Das questões de gênero às sequelas físicas e emocionais pós-Covid, o mundo vive uma onda de novos distúrbios hormonais – Foto: Alex Falcão

O assunto está em alta nos consultórios dos endocrinologistas: os distúrbios hormonais avançam à medida que novos hábitos são incorporados à vida das mulheres e até mesmo das meninas. “Podemos falar em novas categorias de distúrbios hormonais”, diz o endocrinologista Mauricio Hirata, da clínica que leva seu nome em São Paulo.

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Os hormônios orquestram todo o funcionamento do organismo – do humor ao peso, do sono às emoções, da fertilidade à menopausa. Pelo nosso corpo circulam duas centenas deles, e a reposição dessas substâncias com versões sintéticas com estrutura química e molecular exatamente igual à dos produzidos pelo corpo, já é uma realidade. Muito comuns na menopausa, os tratamentos hormonais agora atendem uma nova legião em busca de qualidade de vida.

Segundo o doutor Hirata, cerca de 30% de seus pacientes já são adolescentes envolvidos em questões de gênero. “São casos discutidos com as famílias e que envolvem muitas questões sociais e psicológicas”, ele explica. Pode significar um alívio para um sofrimento que começa a ganhar corpo.

Um segundo grupo que surge em suas consultas, diz Hirata, são as pessoas vítimas de distúrbios de imagem. “Por causa da pressão das redes sociais, elas acabam desenvolvendo questões de autoimagem, e procuram tratamentos para emagrecer, ou mudar radicalmente a forma física”. Querem um ideal de imagem impossível de alcançar. Para cada distúrbio, há uma possibilidade de tratamento sob medida para o paciente.

Aconselhamento médico

Depois de pedir uma dosagem hormonal em laboratório, o médico avalia quais os hormônios que estão em baixa no organismo e qual a quantidade exata deles que deve ser reposta. “Mas é preciso deixar claro que, hoje em dia, não nos baseamos apenas nos exames hormonais para prescrever um determinado tratamento, mas sim na queixa do paciente”, diz Hirata.

Ele cita o exemplo de mulheres com baixos níveis de testosterona no organismo, mas que não se queixam da libido, associada à falta do hormônio masculino. “É o tipo do caso que não necessita de reposição, ainda que os exames de sangue revelem uma baixa dele”. Outro exemplo é o da mulher na menopausa cuja única reclamação são as ondas de calor. “Trataremos apenas esse sintoma específico, e não necessariamente com hormônios”. Ele acrescenta ainda que cabe ao profissional definir qual a linha terapêutica a seguir. “Há benefícios e riscos envolvidos nas terapias hormonais e, portanto, a prescrição deve ser feita com critério e discutida com o paciente”, enfatiza o médico.

Cenário atual

Recentemente, Maurício Hirata relata ainda uma nova onda de distúrbios hormonais provocada por mulheres que estão em tratamento ou superaram o câncer de mama. “Elas sofrem de uma menopausa agravada pelo medicamento e os efeitos colaterais da quimioterapia. Estima-se que uma em cada três mulheres vítimas de câncer sofrem com os sintomas típicos da menopausa, independentemente da idade: irritabilidade, secura vaginal, ondas de calor e depressão.”

Até mesmo a Covid tem feito suas vítimas no quesito hormonal: “principalmente as mulheres aumentaram muito o consumo de álcool durante a pandemia. Sem falar na privação do sono que afetou milhões nesse período, hábitos que desregulam todo o sistema endócrino. Costumo dizer que a terceira onda são os casos de distúrbios pós-Covid prolongada”, afirma o doutor Hirata. “Normalmente encontro pacientes com perda de massa muscular e aumento de gordura pela inatividade física, uso de corticoide e a própria infecção. Também são frequentes distúrbios de sono, depressão, arritmia, mialgia, cefaleia e diabetes.”

E, claro, os hormônios continuam na pauta do dia das rodas femininas de conversa das mulheres que estão entrando ou já entraram na menopausa. Desde que a terapia de reposição hormonal feminina convencional foi nocauteada por um estudo que a associou ao aumento dos riscos de infarto, derrame e câncer de mama, esses remédios são vendidos como uma alternativa nova, segura e eficaz. Durante décadas, médicos receitaram hormônios a praticamente todas as mulheres na menopausa, como forma de prevenir males cardíacos, evitar a perda óssea e atenuar os problemas de memória.

Tratamentos

Hoje a recomendação é a combinação de doses mais baixas dos hormônios estrógeno e progesterona – e os médicos passaram a acompanhar suas pacientes mais de perto, o que é um ganho do ponto de vista delas. Além disso, é consenso que a reposição deve começar na hora certa, aos primeiros sintomas agudos da menopausa. “A reposição feita de forma adequada é muito benéfica. A qualidade do sono melhora, diminuem as queixas relacionadas à queda de humor ou de libido, e a pele e o cabelo melhoram”, diz.

Além disso, segundo ele, a reposição hormonal reduz em até 30% a mortalidade após a menopausa. Hirata lembra ainda que os estudos mais recentes sobre os benefícios do tratamento apontam diminuição de risco cardiovascular, diminuição de gordura abdominal, redução de incidência de osteoporose e melhora da saúde metabólica e da cognição.

Talvez seja esta, em toda a história da humanidade, a geração que mais se beneficia da reposição hormonal. Não há nada de errado com ela, desde que o objetivo seja uma qualidade de vida melhor e não haja contraindicação, como antecedente familiar de certas doenças. Ou seja, a vontade de manter viva por mais tempo a disposição para trabalhar, para praticar esportes, para ser social e sexualmente ativo. “Não se trata de prometer a juventude eterna, mas focar nos sintomas que afetam nosso dia a dia, sejam eles de ordem física ou emocional”, conclui Mauricio Hirata.