Foto: Luiz Alvarez/Divulgação
Foto: Luiz Alvarez/Divulgação

por Cibele Maciet 

Não é fácil definir a multitalentos Daniela Busarello. Arquiteta de formação, essa “curitibana de nascimento, parisiense por adoção e italiana por intermitência”, como ela mesma se apresenta, bateu asas do prestigioso escritório de arquitetura familiar, em 2007, para se aventurar na França. O que deveria ser um ano sabático transformou-se na abertura de um escritório e projetos para clientes importantes, como LVMH, Le Bon Marché, Merci, Manufacture Cogolin, Cassina, entre outros.“Tinha tudo no Brasil: dava aula em universidade, era sócia dos meus pais, minha casa tinha ganhado prêmio nacional de arquitetura.

Faltava um pouco de aventura na vida”, conta ela. “Aos 34 anos, vim fazer um curso de história da arte na escola do Louvre, que acabou virando estágio no estúdio de Christian Liaigre e Christian de Portzamparc”, relembra Daniela, que, depois, quando partiu em busca de um novo trabalho, era incentivada a montar seu próprio escritório.“Eu me lancei em 2010 e criei a agência internacional Slomp Busarello, que reúne arquitetura, arte, design de interiores, fotografia, cenografia e ilustração, na qual cada projeto é definido com cada cliente a quatro mãos, sur mesure”, explica.Tanto que ela brinca com o jeux de mots ARTchicteture,“meumoto”. “Tudo é entrelaçado: gosto dos cheiros, do vento, dos sabores, dos pratos nos restaurantes, da moda, do design, da arquitetura… Vivo tudo isso muito intensamente e não consigo separá-los.”

Foto: Luiz Alvarez/Divulgação
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E foi assim no ano passado com a manufatura centenária de tapetes feitos à mão Cogolin, para a qual Daniela criou oito aquarelas. Intitulados Cosmografias – um diálogo entre o carnal e o cosmos, um universo extremamente feminino, quase erótico –, os desenhos estamparam tapetes e tapeçarias da maison. Bordados à mão por mulheres no Nepal, os tapetes com as ilustrações de Daniela são peças únicas de três metros de altura e que demoram seis meses para ficar prontos. Por causa do sucesso deles, a brasileira participou do célebre Parcours SaintGermain-des-Prés, evento de arte que acontece no 6ème arrondissement simultaneamente à tradicional FIAC (Feira Internacional de Arte Contemporânea).

A mesma afinidade e sintonia deu vida ao projeto com a fundação LVMH em parceria com o Jardin d’Acclimatation, em 2014. Para eles, a arquiteta criou um percurso de 15 metros de comprimento no qual o público pôde experimentar sensações do Brasil, como artesanato e gastronomia. E, atualmente, a mostra intitulada Abstrações, na Gale- ria Agnès Monplaisir, na capital francesa, expõe o trabalho que Daniela desenvolveu em Murano: uma coleção de vasos batizada de Mose.“A exposição também traz minha série de desenhos Cosmografias, que fiz quando completei 40 anos e me dei de presente um curso na Beaux-Arts”, conta. Somados a isso, inúmeros projetos de design e arquitetura espalhados pelo mundo. Nada mal para quem queria um pouco de aventura. Mas essa sagitariana de 43 anos não poderia ter imaginado uma vida diferente. Incentivada pelos pais a transitar pelo mundo da arte, dança e arquitetura desde cedo, ela já desenhava suas próprias bijoux de papel e as desfilava por aí.“Acho também que um dos grandes estímulos para minha vinda à França foi minha madrinha, que morou 15 anos aqui.

Foto: Luiz Alvarez/Divulgação
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Quando tinha 7 anos, ela me mandou, pelo correio, um livro sobre a manufatura de Sèvres.A sementinha foi plantada ali, naquele momento”, diz ela, em seu belo apartamento no chique 7ème arrondissement. O espaço, com um pé-direito altíssimo, exibe o típico charme parisiense dotado de peças de Alvar Aalto, JohanVan Loon, Le Corbusier,Anna Castelli Ferrieri,Cícero Dias, Castiglioni, Noguchi até Irmãos Campana, Gaetano Pesce, Bruno Rainaldi. Tudo é pensado e ornado por tapetes orientais, almofadas afegãs bordadas, veludos de seda, forros e transparências.

 

Foto: Luiz Alvarez/Divulgação
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Há preconceito por ser brasileira? “Sempre tem gente com uma certa resistência. Daí, não insisto. Mas brasileiro não tem medo de ousar e de se mostrar, e os franceses se encantam com essenossojeitolivre.” Eacrescenta:“Não temos o peso da história e a tradição deles, e isso nos libera de muita coisa. Somos doces, simples, naturais, e eles têm muitos rituais”, diverte-se, e emenda dizendo, com brilho nos olhos, sobre projetos futuros, entre eles uma exposição na embaixada brasileira em Paris, com vernissage em 6 de dezembro: “A persistência e o acreditar fazem com que as coisas aconteçam.Então,eu sonho e tento.Tem muita coisa boa para acontecer, mas eu realmente adoraria ter mais projetos no Brasil”.