Foto: Acervo Clarice Lispector/MS

Na obra de Clarice Lispector não existem prerrogativas de autoajuda ou fórmulas infalíveis para a obtenção de riqueza, sucesso ou felicidade. Se vir textos de autoajuda atribuídos à efeméride, pode desconsiderar. Não é com ela. Sua preocupação sempre esteve ligada às questões metafísicas e existenciais. Não existe dogmatismo, paternalismo nem tampouco soluções definitivas em seu vocabulário.

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A escritora, que nasceu na Ucrânia (sob nome de Haia Pinkhasovna) e fortaleceu sua identidade como brasileira e nordestina, completaria 100 anos nesta quinta-feira (10.12) – com comemorações em curso no Brasil e no mundo. Clarice morreu cedo, vítima de um câncer, um dia antes de completar 57 anos, em 1977.

Sintomas de disrupção podem ser encontrados não só em sua bibliografia, mas também em sua vida pessoal. Casar-se, constituir uma família, separar-se, mudar para outro país, viver 16 anos no exterior: tudo isso foi um divisor de águas em cada etapa. “Sua trajetória como escritora foi sendo vivenciada aos poucos. Ela escrevia as obras e continuava morando no exterior”, explica a biógrafa Teresa Montero à Bazaar.

A separação do marido Maury Gurgel Valente, em Washington, nos Estados Unidos e, logo em seguida, a mudança para o Rio de Janeiro, aos 39 anos, foi uma espécie de posse da sua vocação. Antes, ela só ia à capital fluminense quando lançava algo e depois retomava o “exílio involuntário” e, junto, as obrigações que a condição de mulher de diplomata impunha. Aconteceu na época de “O Lustre” (1946), “Alguns Contos” (1952) e “A Maçã no Escuro”, que teve de esperar quatro anos para poder ser lançado, no Rio, em 1961.

Contemporânea do movimento feminista, Clarice já se colocava no mundo com a postura de “mulher moderna” (expressão que ela usa nas páginas femininas do Correio da Manhã e no Diário da Noite, sob pseudônimo). “A força de sua obra. A capacidade de renascer a cada livro, de questionar, inventar, adivinhar a realidade. Um testemunho do susto, da dor e da alegria de existir”, conta Teresa.

Clarice costumava dizer que queria ter sido uma lutadora, defendendo o bem dos outros. “Refere-se ao drama social, às grandes injustiças a que são submetidas as classes menos privilegiadas. Para mim, Clarice foi uma lutadora e a sua obra é a prova disso. Quem a lê entende o tesouro que nos deixou.” Ou entende a escritora em sua própria definição: “Uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima”, resumiu na crônica “O Que Eu Queria Ter Sido”.

Clarice propunha mais indagações do que respostas. Escrevia em busca de solucionar o mistério da existência humana. Ou o mergulho na procura pela “própria coisa”, como ela mesma dizia.

Brasileira, sim

Foto: Acervo Clarice Lispector/MS

Naturalizada em 1943, quando se casou com Gurgel Valente (com quem teve os filhos Pedro e Paulo), Clarice não teve memórias da primeira infância na Ucrânia. Chegou ao País com 1 ano e 2 meses, recebeu da família a história contada. Viveu no Recife até os 14 anos, no bairro Boa Vista, núcleo das famílias judaicas. Também morou em Maceió, de 1922 a 1925.

As raízes brasileiras podem ser sentidas no ritmo de sua fala (assista à sua última entrevista à TV Cultura ao saudoso Júlio Lerner), com leve sotaque nordestino, nas expressões que usava, na preferência de sabores e objetos que cultivava. E também na herança musical das aulas de piano, que aprendeu com as irmãs Elisa e Tanya. S

eu pai Pinkhas educou as filhas com um olhar futurista para a época: todas trabalhavam e estudavam. Clarice formou-se em Direito em 1944, ano em que publicou seu primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem”. O resto é história.

A hora é agora

Em novo projeto gráfico, a recente edição de A Hora da Estrela tem assinatura do designer Victor Burton e posfácio de seu fiho e curador de seu legado literário, Paulo Gurgel Valente – Foto: Divulgação

Para celebrar o centenário, toda a obra de Clarice Lispector vem sendo revisitada em novo projeto gráfico, em que o leitor conhece sua outra faceta: a de artista plástica. A nova edição do último livro publicado em vida por ela, “A Hora da Estrela”, chega com assinatura do designer Victor Burton e posfácio de seu filho, o economista e curador do legado literário clariceano Paulo Gurgel Valente.

“A vida é cruel, injusta e dramática para os excluídos do progresso na metrópole brasileira”, discorre ele sobre o romance. “No entanto, há muitos outros recursos – acredito que mais inconscientes do que propositais.”

Para o editor da obra de Clarice, Pedro Karp Vasquez, esse novo texto traz um fato “muito rico e esclarecedor”, capaz de traçar um paralelo entre a vida no Recife da autora e as desventuras de Macabéa, a protagonista. Somam-se às suas demais publicações, artigos como os das amigas Nélida Piñon e Rosiska Darcy de Oliveira, além de contribuições de estudiosos do universo da autora, que ajudam a compreender e iluminar seu trabalho para além da análise acadêmica, despertando interesse de mais gente após sua morte do que em vida.

“Agora encontra a sintonia com um público mais maduro e preparado”, avalia Vasquez. Seus trabalhos já foram traduzidos para cerca de 40 línguas e veiculados em mais de uma centena de países.

Para descobrir Clarice

Seus contos são as leituras mais acessíveis, que podem abrir caminhos para o seu universo enigmático. Pedro Karp Vasquez sugere começar por: “Felicidade Clandestina” e “Laços de Família”. Dos romances, inicie com “Perto do Coração Selvagem” ou “A Hora da Estrela”, que falam sobre a afirmação da feminilidade em um mundo machista e opressor.

“Água Viva” e “Um Sopro de Vida” são pura poesia. Leituras para os mais ávidos. E, claro, “Todas as Crônicas”, que reúne em um só volume toda a obra de Clarice Lispector como cronista.