A vida de Tina: Júlia Burnier e Isabela Mariotto criam sátiras com influenciadora burguesa
Foto: Caio Falcão

Tina é uma artista e performer paulistana, moradora do bairro Santa Cecília, preocupada com as questões sociais e os debates em torno da Amazônia. Apaixonada pela cultura brasileira e seu povo guerreiro, não faz parte do movimento “Vem Pra Rua”. Prefere protestar pelas redes ou pela janela de casa. Candidata derrotada à prefeitura de São Paulo, gosta de se ver como rebelde à margem do sistema, não fosse um detalhe: ela ainda mora na casa dos pais.

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Essa moça, beirando os 30 anos, poderia ser qualquer jovem de classe média, mas é uma criação ficcional, recheada de um humor debochado de duas atrizes. Isabela Mariotto (28 anos, da Pompeia), que empresta seu corpo para dar vida à personagem, e Júlia Burnier (29 anos, da Vila Mariana), que dubla e edita os vídeos protagonizados pela amiga.

“Ela tem vontades, mas por conta de todas as contradições, sempre adota o caminho mais fácil e confortável”, explica Júlia sobre o avatar, que até já frequentou uma certa Piracuca, comunidade ficcional de cura interior, para se reconectar com a sua essência e desligar da vida material – pelo menos por alguns dias, para aliviar os excessos consumistas. Qualquer semelhança com algum conhecido real, terá sido mera coincidência…

“Uma pessoa muito maravilhosa, incrível, alegre. As boas intenções dela esbarram em uma limitação do próprio meio em que ela está e da vida que leva”, completa Isabela. Satirizando a dramaturgia brasileira e tramas como a novela “Laços de Família” (Globo), a microssérie “Expiando a Culpa Burguesa” (com um vídeo novo por semana), ganha cada dia mais popularidade. No Instagram, @a.vida.de.tina já ultrapassava 135 mil seguidores.

A ideia surgiu no início da pandemia, quando ambas tiveram suas rotinas de trabalho interrompidas e começaram a ver as pessoas entupindo suas timelines de desafios, aulas de Pilates, feitura de pães, entre outras exacerbações. “Muita gente fazendo milhares de coisas, um excesso de produtivismo”, conta Isabela.

A personagem foi batizada pela amiga Beatriz Trindade. “Ela pensou Quarentina, a gente adorou o nome e ficou”, completa. A ideia era criar uma linguagem, satirizar o formato dos influencers e até propor reflexão dos temas adotados pela internet. No que diz respeito ao processo de produção, as duas discutem tudo: tema, roteiro e direção geral.

“Cada aspecto que a gente aborda ou satiriza um pouco, pelo menos uma coisinha ou outra a gente compartilha ou já compartilhou nas nossas vidas”, complementa Júlia. “Aponta para esse lugar de se reconhecer em várias situações que a Tina experiencia e as contradições do nosso viver”, completa a amiga.

Nos pequenos vídeos, não há roteiro fechado, com falas transcritas, que podem demorar horas para chegar. “É muito interessante o texto acontecer no momento da ação porque ele vai se tornando muito vivo”, reflete Isa, que usa celular e tripé para gravar tudo sozinha.

Depois, vem outra mágica: a da edição em um minuto. “A gente até tentou fazer um pouquinho maior, mas a nossa linguagem tem a ver com a síntese para rodar direto ali no feed do Instagram e nos fixamos nisso”, diz Júlia. “Quando está tudo pronto, eu dublo. É a última coisa que aparece. É uma curiosidade muito grande das pessoas: o que vem antes?”, ri.

A dublagem já provoca um estranhamento cômico por si só. E casou muito bem com a ascensão de plataformas de vídeos curtos, como TikTok e Reels do Intagram, no Brasil, que ajudaram a popularizar esse jeito de contar histórias.

“Sou uma péssima consumidora de internet, digamos assim. Estou descobrindo agora como mexer no Twitter. Não tenho TikTok, por exemplo. Agora, a gente é rata de Instagram. A rede social que mais uso é o WhatsApp, bem coisa de velho”, ri Isabela. “Sou muito out. A gente acompanha bastante coisa de humor na internet, páginas no Instagram”, completa Júlia. Entre as referências, estão Porta dos Fundos e a também atriz Livia La Gatto.

Com a incerta retomada da indústria do entretenimento, Isa espera voltar logo aos palcos do teatro Oficina, onde estava prestes a estrear a peça “Roda Viva”, em março passado. Enquanto isso não acontece, Tina mostra que a arte não tem fronteiras. Ou, parafraseando a música “Tempo e Artista”, de Chico Buarque: “imagino o artista num anfiteatro (por que não online?) onde o tempo é a grande estrela”. Ainda que tenhamos de esperar um pouco, a delas está no rumo certo para alcançar a glória.