Mauro Freire - Foto: divulgação
Mauro Freire – Foto: divulgação

Por Anna Paula Buchalla

“Estão todas iguais”. É assim que o cabeleireiro Mauro Freire define as mulheres brasileiras. Sim, trata-se de uma crítica abertíssima à nossa falta de ousadia, especialmente quando o objeto da falta de criatividade são os cabelos. “Agora são todas Gisele Bündchen, loiras e onduladas. Basta olhar o instagram dos principais cabeleireiros do país: fotos das clientes loiras, de costas. Sem cara, nem identidade”, diz.

Com mais de 30 anos de experiência, e senso estético apuradíssimo, Mauro Freire é conhecido pela arte de trabalhar a beleza da “mulher real”. Seu corte com navalhas (várias delas!) no cabelo a seco fez história ao trazer naturalidade, leveza e movimento aos fios. Freire deu a seguinte entrevista a Harper’s Bazaar:

Harper’s Bazaar: Essa tendência do loiro ondulado que invadiu os cabelos das brasileiras te incomoda – e muito. Por quê?
Mauro Freire: Bom, em primeiro lugar, eu comecei no mundo da moda, nos backstages dos desfiles da Phytoervas. Aprendi a olhar a mulher em movimento e não estática em uma cadeira de salão. Nos camarins, há poucos espelhos e você tem que pensar na roupa, no estilo, entender que ali está uma mulher com atitude. Já a mulher do salão vem com o clichê de ter que seguir uma tendência e só fica focada nisso. Eu gosto de ver a mulher de outra forma, em 360 graus. Gosto de ver o que está nas ruas, nos filmes, nos clipes mundo afora. Na Europa, por exemplo, existem tantos tipos de mulheres ao mesmo tempo…a brasileira precisa entender isso e começar a se inspirar nesse movimento.

H.B.: Você considera a brasileira avessa a ousadias?
M.F.: Olha, há cerca de uns 4 anos, a mulher brasileira estava entrando num ritmo legal, estava começando a ousar. Havia um movimento de mudança. Mas aí veio essa mulher loira, do cabelão ondulado, essa Gisele Bundchen que todas querem ser, e até a Gisele acabou perdendo a graça. Ela virou a mulher comum que todas são hoje em dia.

H.B.: Você acha que isso tem a ver com a necessidade de brasileira em se mostrar sexy?
M.F.: Eu acho que a mulher brasileira tem esse grande defeito: ela insiste em ser sexy. Claro, a sensualidade combina com ela, mas mais no verão. E há lugares certos para ser sexy. O problema é que a brasileira está muito sexy o tempo todo, em todo o lugar.

H.B.: Dá para ser sexy e chic ao mesmo tempo?
M.F.: Eu acho que a mulher tem obrigação de ser elegante. No verão, ela pode ser chic estando sexy. Mas o ponto é que ela tem que sair do padrão em que todas estão. Parece que ela é pouco criativa, principalmente com o cabelo. Faz o cabelão solto, bota um gloss, óculos e está pronta. O cabelo não tem que ser tão protagonista o tempo todo. Ela pode, e deve, ousar mais com acessórios, lenços, chapéus, fitas, presilhas e até com a boca vermelha. É preciso buscar outros referenciais.

Mauro Freire - Foto: divulgação
Mauro Freire – Foto: divulgação

H.B.: Quem você citaria como um exemplo de mulher ousada e elegante?
M.F.: Angelina Jolie. Pouquíssimas vezes você a vê com os cabelos soltos. Ela é naturalmente sexy, apenas com um rabo de cavalo. Lá fora, as mulheres não têm tanta preocupação com o cabeleireiro. Elas se montam mais sozinhas, em casa mesmo. Já a brasileira vira cópia de todo mundo. O grande problema, eu acredito, é o medo de errar. No caso de um acessório, por exemplo, ela fica insegura por não saber o quanto ele pode ser ridículo ou bacana. Aí ela se prende aos modismos. Um exemplo? Surge a presilhinha com strass e todo mundo usa…E não é isso. Ela tem que entender a idade que ela tem para usar uma presilha com brilho. Nesse ponto, acho que o cabeleireiro tem um papel essencial. Ele deveria funcionar mais como um consultor, dando dicas de acessórios e cores que poderiam ficar bons e ajudar a cliente a se arrumar por conta própria, criando a sua identidade. Vejo isso como uma brincadeira, muito mais legal do que apenas sentar-se na cadeira de um salão. As francesas fazem isso muito bem: sabem adotar o cabelo bagunçadinho, sem ser descabelado. São estilosas. Veja Brigitte Bardot, ela tinha o cabelo mais sexy da história. É preciso saber ousar e criar.

H.B.: Mas a tendência está aí para se usada, não?
M.F.: O problema é que a brasileira é muito presa a “tendências”. E, para mim, essa palavra poderia sumir completamente do mapa. É rótulo. Basta ver as imagens no Instagram dos cabeleireiros: a mulher não tem nem cara. São todas loiras, com a raiz escura, de costas. Todas iguais. Sabe como eu identifico uma brasileira no exterior? Pelo cabelo. E isso está muito errado.

H.B.: O que as loiras (ou morenas) que você faz têm de diferente?
M.F.: Minhas loiras têm um outro olhar. A mesmice está aí, em tudo, até na maquiagem. Ninguém me pede maquiagem de época ou uma boca vermelha. É só olho preto e gloss. E nada melhor do que se destacar sendo diferente. Não posso ir contra o que a cliente quer. Aliás, estrelismo de cabeleireiro foi muito legal nos anos 80 e hoje é a coisa mais cafona do mundo. Acho que a mulher que se identifica comigo quer uma coisa mais solta, com elegância, não rotulada.

H.B.: Nos últimos desfiles, vimos muito a volta dos penteados – coques, tranças, meio-presos. Acha difícil essa onda emplacar aqui?
M.F.: No Brasil, infelizmente, isso não rola. A brasileira não gosta de prender o cabelo por vários motivos: não gosta da testa, não gosta do queixo, se incomoda com as orelhas… É uma pena. Afinal, você não usa o mesmo sapato ou a mesma roupa todos os dias. Por que não brincar mais com os cabelos? Queria muito ver o Brasil com mais tipos diferentes de mulheres andando pelas ruas. Queria ver criatividade e não uma explosão de long bobs circulando por aí.

H.B.: O cabelão comprido pode ser um problema quando o cabeleireiro nota que a cliente, que reluta em não querer envelhecer, já passou da hora de cortar. Como lidar com isso de uma forma sutil?
M.F.: Lidar com mulher que tem 70, aparenta 50 e queria ter 30 depende muito da intimidade que o cabeleireiro tem com a cliente. Tenho essa liberdade para falar com elas. O cabeleireiro não pode fazer tudo o que uma mulher quer. É como um médico que diz ao paciente que ele tem que parar de fumar. Falo que ela tem que parar de pintar o cabelo senão ele vai cair, que está na hora de cortar ou que aquele estilo não lhe cai mais tão bem. Tenho essa visão profissional. Acho chiquérrima uma mulher que sabe adotar os cabelos brancos – curtos e bem cortados, e claro, sempre acompanhados de um brinco bonito e uma maquiagem sutil. Não dá para ter cabelo branco comprido e aparência abatida! A intimidade de cabeleireiro e cliente tem que ser muito bem dosada. E só o tempo te dá isso.