Marcas nacionais de clean beauty – Foto: Alex Falcão

De acordo com a WWF, a World Wide Fund for Nature, ONG internacional de conservação e recuperação ambiental, um caminhão carregado de resíduos plásticos é despejado nos oceanos a cada minuto. O frasco vazio do seu xampu certamente está nesta estatística. É o equivalente a oito milhões de toneladas de plástico todos os anos impactando a vida marinha.

A boa notícia é que muitas empresas fabricantes de cosméticos estão atentas a essa problemática e assumindo o compromisso de reduzir o impacto ambiental com produtos seguros – com menos química jogada na natureza e na nossa pele -, emissão de carbono reduzida, e que, de preferência, produzam menos lixo.

Esse é o movimento batizado de clean beauty, que vem ganhando força e terreno nos últimos tempos. Em resumo, a beleza limpa prega a proteção do meio ambiente de químicos encontrados nos cosméticos. Para ser considerado limpo, o produto também tem que atender a alguns critérios como, por exemplo, ser livre de ingredientes que possam ter algum impacto na saúde humana ao serem absorvidos pela pele. E não pode ser um potencial poluente depois do descarte.

Ainda pelos dados da WWF, mais de 120 bilhões de unidades de embalagens de cosméticos são produzidas anualmente – e grande parte delas não é reciclável. A ideia é privilegiar produtos com refil ou que sejam reutilizáveis, ainda que com outro propósito. Os defensores dos mares estimam que, até 2050, haverá mais plástico do que peixes nos oceanos.

Outra meta é evitar o desperdício de água, usada na produção industrial. Tudo isso somado está na base das incontáveis perdas à natureza e das mudanças climáticas. Quanto à toxicidade, o movimento de clean beauty tem por missão livrar o mundo e a pele de parabenos, ftalatos, sulfatos, derivados de petróleo, óleos minerais, silicones, alumínio e fragrâncias sintéticas que estão em nossos cremes, desodorantes e xampus, por exemplo. Eles ainda são altamente prevalentes em produtos de uso diário e levados junto com a água para os oceanos, sem se pensar no impacto deles no planeta.

Reciclar onde é possível

Algumas marcas de clean beauty já se posicionam nesta direção. A francesa L’Occitane, por exemplo, oferece sachês de refil para géis de banho e xampus. A Caudalie produz filtros solares que não afetam a vida dos corais no mar.

Marcas nacionais de clean beauty – Fotos: Divulgação

No Brasil, não existe uma regulamentação específica, mas já existem marcas autointituladas de clean beauty por seguirem a prática de proteção ambiental e humana. Care Natural Beauty (que trabalha com refis de produtos), Biossance (que neste ano anunciou que irá compensar todas as emissões de gases de efeito estufa causados pelas entregas do seu e-commerce no País por meio do apoio a um projeto de restauração da Mata Atlântica), Up2You, Souvie, B.O.B, Bioart, Baims, Quintal e Simple Organic são algumas delas.

Por fim, é fundamental que a embalagem e o rótulo sejam transparentes e informativos: devem constar todos os ingredientes (em geral, não são muitos neste caso), se o recipiente é biodegradável, reciclável e se a empresa conta com logística reversa ou sistema de refil.

“O movimento preza pela transparência das marcas ao descrever os ativos que compõem um produto. Isso não quer dizer apenas listar os ingredientes, mas também não enganar o consumidor com termos genéricos, como ‘fragrância’, para ocultar certas substâncias”, alerta a dermatologista Claudia Marçal, de São Paulo. Segundo ela, alguns ativos podem causar alterações hormonais, irritação cutânea e até câncer.

Um erro comum é confundir clean beauty com cosméticos naturais, veganos ou orgânicos, que, apesar de parecerem semelhantes, possuem diferenças fundamentais. A principal preocupação do movimento é o desenvolvimento de cosméticos livres de toxinas. O que não quer dizer que precisem ser orgânicos, veganos ou naturais, afinal, um ingrediente pode ser natural e, ainda assim, ser tóxico. Ou, ao contrário, nem todo o sintético faz mal, caso de alguns conservantes.

“O óleo de alecrim, por exemplo, é capaz de dar uma dermatite de contato desastrosa. Os óleos cítricos também. E todos eles são naturais. Existem extratos botânicos cujas plantas são cultivadas com agrotóxicos e tem contaminação por metal pesado. Se a gente considerar que uma mulher usa, em média, 12 produtos de higiene pessoal por dia, é importante entender para onde vão essas substâncias e o que elas causam”, alerta a dermatologista Bianca Viscomi, de São Paulo.

Limpos e eficazes

Marcas nacionais de clean beauty – Foto: Alex Falcão

Beleza limpa também não é sinônimo de caseira, muito menos de ineficiência. Há muita tecnologia envolvida nos produtos. A Biossance, por exemplo, tem uma trajetória curiosa: cientistas trabalhavam pela cura da malária e, inspirados pela biotecnologia inovadora, se voltaram para os ingredientes que as pessoas colocam em seus rostos e corpos todos os dias.

Chegaram ao esqualano de forma ética e sustentável com a extração da cana-de-açúcar no Brasil, recurso naturalmente renovável. Tudo o que é preciso para uma beleza limpa e eficaz é inovação – e menos, bem menos plástico.