência direta dos alimentos sobre o humor: 90% da serotonina, hormônio que traz a sensação de bem-estar, é produzida no nosso intestino. O inverso também é verdadeiro, ou seja, uma dieta rica em gorduras ruins e açúcar refinado pode nos roubar o bem-estar.

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Mais: um intestino inflamado ou em mau funcionamento leva a distúrbios de humor, depressão e até doenças degenerativas. Gastroenterologistas, endocrinologistas, nutrólogos e nutricionistas são unânimes em relatar o aumento das queixas gastrointestinais em seus consultórios. Síndrome do intestino irritável, diarreia, prisão de ventre, dor abdominal, úlcera ou gastrite são sintomas e doenças que, muitas vezes, vêm acompanhados de transtornos de ansiedade.

O problema é que, em resposta à pressão emocional, o organismo aumenta a produção de substâncias tóxicas ao estômago e ao intestino. Para se ter uma ideia, em 75% dos casos, a colite ulcerativa é psicossomática. “Quando um sistema desequilibra, isso repercute em todos os outros órgãos e podemos dizer que o intestino é o que tem maior poder de influenciar o nosso corpo”, diz a nutricionista especializada em modulação intestinal Juliana Maradei de Souza, do Rio de Janeiro.

Para entender a relação entre o estresse e o aparelho digestivo é preciso saber que há uma ligação direta entre o cérebro e ele. O que um sente será sentido quase que automaticamente pelo outro, pois há um nervo que faz a ligação direta entre o hipotálamo, área do cérebro responsável pelas emoções, e o estômago e o intestino. E, nós, brasileiros, por uma questão cultural, somos campeões em fazer do intestino nosso chamado “órgão de choque”.

Um estudo da Organização Mundial da Saúde realizada com 26 mil pessoas de diferentes países mostrou que 32% afirmaram ter problemas gastrointestinais quando se encontram em uma situação de estresse. “Essa conexão é feita através de uma grande área que contém em torno de meio bilhão de neurônios e alguns elementos cujos efeitos podem alterar o humor, gerar dor de cabeça, depressão, ansiedade e até mesmo mudar o comportamento alimentar”, explica Vânia Assaly, endocrinologista e nutróloga do Instituto Assaly Medicina Personalizada, de São Paulo.

Foto: Arquivo Harper's Bazaar
Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Segundo ela, boa parte das queixas gastrointestinais se deve também a uma mudança enorme na qualidade dos alimentos. Por exemplo, o trigo que hoje consumimos em forma de farinha nem de longe lembra o grão plantado por nossos antepassados. Geneticamente modificado, ele seria responsável até pelo aumento de casos (cada vez mais comuns) de sensibilidade ao glúten. “Desde o plantio, tipo de ração e alimento dado ao gado à forma como estes animais crescem rapidamente, produtos industrializados, empacotados, refinados, com corantes, adoçantes, enfim, muitas coisas ocorreram nos últimos 30 anos. E há um grande desajuste na qualidade dos alimentos – ricos em calorias e pobres em fibras e fitoquímicos, que seriam os temperos naturais à base de ervas conhecidas por suas propriedades de equilíbrio da flora”, explica Vânia.

Ou seja, temos açúcar demais, farinha demais, leite e carnes modificadas, produtos refinados. Ainda nos alimentamos rápido, comemos tarde e dormimos pouco. Tudo isso mexe com a sincronicidade da digestão, o que leva ao crescimento de bactérias mais fermentativas na flora intestinal que geram gases, inchaço, colites.

A dificuldade em perder peso pode ter sua raiz nesse desequilíbrio também. Uma microbiota desequilibrada pode ter maior capacidade de metabolizar carboidratos, multiplicar as células de gordura e dificultar o emagrecimento. “Outro ponto é que a simbiose entre os nossos genes e os genes das bactérias, o conhecido microbioma, vem se modificando. Artigos mostram que o excesso de antibióticos, anti-inflamatórios e inibidores da bomba de prótons também vêm mudando nosso microbioma”, diz a nutróloga Vânia Assaly. “Devemos nos atentar em tudo ao nosso redor: cosméticos, produtos de limpeza, água que bebemos. Tudo isso pode influenciar na composição da microbiota intestinal e afetar sua barreira, gerando endotoxinas”, afirma a nutricionista funcional carioca Leticia Vassimon Ghelman, também especializada em modulação intestinal.

Como a conexão cérebro-intestino é uma via de mão dupla, a recíproca é verdadeira: doenças neurológicas podem ter começo em problemas no intestino. “Alguns processos que ocorrem no cérebro podem vir da produção de compostos químicos e produtos finais da digestão pelas bactérias”, diz Vânia Assaly. Trabalhos recentes apontam que doenças como autismo, Parkinson e esclerose lateral amiotrófica podem ter relação com a mudança da flora intestinal e seus produtos finais. “A integração intestino-cérebro gerou um novo conceito que utiliza a modulação da microbiota intestinal como estratégia terapêutica para os distúrbios do sistema nervoso central. Não podemos pensar mais em tratar indivíduos com patologias do sistema nervoso central sem considerar o metabolismo que é derivado do intestino”, completa a nutricionista Juliana.

Foto: Arquivo Harper's Bazaar
Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

A boa notícia é que, sabendo-se de tudo isso, formas de modulação intestinal para equilibrar o funcionamento desse órgão tão complexo estão cada vez mais ao nosso alcance. E é nos preceitos da medicina integrativa, que trabalha corpo, mente e espírito, que estão os melhores (e mais simples!) recursos. “Buscar atividades que dão prazer, estar atento às emoções, dormir bem, comer bem (descasque mais e desembale menos), fazer exercícios e, claro, ter uma alimentação equilibrada sem radicalismos nem paranoia, são de extrema importância”, ensina Letícia.

“Ter um estilo de vida saudável é mais eficaz do que tentar compensar uma vida desregrada tomando suplementos e vitaminas“, completa Juliana. Além da alimentação equilibrada, rica em vegetais, os prebióticos são uma arma eficaz, que, comprovadamente, estimula as bactérias do bem. “Existem ainda alguns fitoquímicos que vêm dos chás e de frutas, como cacau, romã e cranberries, que ajudam no equilíbrio e na função adequada dos micro-organismos. Hoje já se fala também em pós-bióticos, um subproduto da fermentação das bactérias, cujos benefícios são estudados até na área neurológica, metabólica, imunológica e em alguns tipos de câncer. Eles teriam, inclusive, poder de ajudar na perda de peso”, diz a nutróloga Vânia Assaly.

Algumas práticas como ioga e meditação ajudam, e muito (lembra-se do mantra: tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo?). Elas melhoram o fluxo dos sistemas simpático e parassimpático, responsáveis, no fim das contas, pelo equilíbrio imunológico, hormonal e dos neurotransmissores. Jejum intermitente e enema (ou hidroterapia colônica, popularmente conhecida como lavagem intestinal) tendem a eliminar toxinas, aumentando a vitalidade.

A ciência dá uma mãozinha extra com os exames genéticos recém-incluídos na prática médica, que desvendam a microbiota de cada um. Trata-se de um excelente guia para os profissinais estabelecerem, com mais precisão, terapias e estratégias específicas para modular a microbiota e ajustar, assim, seu universo particular