Foto: G. Prado
Foto: G. Prado

por Anna Paula Buchalla

Com promessa de tratar a falta de dese­jo sexual, o “Viagra femi­nino”, aprovado nos Estados Unidos no ano passado, tem se revelado pouco eficaz. Os resulta­dos na cama não são nada animadores para elas, como mostra uma pesquisa re­cém-publicada na revista Jama Internal Medicine, da Associação Médica Americana. A flibanserina foi a primeira droga com esse tipo de indicação: de uso contínuo, ela atua no sistema nervoso central, aumentando os níveis de dopamina no cérebro, neurotransmissor associado à sensação de prazer e bem­-estar. Pesquisadores holandeses da Universidade de Amsterdã analisaram oito estudos clínicos com a pílula rosa, que envolve­ram mais de 6 mil mulheres, e concluíram que ela não melho­rou muito a vida sexual delas nem aumentou a frequência das relações sexuais. Muito mais do que discutir a eficácia do remé­dio, o levantamento trouxe à tona uma questão importantíssima: seria mesmo a falta de desejo uma doença a ser tratada?

Pois bem, não é. E a nova ciência da sexualidade feminina tem se encarregado de provar isso nos últimos cinco anos. Não se tra­ta apenas de discussão acadêmica. O próprio DSM- V, o manual da Associação Americana de Psiquiatria, que elenca e caracteriza as doenças psiquiátricas, retirou em 2013 o item que tratava do distúrbio do desejo sexual feminino. O termo foi substituído por um novo diagnóstico: a disfunção do interesse feminino/excita­ção. Pode parecer apenas uma alteração de ordem técnica, mas ela faz toda a diferença. O que se diz, aqui, em outras palavras, é: não há nada errado com você se o desejo não brota instantane­amente diante de seu parceiro ou parceira. O problema só existe quando, mesmo “querendo querer”, não há nada que a entusias­me a ponto de fazer sexo, ou quando o orgasmo é um dese­jo nunca alcançado. Caso contrário, a ciência tem uma resposta nova e objetiva: homens e mulheres têm ciclos sexuais diferen­tes. No caso delas, nos meses ou nos anos de paixão e encanta­mento, o desejo sexual até surge espontaneamente. Mas depois de um tempo, quando a relação entra na rotina, a mulher se tor­na responsiva. Isso não significa que não tenha mais desejo, mas ela precisa ser estimulada a isso. É mais ou menos como aquela preguicinha de ir à academia, mesmo com a certeza de que no fim você nunca se arrepen­de de ter ido. Mas é preciso um empurrãozinho… da outra parte, no caso.

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Diante da enorme quantida­de de mulheres supostamente “frígi­das”, os cientistas do sexo começaram a entender, nos últimos anos, que a resposta se­xual não é um mecanismo linear como se acredi­tava. O modelo anterior, descrito nos anos 1970, baseava-se nos estudos masculinos, em que o desejo sexual é espontâneo, surge antes de qualquer coisa, como uma fome, motivando a pessoa a ir atrás da sua satisfação. “Hoje já se sabe que para as mulheres não é assim que funciona: desejo antes, satisfação sexual depois”, expli­ca a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Es­tudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo (USP). “As mulheres experimentam com mais frequência o desejo como resposta ao estímulo erótico”, diz. Não há nada de anormal ou não saudável tanto em um quanto em outro. São apenas modos diferentes de encarar e realizar o sexo.

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“Já atendi muitas mulheres reclamando da baixa libido, mas numa conversa mais aprofundada, acabo entendendo que elas gostam de sexo, mas precisam ser estimuladas antes”, conta Carmita. É como se o desejo não fosse como elas imaginam que deveria ser. Uma das pioneiras da defesa do sexo responsi­vo, a psicóloga Emily Nagoski, diretora do Centro de Educa­ção em Bem-Estar do Smith College, em Massachusetts, nos Estados Unidos, acredita que ele é muito mais comum do que se pensa. Seus estudos mostram que mais de 70% dos homens experimentam o desejo espontâneo contra apenas 10% a 20% das mulheres. “Muitas acreditam que o desejo seja menor se ela não sentir urgência em fazer sexo. É como se ela não fos­se normal”, escreveu Nagoski em um artigo para o The New York Times. Mais importante, segundo ela, é não basear nossa sexualidade na dos outros: assim como uma impressão digital, cada um tem a sua. “Só é considerado um distúrbio quando a mulher não tem nenhum dos dois, nem o desejo espontâneo, nem o responsivo”, resume a psiquiatra Carmita Abdo. Para essas mulheres, terapia sexual e, quem sabe, o “Viagra femini­no” podem ajudar. Talvez um bom começo seja “desmedicali­zar” a falta de desejo e aceitar as coisas como elas são.

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