Foto: Arquivo Pessoal

Por Day Molina

Curioso que a gente celebre um dia de “índio”, e esqueça que o Brasil é indígena todos os dias do ano. O abril indígena contextualiza uma data de luta e resistência aos povos nativos. Memória é resistência. É urgente descolonizar a história desse País e continente. É imprescindível falarmos da importância de uma educação decolonial, com a presença e o protagonismo de novos autores, historiadores, antropólogos, pensadores e lideranças nativas.

Reescrever essa história deve ser um compromisso do Estado, mas também a colaboração ética de toda sociedade. Falar de memória é respeitar, honrar, preservar e manifestar nossos ancestrais. Uma história viva como a nossa não pode mais passar despercebida em lugar nenhum. Nossa geração está produzindo processos de vanguarda na arte, na moda, na comunicação, na música, na dramaturgia, na arquitetura, na advocacia, no audiovisual e em tantas outras esferas da sociedade. Isso porque não suportamos mais um Brasil sem nós; sem a nossa presença, a nossa força, sabedoria, medicina e cultura.

Vivemos em um território originário; com cultura, diversidade étnica e processos de identidade violentamente apagados. A cobiça foi o grande motivador para a invasão, destruição e genocídio indígena. Esse continente “América Latina”, originalmente chamado Abya Yala, foi o cenário de grandes batalhas. Guerras que deixaram milhares de corpos indígenas sangrando nos mares e florestas. Todos nós pisamos hoje em florestas soterradas por concretos e territórios sagrados. E o nosso povo continua sangrando, à margem. Nas periferias, favelas, vielas e em toda parte desse País, existem indígenas.

O estereótipo criado no imaginário branco, não compreende que a nossa presença deveria ser naturalmente percebida. Mas existe ainda um estigma atrelado que o “índio verdadeiro” está somente na floresta, na “oca”, na aldeia. E essa é uma imagem equivocada de quem somos e como nos organizamos de forma diversa. O verdadeiro reflexo do racismo e como isso atravessa a nossa identidade nativa. Temos o direito de manifestarmos nossa cultura de calça jeans e tênis. Mas também com as vestimentas tradicionais. Toda essa concepção, é firmada nas mentiras que nos foram ensinadas até aqui. Na garantia de conquistas para realezas, o saldo da grande “descoberta” nos custa caro até os dias de hoje.

Precisamos lembrar que esse território invadido, colonizado e explorado, carrega em seu DNA o sangue indígena. Desromantizar esse fato é uma necessidade política, social. As avós “pegas a laço” foram violentadas em seus corpos e territórios. O Brasil nasce da violência contra mulheres indígenas e negras. Não há nada a que se orgulhar. Isso não é e nem pode ser visto como algo bom, positivo. Ou seja, não podemos negar que, de fato, temos uma herança genética em nossas veias. Porém, isso não nos faz “indígenas”. E nem nos isenta da responsabilidade de construir um País mais inclusivo, menos racista e excludente. Ao contrário, estamos todos convidados a nos comprometer com a reparação histórica que se precisa fazer aos povos tradicionais desta terra.

Segundo Ailton Krenak, “novas narrativas virão para iluminar o tempo de escuridão que o colonialismo provocou em nossas terras”. Eu acredito que essas narrativas já começaram e a juventude indígena não permitirá que nossas histórias sejam mais apagadas. Aqui, onde você pisa, é território originário, composto por mais de 365 povos e mais de 274 línguas nativas. Não existem “índios” aqui, existem indígenas. Indígena significa “originários da terra”. Enquanto “índios” foi só o “apelido” equivocado atribuído pelo colonizador.

Para nós, pessoas indígenas isso é uma afronta. Somos indígenas de povos e nações diferentes, somos kariris, macuxis, kayapós, fulni-ôs, barés, pataxós, tukanos, guaranis, guajajaras, xakriabás, karajás, krenaks, hunikuins, yawanawas, witotos, murás e tantos outros. A história de nosso país é culturalmente rica e muito incrível. Que a gente possa olhar com mais desejo de conhecer nossas referências originárias.