Foto: Alex Falcão

Não foi só o confinamento provocado pelo lockdown e pelo trabalho remoto que mudou nossas vidas. Passar horas olhando o próprio rosto na tela durante as videochamadas provocou um efeito sem precedentes na vida de boa parte das pessoas: uma corrida aos consultórios de dermatologistas e cirurgiões plásticos.

As queixas são inúmeras: pés de galinha, flacidez, olheiras, perda de contorno facial e até o nariz que, de repente, ficou grande demais. Está tudo ali, concentrado na face. Um fenômeno que até ganhou um nome: zoom boom. “Notamos um aumento expressivo na procura de pacientes por procedimentos”, diz a dermatologista Thais Pepe, de São Paulo, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Academia Americana de Dermatologia. “São queixas como testa muito marcada, lábios finos demais, rugas que as pessoas não notavam antes, tudo diretamente associado à imagem que vemos na tela do computador ou do celular”, afirma a médica.

Os tratamentos para melhorar a aparência vão desde a já consagrada aplicação de toxina botulínica e preenchedores a procedimentos invasivos como facelifts e rinoplastia. Segundo dados da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica, 64% dos médicos notaram um aumento nas consultas virtuais ou presenciais desde o início da pandemia do novo coronavírus.

Número semelhante foi relatado por especialistas ingleses e, certamente, os dados fazem eco aqui no Brasil, onde não existem ainda estatísticas oficiais deste período.

Os injetáveis são a primeira escolha dos pacientes – e dos dermatologistas, evidentemente – seguidos por lasers ablativos para corrigir rugas e linhas de expressão. Também nota-se um aumento da procura por tratamentos de rejuvenescimento do pescoço e do contorno facial. Típico de quem se observa de baixo para cima nas imagens espelhadas por vídeo.

E para quem pensa que o zoom boom é exclusividade feminina, uma surpresa: a proporção de homens e mulheres que buscam tratamentos faciais não está mais tão desigual. No caso deles, implantes capilares também entram na lista de pedidos de ajuda. “Vale lembrar que muitos pacientes têm, sim, a indicação, mas o ângulo, a luz e as limitações da câmera podem distorcer a realidade”, ressalta Thais Pepe.

Daí por que é sempre bom procurar um profissional de confiança, que sabe distinguir os casos de dismorfia corporal (quando se tem uma imagem distorcida da realidade) daqueles que realmente merecem um reparo estético.

Também é comum encontrar pacientes obcecados com uma parte específica do rosto: por exemplo, se ele não está feliz com o nariz, essa é a única imagem que consegue enxergar na tela. Pior: ainda há vários rostos lado a lado, por horas, que viram obviamente objeto de comparação.

Segundo a dermatologista Thais Pepe, seguindo a tendência da naturalidade e dos efeitos minimamente visíveis, alguns procedimentos reinam absolutos nos consultórios. “O foco é a revitalização da pele e a produção de colágeno por diversos estímulos, principalmente por meio de bioestimuladores, como o Radiesse, e do ultrassom microfocado, como o Ulthera”, diz. “Essa combinação é extremamente eficiente tanto para o rosto como para o corpo”, afirma a médica, que aplica a técnica em sua clínica.

Ela é indicada, inclusive, para corrigir a perda de contorno: os bioestimuladores induzem o próprio corpo a produzir o colágeno de forma natural, melhorando a firmeza e o viço da pele. “O uso dos ácidos hialurônicos, nas diversas densidades, também tem ajudado na hidratação da pele por meio de skinboosters, e na suavização da área ao redor dos olhos, no contorno da mandíbula e da região malar para aqueles pacientes que desejam um resultado rápido”, diz a doutora Thais. Ela recomenda ainda o uso de equipamentos de radiofrequência, comprovadamente eficazes contra a flacidez da pele. “Os aparelhos mais modernos hoje conseguem aquecer o tecido em maior profundidade para estimular o colágeno”, explica.

Em seu consultório, ela usa o ThermiTight, uma espécie de radiofrequência “injetável”. O procedimento é minimamente invasivo. Aplicado sob a pele, com uma pequena sonda térmica, que aquece tecidos subcutâneos, ele requer apenas uma sessão para dar resultado. “A radiofrequência monopolar aplicada internamente promove aquecimento nos tecidos, promovendo estímulo ao novo colágeno, com consequente firmeza e skin tightening”, acrescenta.

É utilizada uma solução anestésica injetada na área a ser tratada. A médica então aplica movimentos suaves para aquecer os tecidos no nível desejado. “A maioria dos tratamentos dura menos de uma hora; o procedimento é indolor e pode ser feito no pescoço, no colo, nos braços, no abdômen, na cintura e nas coxas”, explica.

De acordo com a doutora Thais, o downtime (tempo de recuperação) é de cinco dias. O paciente fica com a pele inchada, dolorida e pode ter hematomas. “Os primeiros efeitos da técnica podem ser vistos após uma semana e os resultados finais aparecem em três meses”, afirma. E, aqui, ao menos uma vantagem do confinamento que está na origem do zoom boom: com mais tempo para ficar em casa, a recuperação é bem mais tranquila – e discreta.