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Por Karina Pastore

– Nossa, você parece tão mais jovem! Não aparenta ter… a idade que tem.
Elogio ou etarismo?

Ser mulher e envelhecer, definitivamente, não é para os fracos. Em uma cultura obcecada pela juventude, a velhice chega muito antes dos 60 anos – aquele momento da vida definido por eufemismos terríveis como “terceira idade” ou “melhor idade”. Em um ambiente como esse, é óbvio, o preconceito etário grassa. De tão arraigada em nossos hábitos e costumes, a discriminação, frequentemente, nos passa despercebida. Mas a intolerância está lá. No trabalho, no tabu em torno da menopausa, no muxoxo para o casal em que ela é mais velha do que ele, nas propagandas de produtos e procedimentos que prometem nos conservar jovens… Nas fotos retocadas por computador, nos filtros rejuvenescedores das redes sociais, nos avatares sempre juvenis do metaverso… É neste universo paralelo, aliás, que promete estar uma das grandes polêmicas do envelhecimento. Se do lado de cá da tela, mulheres lutam pela aceitação da idade, como será que irão se comportar do lado de lá? Seus avatares e hologramas surgirão com rugas e cabelos brancos? Será que no nosso digital self, a aparência virtual será mais importante do que a física?

Até que essa trend deixe de ser premonitória, haja autoestima para enfrentar a passagem do tempo, sem se horrorizar com a imagem refletida no espelho. “Dentro de mim, está a Outra – isto é, a pessoa que sou vista de fora – que é velha: e essa Outra sou eu”, escreve a filósofa francesa Simone de Beauvoir, em “A Velhice”, de 1970. Aquela Outra que era Simone se multiplicou em muitas Outras que são elas, vozes pela liberdade da mulher envelhecer como bem entender.

É um novo olhar para a longevidade feminina. À frente do movimento aging with power, estão as baby boomers. Nascidas entre 1946 e 1964, quando jovens, quebraram alguns dos códigos de comportamento impostos às mulheres, pela sociedade patriarcal. Depois de tantos obstáculos vencidos, que ninguém venha agora lhes dizer como envelhecer.

Com o aumento da expectativa de vida, as mulheres entre 55 e 65 anos compõem a primeira geração a chegar na maturidade com mães e pais vivos, diz Layla Avallias, co-fundadora da Hype50+, consultoria de marketing focada no consumidor sênior. “Elas não são as pessoas mais velhas nos almoços de família”, ilustra. E isso tem um impacto profundo na percepção delas sobre o próprio envelhecimento. Idoso é alguém com 20, 30, 35 anos a mais. Afinal, elas se sentem bem-dispostas física e mentalmente, com muita vida a ser (bem) vivida.
– Eu não me sinto com a idade que tenho!

É o coro, cada vez mais ruidoso, de movimentos como o #minhaidadenãomedefine e o #ageless, sucessos nas redes sociais. “A idade subjetiva parece ter consequências sobre o processo de envelhecimento, e, talvez, a mais instigante seja o fato de que sentir-se jovem faz com que as pessoas se comportem como se efetivamente rejuvenescessem, compensando as implicações negativas do etarismo, aumentando os níveis de satisfação com a vida e a longevidade”, diz a consultora Fran Winandy, no livro “Etarismo – Um Novo Olhar para um Velho Preconceito”.

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Atualmente, no Brasil, os 50+ movimentam 1,8 trilhão de reais, por ano, e somam cerca de 54 milhões de pessoas. Delas, 55% são mulheres. And counting… Em 2050, esse número deve triplicar. Aos poucos, a sociedade dá sinais de mudança. Os casamentos de papel passado entre mulheres mais velhas e homens mais novos, por exemplo, estão mais comuns, segundo o IBGE.

As indústrias da moda e da beleza também já começaram a rever antigos conceitos. Ignorar as maduras seria um péssimo negócio. Um dos episódios mais emblemáticos dessa transformação foi a demissão da atriz e modelo ítalo-americana Isabella Rossellini, hoje com 69 anos, do posto de “rosto” da francesa Lancôme. Aos 43 anos, estava “velha demais”. Em 2018, porém, Isabella voltaria a ser símbolo da marca. Françoise Lehmann, CEO da empresa, a cobriu de elogios: “Isabella incorpora a ideia de uma beleza que é sinônimo de bem-estar. Ela também mantém uma atitude muito positiva e serena em relação à idade.”

A beleza não é privilégio da juventude e a bandeira pelo direito de envelhecer em paz não pressupõe em absoluto o abandono da vaidade. “Reivindicamos nossa liberdade versus nos sentirmos forçadas a agir porque nos sentimos ‘inferiores’ pela sociedade. Você faz você. Isso pode significar ficar au naturel por toda a vida ou fazer preenchimento a cada três meses, tratamentos faciais criogênicos semanais e lifting de pescoço aos 70”, lê-se no editorial de outubro de 2018, da revista americana “Allure”, assinado pela então editora-chefe Michelle Lee.

Na edição de agosto do ano anterior, com capa dedicada à atriz Helen Mirren, com 72 anos, Michele lançou um manifesto banindo o termo “anti-aging” das páginas da publicação. Envelhecer não é doença e não há nada, portanto, a ser combatido.

O envelhecimento impõe, sim, perdas. Muitas, algumas dolorosas. Mas, segundo os estudiosos da longevidade, a partir dos 60 anos, as mulheres tendem a ser mais felizes do que quando eram jovens. Sentem-se mais livres, não dão tanta bola para o que os outros vão pensar, têm clareza sobre suas prioridades e lidam melhor com as emoções, entre outras vantagens. Será mesmo? “Temos uma escolha: podemos continuar cavando o buraco mais fundo ou podemos jogar fora a maldita pá”, defende a escritora americana Ashton Applewhite, no artigo “Working to Disarm Women’s Anti-Aging Demon”, publicado no jornal “The New York Times”, em 2018. “O movimento das mulheres nos ensinou a reivindicar nosso poder. Um movimento pró-envelhecimento nos ensinará a segurá-lo.”