El Dorado (2006-7), de Danica Dakić - Foto:reprodução/Bazaar ARt
El Dorado (2006-7), de Danica Dakić – Foto:reprodução/Bazaar Art

Por Juliana Monachesi e Denise Schnyder

Toda Bienal é um evento político, e a arte carrega, sim, um potencial emancipatório. É com essa assertividade que a 31ª Bienal de São Paulo abre suas portas neste sábado (06.09). Em entrevista a Bazaar Art, os curadores Charles Esche e Galit Eilat dizem que é pela imaginação que a política se faz presente na arte contemporânea. Como Falar de Coisas Que Não Existem, o título da exposição concebida por eles – junto dos demais curadores, Pablo Lafuente, Oren Sagiv e Nuria Enguita Mayo, – refere-se, portanto, a tudo o que é possível imaginar e querer para o conflituoso mundo atual.

Spear (1963-4), 12 peças de madeira pintadas em vermelho e preto suspensas por fios de metal, de Edward Krasinski; nas fotografias, o artista manipula a peça  - Foto:reprodução/Bazaar ARt
Spear (1963-4), 12 peças de madeira pintadas em vermelho e preto suspensas por fios de metal, de Edward Krasinski; nas fotografias, o artista manipula a peça – Foto:reprodução/Bazaar Art

“O que a arte te pede para fazer é imaginar algo novo, mas a partir da imaginação de uma outra pessoa, o artista. Você experimenta, por um momento, uma outra forma de pensar. Essa ideia é fundamental para a arte”, defende Esche. “Assim, você não è um indivíduo isolado, você é um ser humano em diálogo com a imaginação de outra pessoa. O que pode construir empatia e compreensão da diferença. Entender as coisas a partir do ponto de vista do outro, e não do seu, é um grande desafio em um mundo que é basicamente focado no individualismo”, completa o curador.

Detalhe da obra Perímetros (2012-14), de Johanna Calle, que consiste em desenhos de natureza feitos datilografando textos sobre a demarcação de terras - Foto:reprodução/Bazaar ARt
Detalhe da obra Perímetros (2012-14), de Johanna Calle, que consiste em desenhos de natureza feitos datilografando textos sobre a demarcação de terras – Foto:reprodução/Bazaar Art

Mas uma obra ou exposição pode provocar uma mudança efetiva no mundo? Charles Esche responde que o mundo está mudando de qualquer maneira, o tempo inteiro.“O tema da mudança não está em questão. A arte pode mudar o mundo? Independentemente da resposta, o mundo está mudando, sempre. Ninguém pode frear essa mudança. A questão é: em que direção é interessante que a mudança ocorra? A arte ajuda a entender quais seriam as possíveis direções”, sugere.

 Justiça Para os Aliens (2012), de Agniezka Piksa - Foto:reprodução/Bazaar Art
Justiça Para os Aliens (2012), de Agniezka Piksa – Foto:reprodução/Bazaar Art

Segundo Galit, o objetivo do grupo de curadores era fazer uma Bienal sobre o presente. “Há lugares em que o presente é mais claro”, diz, explicando a forte presença de artistas do Oriente Médio e da América Latina. Entre as questões destacadas no evento está a trasferência de estruturas religiosas para estruturas políticas e sociais, além da espiritualidade, que, na sua opinião, tende a se afastar da religião.  “A Bienal tem trabalhos que falam da religião como sistema de vida, sistema de socialização e ordenação, ou que discutem fanatismo e messianismo.”

Para ela, a espiritualidade está mais conectada às práticas pré-modernas. Mas, sobre o modernismo no Brasil,ela se surpreende: “Diferentemente de muitos lugares do mundo, há uma dimensão espiritual no projeto modernista brasileiro”, conclui a curadora israelense.