Maria Rita - Foto: Fabio Liebl
Maria Rita – Foto: Fabio Liebl

Por Victor Drummond, de Buenos Aires

Maria Rita é de um fortíssimo poder de ancestralidade e musicalidade. Ela consegue desenhar sua própria e forte identidade musical no palco, ao mesmo tempo em que arrebata o público para outras eras da música. Tem a passionalidade e entrega herdadas de sua mãe, o mito Elis Regina, passando pelo o que aprendeu com o jazz sofisticado de Ella Fitzgerald, que ela afirma ser uma de suas grandes (ou maior) referência na música.

Tudo o que a aprendiz absorveu destes nomes, lapidou ao seu modo, com uma assinatura única. O resultado é uma figura que, ao subir no palco, transcende a mulher delicada e intelectualizada e se transforma em várias “Marias Ritas” capazes de fazerem a plateia sambar ou se comover.

Ela está em turnê com seu show “Voz:piano”, plantando pelo mundo sementes dessa força vocal e dessas figuras autorais que ela incorpora nos palcos. Já passou por importantes circuitos como Lisboa, Paris, Dublin, Berlim, Londres e Genebra.

No show há um casamento em total harmonia de sua voz com o piano de Rannieri Oliveira. É praticamente um duelo às avessas, onde a intenção do instrumento piano e do instrumento voz é ser generoso um com o outro. No lugar de disputas, entregas viscerais e complementares.

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Maria Rita - Foto: Fabio Liebl
Maria Rita – Foto: Fabio Liebl

O set list é composto por músicas de seu repertório e outras que ela nunca gravou. “Eu me sinto como se estivesse na sala da minha casa”, explica ela.

No mesmo dia em que concedeu essa entrevista, recebeu a notícia que está concorrendo a mais um Grammy Latino (já ganhou 11) na categoria “melhor álbum de samba”, com seu trabalho “Amor e música”. Já estamos na torcida. Pelo prêmio e que mais sementes de seu trabalho – que por si só já é um grande ato de resistência, como ela definiu- possam transformar o mundo.

Você é uma mulher “Bacanuda”, que é como seus fãs carinhosamente te chamam. Como a maternidade te fez ficar ainda mais bacanuda, e como ela te modificou?
Em tudo. Modificou a obrigação de aprender a dizer não, de limite. De mim comigo mesma, com o trabalho. Não é só o amor em si. Minha alma se alimenta muito de desafios. E desde sempre eu os entendi como desafios intelectuais de produção, de trabalho. Minha meta desde muito pequena era a excelência na escola, pensando lá na frente, de êxito profissional, em qualquer área que eu fosse entrar. Sempre fui muito caxias. Com a chegada do meu primeiro filho, que já está com quatorze anos, dá uma quebrada nisso, porque eu preciso voltar para casa. A partida é difícil, mas eu preciso mostrar pra ele que eu amo isso que eu faço também. Esse duelo que existe com culpa, cansaço, exaustão, dúvidas e questionamentos não é diferente de nenhuma mãe que trabalha. Só tenho as rotinas diferentes, mas existe essa relação com a operária da fábrica, a costureira, a dentista, a advogada, a juíza, a professora. Saio é a Maria Rita, mas quando volto é a mamãe. Isso foi muito a minha filha, a Alice, que está com cinco anos, quem me ensinou. Porque ela não se relaciona com a Maria Rita, a mulher sem óculos, cantando no palco. Se relaciona com a mãe dela. Cantando em casa ou cantando no palco, ela: “não, não, não… !”, como quem diz: “eu deixo você ser isso lá. Aqui não, né?. Aqui esse tempo é nosso.”

É uma desconstrução. São duas figuras…
Sem dúvida. São duas figuras. Eu vim entender que eu sou as duas. E eu precisei aprender a aplicar essas “personagens”, entre aspas, nos seus momentos específicos muito em função deles. E isso é ótimo. É um movimento muito saudável para gente enquanto família. Eles se sentem respeitados. E a criança que se sente respeitada vai às alturas. Sei que hoje eu sou um ser humano melhor porque eu sou mãe e porque eu canto. E eu falo isso pra eles: “mamãe vai trabalhar, eu amo o que eu faço”. O que eu faço é um privilégio e eu sou uma pessoa melhor; sou uma mãe melhor, uma amiga melhor, uma filha melhor, um ser humano melhor por causa disso aqui.

Maria Rita - Foto: Fabio Liebl
Maria Rita – Foto: Fabio Liebl

Você está fazendo essa turnê fora do Brasil. Levar um pouco de arte, música, cultura para fora de seu País, é uma maneira de fincar raízes fora para se tornar eterna de alguma forma em outros povos, antropologicamente falando? O que te passa pela mente?
Nunca pensei por esse lado. Eu penso no galho, na folha indo, não necessariamente eu me plantando nos lugares. Eu sempre falo para equipe de plantar sementes. Eu tenho uma relação… como posso dizer… a serviço da música.

Uma missão mesmo…
É! Me sinto quase avessa a dizer que eu estou plantando, pois, para mim, é uma coisa além do que eu sou, do que faço. É muito maior. Quando eu subo no palco, eu viro uma outra coisa, um outro ser humano. É uma relação muito profunda. Não sei se levar o meu cantar para outros países é uma forma de me fincar. Até porque eu ainda sinto que o meu trajeto e as minhas conquistas no Brasil não são as mesmas que eu tenho fora. São situações em que eu sinto que é como se fosse uma volta. Fora do Brasil tenho que entrar mais nos costumes, como horários de teatro, por exemplo. Tem que entrar às duas da tarde. Não tem como entrar antes. E no Brasil, a Maria Rita consegue algumas algumas entregas que fora do Brasil não existem. Isso é bom, não só para mim, mas para todo mundo, que fica em xeque constante. Eu não sei te dizer se estou fincando nada fora, não tenho essa dimensão de estar levando, de estar plantando, de ficar, eu não sei…

Talvez no coração das pessoas, porque esses momentos ficam, se eternizam… incrível como há pessoas na plateia que gritam “eu te amo” e talvez só tenham contato com a sua música e não sabem quem é a Maria Rita mãe, a Maria Rita celebridade do Brasil, e te amam…
Ah, sim. A música tem uma força. Nesse ponto eu acredito que seja; acho que você tem razão, acho que vou concordar com você olhando por esse lado. Porque eu sei que eu tenho uma presença forte de palco, até de expressão facial, eu vejo pela reação das pessoas, da plateia. E as pessoas tem uma relação muito íntima, muito visceral com a música. Disparam emoções, sensações. Eu torço, eu espero. Aí minha função vai ter, meu trabalho, minha missão é cumprida, no sentido de chegar, porque aí eu toquei a alma de alguém. Aí eu cumpri meu papel.

Maria Rita - Foto: Fabio Liebl
Maria Rita – Foto: Fabio Liebl

Brasil. A gente vive um momento de caça às bruxas. Seja por abandono, como de um museu que se incendeia e se perde o acervo não só de duzentos anos desde sua criação, mas de milênios de história brasileira e universal. Seja por debates sobre os nus do renascimento e das artes dentro dos museus. Você acha que é uma perseguição disfarçada de moralismo? E que futuro você espera para o Brasil e para sua arte?
Acho que é uma insegurança, o medo do estranho, né? A falta de conhecimento apavora. Quando você não conhece o outro, o outro vira um “alien”, no sentido de estranho. E isso gera medo. Acho que tudo é um grande disfarce para uma sociedade abandonada sob todos os aspectos, em todas as manifestações. Mas, especialmente nesse caso que você mencionou, é o abandono da educação, da cultura, da relação para com a cultura e as expressões culturais da nação, do que é ser brasileiro. O entendimento do que é ser brasileiro ficou um negócio estranho; ficou o futebol e a corrupção talvez é a alegria? É um negócio que com esse movimento, a gente vai perdendo um pouco de uma identidade e vai levando, vai exacerbando para esse lado que é mentiroso. Porque a sociedade brasileira já foi muito envolvida, muito culta, historicamente, lá para trás.

Mesmo na geração dos nossos pais; a sua mãe mesmo foi uma mulher super politizada…
Isso que eu ia falar; e nem foi tão lá para trás assim. Acho que esse abandono estabelece uma quebra; a ponte quebrou. Acho que é tudo um grande disfarce sim. É tudo uma grande dança estranha e sombria que a gente está vivendo. Nos shows que faço no Brasil, faço questão de dizer para a plateia que o simples ato de estarmos em cima de um palco e eles terem saído de casa e irem ao show é um ato de resistência, que é como a gente tem se sentido de fato. E ainda no momento é uma canalhice que a gente está vivendo; é tudo muito velado, estranho. É um movimento tão para trás que vem acontecendo nos últimos quatro, cinco anos, e o surgimento de certas figuras políticas no Brasil. Aí as sombras se colocam de forma que a gente consegue ver melhor.

E o futuro?
Não acho bom, não. Eu, meus amigos, a gente fica numa torcida de algum candidato um pouco mais progressista tomar principalmente a presidência, mas existe uma questão de governabilidade, a forma como a política é desenhada no Brasil, que é um sistema já falho, um sistema que com esse lixo todo que subiu desses casos de corrupção, lava-jato, a gente se depara com esse curso político apodrecido. Porque a questão deixa de ser a ética, deixa de ser o plano de governo, para uma possibilidade de governabilidade. E isso está nas mãos de pessoas mais preocupadas com o próprio umbigo do que com o resto da população, com o resto das questões todas. As pessoas chegam em casa, botam a cabeça no travesseiro e conseguem dormir, não sei como.

Então vamos usar a música como ópio, como resistência…
É só o que eu posso fazer. E fico em uma vitória pessoal assim, interna, vibrante quando percebo pessoas que entendem que é isso que eu estou fazendo. Que a gente ainda está botando a cabeça assim para fora.

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