Foto: Reprodução/Instagram/@armineharutyunyan23

Charles Baudelaire, poeta francês, argumentou certa vez que a beleza contém sempre uma pitada de peculiaridade. E, depois de anos em que o universo da moda reforçou os padrões de beleza simétricos e distantes da realidade, muitas coisas parecem estar mudando. Enfrentamos o ‘boom’ das harmonizações faciais há pouco tempo e agora chegamos ao processo inverso da ‘desarmonização’ facial: há um movimento mundial puxado pelas redes sociais para o “P-Beauty”, ou beleza peculiar, alternativa ou real.

“Para as mulheres: sobrancelhas levantadas, maçãs do rosto marcadas, lábios grossos e queixo pontiagudo. Para os homens: mandíbula marcada e queixo quadrado. Todos com o nariz retificado e empinado. Esse foi o padrão de beleza vendido”, explica o dermatologista Daniel Cassiano, da Clínica GRU e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Mas há mudanças acontecendo: recentemente, a modelo Armie Harutyunya, com características peculiares como nariz comprido, lábios finos, olheiras, sobrancelhas grossas e orelhas proeminentes, foi escolhida como musa da marca italiana Gucci – o que levantou um grande debate sobre padrões de beleza atuais, já acompanhados há algum tempo no universo das cirurgias plásticas.

“Há cerca de uma década, ter um nariz mais largo, com saliência pronunciada e uma ponta mais grossa era visto como um ‘problema’ cuja ‘solução’ apontava para dois caminhos: a autoaceitação ou a mudança radical através de uma cirurgia plástica. Tudo isso porque existia um padrão: o nariz pós-cirúrgico era fino e arrebitado. Mas agora realmente isso ficou no passado. Os médicos cirurgiões-plásticos estão abordando as rinoplastias com uma abordagem mais artística e individualizada, usando novas técnicas cirúrgicas e não cirúrgicas para refinar em vez de renovar uma das características mais proeminentes do rosto. Aprendemos a fazer rinoplastia de uma certa maneira, mas, agora, isso é muito menos matemático. É realmente uma questão de passar tempo conversando com o paciente e descobrir o que ele está procurando para optar pela maneira mais harmônica possível”, diz o cirurgião plástico Mário Farinazzo, cirurgião plástico membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e Chefe do Setor de Rinologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Paralelamente, a indústria da moda encara que existem belezas muito mais complexas do que os padrões pré-estabelecidos das supermodelos que perpetuaram na década de 1990. Já surgiram até agências de modelos na Polônia, Alemanha e Inglaterra que se especializaram em recrutar pessoas de características físicas e nuances estéticas da chamada “beleza alternativa” (alt-beauty).

Sai de campo também a ditadura da magreza. No campo da nutrologia, há um reforço cada vez maior para que as pessoas adquiram novos hábitos alimentares com foco na saúde. “Pode haver uma padronização da beleza no que diz respeito à moda e à estética, porém para a medicina, para nós médicos, é importante o paciente estar saudável. As dietas extremamente restritivas ou mal conduzidas podem afetar emocionalmente as pessoas e, particularmente nesse momento de pandemia que atravessamos, elas são altamente não recomendadas”, diz a nutróloga Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

Os reflexos do P-Beauty também são vistos nas críticas recentes a celebridades nacionais e internacionais, que apareceram na mídia com os rostos completamente mudados após excessos de procedimentos injetáveis. “Há uma banalização dos procedimentos estéticos hoje. As pessoas são frequentemente bombardeadas nas redes sociais por profissionais de saúde e influenciadores divulgando procedimentos que vendem uma ideia de rejuvenescimento e beleza. Nesse cenário, existe a falsa impressão que todos devem fazer alguma coisa para melhorar. O maior cuidado antes de fazer uma harmonização facial deve ser a razão pela qual se está se submetendo a um procedimento. O que realmente te incomoda? Não faça procedimentos apenas porque a blogueira postou na semana passada”, explica o médico Daniel Cassiano.

De acordo com o cirurgião plástico Mário Farinazzo, as buscas por procedimentos estéticos continuam, mas a procura, agora, mostra uma característica cada vez mais forte: resultados naturais. “As técnicas evoluíram para conferir maior naturalidade aos pacientes, sempre respeitando seus traços. A ideia de uma aparência artificial após um procedimento já não é mais a tendência”, afirma o especialista na técnica de rinoplastia preservadora – procedimento menos invasivo para a cirurgia do nariz.

E resultado natural não quer dizer necessariamente procedimento não invasivo. Um estudo recente publicado no final de fevereiro no periódico Aesthetic Plastic Surgery, uma publicação do International Society of Aesthetic Plastic Surgery (Isaps) relata que está aumentando o número de pacientes que procuram a rinoplastia cirúrgica depois que já receberam ácido hialurônico injetado no nariz. “Com a ajuda de selfies e do Instagram, os jovens ficaram obcecados com sua imagem. E percebemos um crescimento muito grande por procedimentos injetáveis durante um período, justamente por conta dos resultados rápidos e da recuperação mais fácil. Só que o fato de o efeito ser passageiro, exigindo manutenções constantes, já que as substâncias injetáveis são reabsorvidas pelo organismo com o passar do tempo, tem feito muitos pacientes desistirem do excesso de procedimentos não invasivos e apostarem em cirurgias plásticas que realmente têm um resultado definitivo”, afirma o cirurgião plástico Paolo Rubez, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e especialista em Rinoplastia Estética e Reparadora pela Case Western University.

Segundo dados da realização de procedimentos cirúrgicos nos últimos anos da Isaps, a maior parte das rinoplastias (64,5%) ocorreu em jovens de 19 a 34 anos de idade, enquanto os injetáveis foram mais populares entre pacientes de 35 a 50 anos (46,1% do total). A rinoplastia também continua sendo o procedimento estético mais comum em pacientes com 18 anos ou menos.

No caso dos procedimentos faciais rejuvenescedores, aqueles contra as rugas e flacidez, o movimento P-Beauty abraça a ideia do Pro-Aging, de incentivar um rosto mais natural contra os excessos de “Anti-idade”, evitando exageros que artificializam o rosto. “A técnica cirúrgica não é mais a mesma: agora preferimos reposicionar os músculos e estruturas profundas em vez de apenas esticar a pele, o que gera resultados mais naturais e duradouros. É possível intervir em regime de hospital-dia (saída na mesma noite) ou mesmo sob anestesia local”, afirma o Rubez.

Além dos resultados mais naturais, outra tendência vista nos consultórios, segundo o dermatologista Abdo Salomão Jr, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, é a busca por: tecnologias ultrapotentes, procedimentos com sessões mais rápidas ao mesmo tempo em que oferecem menor nível de dor e inchaço, e tratamentos preventivos. “A ajuda da tecnologia é muito importante nessa busca por naturalidade”, afirma o médico.

Segundo o dermatologista Abdo Salomão, o paciente está de olho em novas tecnologias que possibilitem o tratamento pró-aging de rugas e flacidez, com resultados menos artificiais, mas que ao mesmo tempo valorizem o bem-estar e autocuidado. A principal – e mais diferente – tecnologia dos últimos anos para esse fim é o laser de picossegundos Pico Ultra 300. “Ele emite pulsos de energia que produzem microvesículas de ar no interior da pele para promover o estímulo da neocolagênese e o alinhamento harmônico das fibras de colágeno e elastina, promovendo o rejuvenescimento da pele com redução da aparência das rugas e linhas de expressão e aumento da firmeza e da elasticidade. E, por produzir comprimentos de onda de 1064nm e 512nm, o equipamento age tanto na epiderme quanto na derme profunda, promovendo assim um tratamento global da pele”, finaliza o dermatologista.