Samile Bermannelli (Mega e Elite NY) usa vestido Saint Laurent por Anthony Vaccarello – Foto: Rodolfo Ruben, com edição de moda de Filipa Bleck e beleza de Suyane Abreu

Por Anna Paula Buchalla e Marcela Palhão

Entre maquiagens, cabelos e cosméticos feitos por e para pessoas pretas, Bazaar selecionou nomes fortes da black beauty, que prezam valores como volta às raízes:

Afrogaia

Foto: Reprodução/Instagram/@afrogaiacosmeticos

“Sou neta de produtora de sabonetes. Meus avós são do interior de Minas Gerais, viveram da terra boa parte de suas vidas. Quando se mora na roça, ou você produz seus próprios insumos ou você conta com alguém da comunidade que o faz”, diz Gabriella Mendes, cosmetóloga natural e idealizadora da Afrogaia Cosméticos, marca cujos produtos são feitos por e para peles negras. “A trajetória que fiz me guiou até minhas raízes”, conta.

A ideia inicial de Gabriella era criar alternativas de cuidado que atendessem às necessidades da sua pele negra e que fizessem bem ao corpo e ao meio ambiente. A expansão aconteceu organicamente. Todos os produtos são naturais e veganos. Ela mesma pesquisa os ingredientes a partir do repertório familiar e das raizeiras com quem aprendeu, além de ter uma consultora da área farmacêutica. Os pilares da Afrogaia são autonomia, sustentabilidade e leveza.

Foto: Reprodução/Instagram/@afrogaiacosmeticos

“A sabedoria ancestral foi o que nos trouxe até aqui. Tornamos a empresa sustentável ao priorizar materiais biodegradáveis ou recicláveis nas embalagens e tirar de linha frascos e tampas de plástico.” Ao lado de outra Gabriela, a dos Santos, ela conduz os negócios da Afrogaia com base em um propósito: cuidar do corpo de maneira consciente, integrando saúde e beleza e respeitando o tempo cíclico das estações, em sintonia com o planeta. “É nesse momento que a beleza natural brota, de dentro para fora.”

Lu Safro

Taís Araújo usa trança Lu Safro – Foto: Reprodução/Instagram/@lu_safro

Lu Safro é sinônimo de resistência. Quando, no final dos anos 1990, começaram a surgir as primeiras fórmulas de alisamento dos fios, ela lutava bravamente em seu espaço na Galeria do Rock, em São Paulo, para manter as tranças e a naturalidade dos cabelos afro.

Ela aprendeu a fazer tranças com sua mãe, cabeleireira: “como não tinha com quem aprender novas técnicas, já que não havia cursos para isso, acabei desenvolvendo trabalhos autorais, com base na sensibilidade e na percepção”, lembra. “Sempre lutei por esse empoderamento, sempre disse não à chapinha, faço o que faço por amor.”

Hoje, suas tranças são disputadíssimas, mas clientes famosos (Camila Pitanga, Tais Araújo, Linn da Quebrada e Sabotage entre alguns deles) são apenas um detalhe. Com a filha Mika, maquiadora e stylist afro, Lu não é só resistência. Participa proativamente deste movimento incrível de autoestima coletiva que vive o mundo.

Damata Makeup

Foto: Divulgação

Aos 15 anos, Daniele da Mata estagiou na linha de produção de uma fábrica de maquiagem. “Fiz um curso profissionalizante de maquiadora e minha primeira cliente foi uma debutante preta. Quando apliquei a base, acinzentou. Apesar da falta de produtos na época, usei a experiência na fábrica e misturei um pigmento para quebrar o cinza”, lembra.

A beauty artist se destacou entre as clientes e criou a DaMata Makeup, primeira escola brasileira de cursos de automaquiagem para o público negro. “Ter só alunas negras cria um espaço seguro para falarmos sobre a nossa estética”, diz.

Seu trabalho mudou a relação com seus próprios traços e autoestima. Já com os cabelos, ao sofrer corte químico após um alisamento, se viu obrigada a parar com o procedimento. Redescobriu a beleza dos fios naturais e, com o projeto Afro Cruela (em que deixou metade do cabelo preto e a outra platinada), se sentiu livre para usá-los como quisesse.

Hoje faz consultorias de desenvolvimento de produtos. “É outro jeito de mudar a atuação da indústria, poder falar pessoalmente de nossas demandas.”

Kurandé

Foto: Reprodução/Instagram/kurandecosmeticos

Nasceu no Complexo do Alemão, comunidade do Rio de Janeiro, a marca de cosméticos Kurandé, dos sócios Claudio Marques e Felipe Garcia. Sabedoria ancestral e sustentabilidade são as vertentes que os conduzem na produção de sabonetes, cremes e máscaras, feitos com fórmulas fitoterápicas que resgatam práticas de autocuidado ancestrais, especialmente as de cultura africana e indígena.

A dupla se conheceu na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde estudam, e compartilham histórias de ancestralidade muito similares. A avó de Claudio, dona Vitorina, fazia sabão com ervas e óleo de cozinha reutilizado. A bisavó de Felipe, dona Juraci, era curandeira e parteira, e atendia a comunidade local com ervas para fazer chás, xaropes e garrafadas.

“A Kurandé é sobre ancestralidade e as vivências das nossas famílias”, conta Felipe. “A sustentabilidade é uma prática que já usamos na periferia, como reaproveitar copos de requeijão e potes de plástico para plantar”, diz. “Nossos pais e avós sempre adotaram isso.”

Com ativos direcionados para peles pretas, os produtos são pensados para cuidados específicos, como urucum, que estimula a melanina proteção solar.