Foto: Robb Perry
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Me dei conta de que era diferente ainda muito jovem. Lembro-me de que, no jardim da infância, não gostava de ser obrigado a usar vestidos, ou a ser feminina. Comecei a me vestir do jeito que queria, mas, naquela idade, não entendia o que era homossexualidade, embora soubesse que meu irmão mais velho era gay.A vida na escola era difícil, eu chamava atenção por ser diferente e era uma criança extremamente tímida.Além disso, quase sempre era a única aluna negra.

Cresci em uma cidadezinha do leste do Estado de Washington e era o caçula de quatro filhos. Meu pai era militar, como a maioria dos homens da minha família.A pouca diversidade que se via na cidade se dava por causa da base da Força Aérea, que ficava a poucos quilômetros dali. Fui criado pela minha mãe e via meu pai esporadicamente. Ela me apoiou em tudo o que fiz – sabia que eu era gay, mas não viveu para me ver como sou hoje.

Foto: Robb Perry
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Sempre foi mais fácil me apresentar ao mundo como lésbica masculina. Meu processo de transformação foi muito longo. Um dos momentos mais difíceis da minha vida foi aprender a aceitar meu verdadeiro eu. Sair do armário pela segunda vez, não só perante os amigos, mas comigo mesmo, foi desafiador e emocionante.Acho que só aceitei de verdade meu gênero e minha sexualidade três anos atrás. É muito frustrante olhar para o espelho e não ver a pessoa que você se sente por dentro.

A ideia de tomar hormônios e injeções não era nada atraente. Só de pensar na possibilidade de rejeição me dava medo. Mas, depois que decidi ir em frente e fazer o que era certo para mim, não olhei para trás. E foi uma das melhores decisões que tomei na vida. Meus irmãos foram importantes nesse processo, mostraram-se abertos com a questão e ficaram felizes por mim.

Foto: Robb Perry
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Quando comecei a tomar testosterona, a primeira mudança aconteceu na voz, que ficou mais grave, meus músculos se tornaram mais densos e começaram a aparecer pelos no rosto – o protocolo normal. Mas sempre fui atlético e naturalmente musculoso. Tenho um ótimo metabolismo e um corpo que se adapta e cresce com o exercício. Não cheguei a fazer a cirurgia para a retirada dos seios, mas estou ansioso para quando tiver tempo.

Me inspiro muito no Aydian Dowling, o homem trans que participou de uma votação para ser capa da Men’s Health. Ele foi corajoso (por cinco anos compartilhou sua transformação em seu canal no YouTube) e acabou ganhando a votação do público e sendo o primeiro trans que estampou a capa da história da publicação. Hoje, me olho no espelho e gosto do que vejo, mas falta a cirurgia, por exemplo. Por ora, não tenho como tirar dois meses de folga, pois tenho um emprego que exige esforço físico e que esteja a postos todos os dias. Como as pessoas com quem trabalho não são muito próximas, sou discreto. Elas me veem como um homem cisgênero (do mesmo gênero que nasceu). Estou no começo de uma nova carreira e quero ser julgado pelo que faço, não pela minha transição. Já no meu círculo de amizades não faço segredo e não há julgamentos. Mas uma das coisas que mais temo na vida é alguém achar que sou errado por ser quem sou e querer me fazer mal fisicamente.

Já passei por maus momentos na vida: pobreza, amor perdido, morte. Lidei com meu passado e meu futuro tem tudo para ser brilhante. Hoje, sou outra pessoa. Emocionalmente, nunca estive tão feliz. Finalmente me amo e sou amado.Tenho uma parceira com quem divido a vida e criamos nossos três filhos. Felicidade, para mim, é conseguir ser o provedor da minha família, ter um emprego que nem parece emprego, levar meu amor para viajar nas férias e deixar meus filhos orgulhosos.

Foto: Robb Perry
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