Fimose feminina em pauta – Foto: Getty Images

Você já ouviu falar em fimose feminina? Muito provavelmente não, mas ela existe e, estima-se, afeta uma em cada cinco mulheres, em maior ou menor grau. É um assunto delicado, cheio de tabus, mas que precisa ser falado. Basicamente, é uma aderência da pele do prepúcio, que recobre o clitóris, e que pode comprometer a sensibilidade do órgão sexual feminino.

“Em uma sociedade falocêntrica como a nossa, pediatras não orientam sobre essa questão no caso das meninas: já entre os meninos, a análise e reversão da fimose são extremamente comuns na rotina médica”, diz o médico Luiz Perez, dermatologista com aperfeiçoamento em cirurgia e sexualidade humana.

Ele é um dos pioneiros a trazer esse tema à luz dos consultórios. O próprio doutor Perez já tratou mais de 100 mulheres com fimose feminina em sua clínica, o Espaço Mira, em São Paulo, voltado para tratamentos íntimos femininos, com resultados fantásticos.

Foi durante um fellowship de cirurgia nos Estados Unidos que Luiz Perez, já um apaixonado pelo tema extremamente delicado que é o prazer feminino, ouviu de um colega egípcio sobre o trabalho que estava fazendo com vítimas de mutilação de clitóris (pasmem, mas mais de 200 milhões de mulheres vivas hoje sofreram mutiliação!).

Perez voltou ao Brasil determinado a estudar mais sobre o assunto e passou a pesquisar tudo sobre o órgão feminino. Até que deparou com a fimose da mulher em pequenas e esparsas publicações científicas. “Importante deixar claro que não inventei esse tema, ele já é pesquisado no mundo, mas é muito pouco multiplicado”, ressalta. “O tratamento também não tem objetivo estético algum, nem altera o aspecto da vulva.” Ele se especializou no tratamento e hoje é um dos poucos a fazer o procedimento de forma não invasiva.

A técnica de reversão é extremamente simples, feita em consultório, e, raramente, requer corte e ponto. Apenas com anestesia local, é feito o descolamento da pele que envolve o clitóris. “A paciente pode sair daqui e no dia seguinte praticar spinning na academia de ginástica. Deve apenas seguir algumas orientações de cuidados em casa para evitar que o problema volte”, explica o médico.

Não é um procedimento doloroso, nem envolve riscos de infecção ou sangramento. O sexo é liberado depois de 48 horas. Tratar a sensibilidade da região não é garantia de que uma mulher que nunca teve orgasmo na vida possa vir a ter. Até porque, como se sabe, o prazer feminino envolve mais do que questões anatômicas e fisiológicas, e tem muito a ver com o emocional.

Fimose feminina em pauta – Foto: Getty Images

Ter a fimose também não significa que a mulher estará privada do orgasmo. “No entanto, é fato que muitas mulheres melhoram a experiência de prazer, descobrem posições mais favoráveis e passam a entender melhor o próprio corpo”, explica Perez. “Aquelas com pouca sensibilidade na região, certamente vão ter algum ganho, mas não é, de forma alguma, um efeito placebo.”

Entre os relatos a que Bazaar teve acesso, muitas pacientes disseram que o sexo melhorou – e muito – depois do procedimento. Uma delas conta que passou a ter prazer com sexo oral, coisa que jamais acontecia em seu relacionamento. Outra escreveu: “Olhar para isso tudo foi uma experiência muito interessante. Eu fico imaginando para quem não tinha nenhuma sensibilidade, o quanto isso é importante e as mulheres simplesmente não sabem”.

Uma terceira revelou: “Estou muito mais feliz com meu corpo, me sentindo mais inteira”. E mais: “Os orgasmos têm mais intensidade, sinto que duram mais tempo”. “Cheguei a me sentir triste e frustrada muitas vezes porque demorava demais para chegar ao orgasmo. Isso mexia muito comigo e causava ansiedade. Mudou minha vida.” “Para mim, desde o começo foi profundamente revolucionário. Não foi apenas uma liberação do clitóris. Foi e ainda é intenso.” E, por fim, mais esse depoimento: “Passando para falar que fez um ano do nascimento do meu clitóris e, com ele, nasceu uma nova mulher, mais conectada com meu feminino, com meu corpo”.

“Os médicos não foram ensinados a examinar clitóris e isso não é feito de rotina nos consultórios, apesar da enorme importância desse órgão”, conta Luiz Perez. “Essa questão virou meu projeto de vida. Não é sobre ser homem ou mulher, mas sobre colocar a ciência acima de atrasos sociais que envolvem a sexualidade. Muitas mulheres referem a seus médicos queixa de dificuldade de orgasmo ou pouca sensibilidade, e nenhum exame físico do clitóris sequer é feito”, desabafa.

Seu trabalho tem chamado a atenção da comunidade médica e científica internacional, que está um pouco à frente nesses estudos. Luiz Perez realizou uma palestra para o TED Talks, que deve estar disponível em breve na plataforma de vídeos pelo Youtube. No que depender dele, esse assunto estará, muito em breve, dominando as rodas de conversa – e os consultórios – por aí.