Foto: Divulgação
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História da arte sempre foi importante para mim. Quando eu estava começando, não estava familiarizado com isso. Foi só depois de entrar na escola de arte que aprendi como ela está envolvida com as disciplinas de Humanas. Quando tive minha primeira aula de História da Arte, percebi que poderia dialogar com todas essas áreas ativas do humanismo – filosofia, psicologia, estética – e logo elas viraram guias para mim. Tornei-me muito curioso sobre o que significava ser humano – qual era o real potencial da humanidade e como atingir um estado mais elevado do ser por meio da arte. A história da arte se tornou um modo de explorar precisamente isso.

Quando eu era mais jovem, achava interessante que os artistas europeus da minha geração falavam sobre história da arte de uma maneira negativa e diziam coisas do tipo: “Como artista norte-americano, você não precisa carregar o peso da história da arte em seus ombros, o que dá a vocês, americanos, a liberdade de se mover e fazer gestos mais abertos e poderosos”. Sempre foi o oposto para mim. Da perspectiva americana da arte ocidental europeia, pode-se ver que um artista como Manet foi capaz de se tornar Manet por meio do conhecimento de Ticiano, Velázquez, Watteau e Goya, e esse sentido de conectividade era uma coisa linda. Mostra como se é capaz de encontrar interesse em algo maior do que si mesmo.

Se eu olhar para trás, para os trabalhos que tenho feito nas últimas duas décadas, acho que minha relação com a história da arte fica bem evidente. Sempre gostei de criar obras que tenham esse tipo de presença Gestalt e muitas têm estado diretamente ligadas à estética do dadaísmo, surrealismo ou, simplesmente, classicismo. Na minha série Banality,você pode olhar para uma obra como Michael Jackson e Bubbles e enxergar a mesma configuração triangular usada nas esculturas renascentistas, como a Pietà de Michelângelo.

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Em outros pontos, eu fiquei muito envolvido pelo barroco e pelo rococó. Durante esse período da arte, tudo parecia estar sendo debatido, mostrando como certos estilos tentam ir ao encontro das necessidades das pessoas. O que eu adoro nesse período, o barroco, digamos na Itália ou no sul da Alemanha, é que você pode entrar em uma linda igreja barroca, sem um tostão no bolso, mas sente que não tem absolutamente nada para se preocupar naquele dia, além de ter comida e um teto, porque a decoração – o uso de folhas de ouro e prata e a abundância de natureza (pode haver plantas, animais e anjos voando entre as imagens talhadas na arquitetura) –, de alguma forma, o faz sentir que suas necessidades imediatas estão atendidas, preocupações parecem se dissolver sozinhas. Você se torna sujeito de transcendência quando passa por uma experiência de tanta força e abundância visual: você não se sente mais ameaçado pelo ambiente ao seu redor, que é exatamente o que eu busco atingir com meu trabalho.

Recentemente, estive em uma conferência sobre Leonardo da Vinci, organizada por Walter Isacsson no Aspen Institute, e os palestrantes eram alguns dos estudiosos mais conhecedores do mundo sobre Da Vinci, como Martin Kemp e Luke Syson. Houve muita reflexão sobre o que fez de Mona Lisa tão icônica, mas o que eu tirei desse evento foi a importância da relação de Leonardo com a natureza e o individual.

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Se você olhar para a Mona Lisa com atenção, perceberá o quanto a pintura trata da dinâmica dos fluidos. Em seus experimentos de Física e observações de autópsias, Leonardo se tornou altamente conhecedor da dinâmica dos fluidos: entendendo como o sangue flui pelo corpo,da mesma maneira que a água flui por um riacho. A precisão de um fenômeno tão natural está muito presente nessa pintura, mostrando como todos os movimentos do cabelo dela interagem com o cenário de fundo. Esse senso de unidade com a natureza é primordial na Mona Lisa – outra característica crucial que aproxima muito essa obra das minhas próprias questões.

Eu sempre quero retornar a esse senso de unidade com a natureza em minha arte, ao mesmo tempo conservando o conceito de conectividade artística, que é essencial para mim. Quando você estuda a história da arte, fica claro que todos os artistas fazem referências uns aos outros – A Caça ao Tigre, de Rubens, faz referência à Batalha de Anghiari, pintura perdida de Da Vinci –, e por um desenho de Rubens temos uma ideia de como seria A Batalha de Anghiari.

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É óbvio que Rubens está pegando todas as qualidades dinâmicas da composição de Da Vinci, e Da Vinci, claro, estava revendo Verrocchio, Uccello e Masaccio, portanto, todas essas obras estão invariavelmente amarradas umas às outras.Essas amarras são precisamente o que a série Gazing Ball pretende invocar hoje.Assim como eu diria que a coleção Masters de Louis Vuitton explora, mais além,essa correspondência fascinante.

Olhando a minha performance como artista, tento trabalhar com as coisas em um nível muito instintivo, a partir de um estado puro. Portanto, por várias décadas, eu queria trabalhar com esse objeto, a gazing ball. É uma esfera de vidro que geralmente tem uma superfície espelhada, refletiva. É originária do século 13, em Veneza, e depois se tornou novamente popular com os alemães no reinado de Ludwig II,da Bavária,durante a era vitoriana.

Eu cresci na Pensilvânia,onde há uma grande população germânica, e quando criança via gazing balls nos jardins das pessoas e, para mim, é um símbolo de generosidade. Uma gazing ball é cheia de informação,porque reflete quase 360 graus, mostrando onde você está no universo naquele momento. Mas, se pensar na filosofia, no platonismo, por exemplo, a forma circular é uma das mais puras – esse objeto esférico está refletindo o mundo em sua simplicidade pura.

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Quando eu estava pensando em começar minhas pinturas Gazing Ball, queria homenagear artistas que eu realmente amava ao emparelhá-los com esse objeto que é, ao mesmo tempo,simples e onisciente.Eu tenho um processo altamente intuitivo de fazer arte, então, escolhi obras que simplesmente gostaria que estivessem ao meu redor, como Almoço na Relva e Olympia, de Manet, ambas são muito informativas para mim.Todas as pinturas que escolhi estão incluídas entre os cânones da história da arte ocidental, mas a série como um todo pode ser encarada como meu próprio DNA artístico.São obras que sempre foram vitais para mim. Unir as imagens com uma gazing ball foi uma forma de elevá-las ao ancorá-las na metafísica e no tempo. A gazing ball reflete o aqui e agora, mas também reflete você, o observador. Portanto, reafirma sua presença, enquanto espelha a pintura também e, de certa forma, permite que você viaje no tempo, de volta à vida parisiense do século 19 com Manet.

Ao mesmo tempo,exatamente pelo próprio humanismo de Manet,você sente uma relação com todos esses heróis e mentores que formaram Manet – e me formaram também. Eu me tornei intrinsecamente ligado a esse rico ciclo humanístico quase infinito. Todas as bolsas Masters foram cobertas primeiro com a série Gazing Ball. Mas como a coleção Masters é muito menor, foquei nas imagens que criariam um diálogo equilibrado, então, pegaria uma imagem mais sensual, como A Odalisca Loira, de Boucher, mas aí você tem na mesma série Ninfeias, de Monet. As bolsas funcionam de um jeito similar à série Gazing Ball. Por um lado, você pode achar que é uma das minhas obras, mas há um certo simbolismo presente, como a interação entre as iniciais LV e o JK, e a presença do meu Rabbit [cada bolsa é adornada com uma tag de couro no formato de um coelho,uma referência à escultura de aço inoxidável de 1986 de Koons). Por outro lado, tudo isso acontece em um espaço mínimo, para reforçar que isso não é sobre mim. Não é sobre minha criação; é um exercício de experiência de humanismo, de estar em contato com sua própria hu-

manidade. É sobre se render aos artistas estampados nas bolsas, seja Van Gogh, Gauguin, Monet ou Turner. Dentro de cada bolsa, você encontra a biografia do artista e uma pequena biografia minha impressas no couro. O interior apresenta um retrato de cada artista da série, enquanto o meu é apenas o Rabbit. Então, toda a experiência é focada no artista, na bolsa e o que isso representa. Não acredito que o primeiro pensamento de alguém ao ver uma dessas bolsa seria:“Ah, a dona dessa bolsa adora ir a museus de arte”. Espero que o que venha à mente é que essa pessoa é uma representante do humanismo.

 

Ela acredita na conexão que nos faz quem somos, como nossos ancestrais moldaram o mundo em que vivemos e, assim, criando uma oportunidade para forjar um mundo melhor para as gerações que virão. Isso requer uma ativa participação em respeitar o passado, enquanto também se está no presente e se tenta definir o futuro. O tempo está em jogo aqui. Pense nos elementos brilhantes e reflexivos do monograma, a qualidade sensual dos materiais: isso o mantém no aqui e agora. E quando você abre a bolsa e encontra dentro dela as informações recontando a vida e a morte do artista e nota quantas rachaduras há na pintura [cada imagem é reproduzida a partir da pintura original desgastada], sua própria mortalidade entra em foco. Por fim,para mim,história da arte tem a ver com diálogo e em como os movimentos se relacionam ao longo da história.

BOLSA MASTERS

Koons explica sua afeição pelas obras transportadas para as bolsas. “A Odalisca Loira, de Boucher, é um quadro que vejo frequentemente na antiga Pinakothek, de Munique. Para mim, é uma das imagens mais sensuais já pintadas. Terra Agradável, de Gauguin, é uma cena poderosa, com

representação profunda de Eva, e apresenta a iconografia pessoal do artista pelo uso do simbolismo e da cor. Manet é um dos artistas mais importantes para mim. Com Almoço na Relva, se refere a Concerto Pastoral, de Ticiano, assim como à gravura O Julgamento de Páris, de Raimondi, baseado em um desenho de Rafael. Ninfeias, de Monet, é uma das imagens de natureza mais bonitas e sensuais. Ela brinca entre parecer concreta e completamente efêmera. Trabalhei com Roma Antiga, de Turner, por sua referência à história antiga e sua luz efêmera. É uma das imagens mais sedutoras e alegres que conheço.”