Foto: Natalie Arefieva/Reprodução

Por Anna Paula Buchalla

Certa vez, uma produtora de cinema resumiu o que vira na cerimônia do Oscar: “É como estar no museu de cera Madame Tussauds, exceto pelo fato de que estão todos vivos”, disse, à época, Melanie Coombs.

Era o ano de 2004, justamente aquele em que o total de procedimentos cosméticos atingira níveis exageradamente altos nos EUA: perto de 12 milhões de intervenções – o botox reinava absoluto.

Passada quase uma década, ainda vemos bizarrices no tapete vermelho. Mas a mesma indústria das celebridades que prega padrões estéticos atingíveis apenas por meio de plásticas, começa a se voltar contra elas. Os cineastas Martin Scorsese e Baz Luhrmann se manifestaram contra o botox; as atrizes Kate Winslet, Rachel Weiz e Emma Thompson criaram a British Anti-Cosmetic Surgery League (Liga Britânica Anticirurgia Cosmética).

O que se defende é a volta ao look natural. Nos EUA, o número de procedimentos estéticos cai ano a ano, em parte, graças ao movimento – em 2010, a queda foi de 20%.

Um exemplo do novo padrão? A atriz Meryl Streep, bela e com rugas, no alto de seus 62 anos. O Brasil, apesar de ainda ser o segundo do mundo em número de intervenções estéticas, também segue o movimento.

Mesmo quem busca outro nariz, pele mais firme ou um rosto novinho, tem uma preocupação: não vestir a máscara da plástica. Entenda-se: tez alaranjada por bronzeamento artificial, maçãs do rosto salientes, testa imobilizada, pele estirada, lábios inflados e dentes branquíssimos. É como se, saídos de uma linha de produção, ficassem todos iguais uns aos outros.

Tais exageros parecem datados. A tendência, agora, é um rosto slim. “É uma face magra, sem preenchimentos exagerados, com contornos definidos”, resume o dermatologista Jardis Volpe. E com rugas, sim, mas numa pele bem tratada e sem manchas. O que se deseja é não destruir a beleza do tempo.

Não há nada de errado em querer atenuar as marcas da idade – e a medicina está a nosso favor. A chave é evitar mudanças drásticas, principalmente no rosto. O arsenal anti idade já conta com procedimentos menos invasivos, com resultados mais naturais, como radio- frequência e lasers que estimulam a produção de colágeno e promovem rejuvenescimento leve.

“Nas cirurgias, o que se busca é um retorno às próprias formas, um reencontro consigo. Olhar para o espelho e observar traços que não são seus leva a consequências psicológicas desastrosas”, diz a cirurgiã plástica Bárbara Machado, chefe da equipe médica da Clínica Ivo Pitanguy. Mesmo assim, há uma corrente ainda mais radical, que diz “não” a qualquer procedimento: “Não fiz, não faço e jamais farei uso do botox”, declarou, recentemente, Diane Von Furstenberg. Para a estilista de 65 anos, trata-se de um mau exemplo para as garotas mais jovens, que veem nas cirurgias uma solução para todos os problemas de auto-estima.

Em apenas dez anos, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o número de cirurgias estéticas realizadas entre meninas de 15 a 18 anos aumentou 1.000%.

O que move a indústria das plásticas cosméticas é algo comum a, praticamente, todos nós: o medo de envelhecer. A pele perde o viço, as rugas surgem, a flacidez se instala.

Talvez não seja nenhum ativismo feminista o que permeia a nova ordem do envelhecimento consciente. Para além do senso estético, trata-se, pura e simplesmente, de aceitação.

Apesar de todos os esforços, a luta para deter a ação do tempo é, ao final, sem- pre vã. Mais vale valorizar a história de vida e a maturidade do que ser escraviza- do por ideais inatingíveis. “Qualquer idiota consegue ser jovem. É preciso muito talento para envelhecer”, escreveu Millôr Fernandes. Uma cara sulcada, ensina ele, é marcada pelo feliz sofrimento de continuar existindo.