Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

A telemedicina, que parecia estar reservada a um futuro próximo, mas ainda distante, teve seu caminho abreviado pelo novo coronavírus. A consulta virtual por meio de telas opostas – paciente de um lado, médico de outro -, que seria uma realidade mais cedo ou mais tarde, é agora uma das consequências mais definitivas da pandemia.

Uma pesquisa recente feita nos Estados Unidos revelou que uma em cada cinco pessoas já se valeram da telemedicina nos tempos atuais – e a grande maioria nem foi para tratar da Covid-19, mas para cuidados crônicos ou de rotina. Aqui no Brasil, fala-se em crescimento de 40% dos atendimentos online nos últimos dois meses.

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Mesmo quando tudo isso passar, a consulta virtual será uma realidade na vida pós-pandemia. Em um primeiro momento, muitos vão querer evitar deslocamentos desnecessários a hospitais e consultórios – se não houver necessidade urgente de fazê-los. Clínicos gerais, dermatologistas, cirurgiões plásticos, angiologistas, nutrólogos, ginecologistas e outros especialistas, que fecharam suas portas para consultas não-emergenciais, relatam sucesso na experiência, reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina em ofício enviado ao Ministério da Saúde.

“A vida nos leva para caminhos inesperados, mas temos a tecnologia a nosso favor e a telemedicina como garantia de bons resultados”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Dênis Calazans. “Não sabemos quanto tempo vai durar esse período de pandemia, mas não podemos agravar problemas crônicos de saúde da população”, diz a nutróloga Marcella Garcez, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) e que já está atendendo pacientes virtualmente.

“O que propomos são orientações gerais, solicitação de exames, emissão de atestados, troca de receitas e medidas de suporte”, afirma a ginecologista Ana Carolina Lúcio Pereira. Nos países em que esse tipo de atendimento é permitido, caso do Brasil, os médicos podem usar aplicativos populares de bate-papo por vídeo, como FaceTime, Google Hangouts, Skype ou Zoom.

“Pode ser usada qualquer plataforma, desde que você possa visualizar o paciente”, afirma Marcella. “A telemedicina é muito usada para fazer um acompanhamento de pós-operatório no caso de quem mora longe. Nesta fase, em que não é para ficar saindo de casa, ela serve muito bem para retornos”, afirma o cirurgião plástico Paolo Rubez.

A cirurgiã plástica Beatriz Lassance enviou, a todos os seus pacientes, uma mensagem para ajudar, de maneira virtual, os que têm dúvidas. “Podemos avaliar situações como infecções urinárias, gastroenterites e outras, evitando que as pessoas precisem ir a um pronto-socorro por casos que podemos resolver e dar as devidas condutas com receitas de antibióticos se necessário (pela regulamentação, as farmácias aceitam receita em PDF).”

Mesmo as visitas que requerem o exame físico já estão sendo realizadas à distância: o estetoscópio de hoje está sendo substituído gradualmente pelo smartphone. O microfone do aparelho pode ser usado pelos pacientes para realizar autoexames remotos. Um algoritmo consegue analisar a tosse e dar uma ideia se uma pessoa está com pneumonia.

Há uma década, os gadgets de exercícios físicos contavam apenas passos. Hoje, eles medem os batimentos cardíacos com precisão impressionante. Já existem também sensores colocados sobre a pele que capturam continuamente a frequência cardíaca e respiratória, a tosse e a temperatura corporal e podem ser usados para vigilância remota de pacientes que não necessitam de internação.

A telemedicina beneficiou-se de um tripé bastante sólido: existe a necessidade, a aceitação social e a tecnologia. “No entanto, o caminho para tornar os cuidados de saúde remotos um pilar da prática médica não é inteiramente fácil. Os smartphones e o variado kit digital que se conecta a eles permanecem caros – o que significa que a telemedicina pode não ser viável para idosos, pobres ou menos familiarizados com a tecnologia”, escreveu o médico americano Eric Topo, autor de best-sellers sobre saúde digital.

Há ainda um outro limite para a telemedicina: transmitir, via imagens, a profunda conexão humana, aquela de pistas não verbais, da empatia e da confiança olho no olho. Só o tempo dirá.