“A Vida Invisível” joga luz sobre as mulheres dos anos 1950

Filme nacional ganhou o prêmio principal da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes

by redação bazaar
Cena de "A Vida Invisível" - Foto: Divulgação

Cena de “A Vida Invisível” – Foto: Divulgação

Por Mariane Morisawa

“A Vida Invisível”, dirigido por Karim Aïnouz e baseado no livro de Martha Batalha, traz em cores, suor e lágrimas a história de duas irmãs vivendo no Rio de Janeiro da década de 1950, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler). O filme, que ganhou o prêmio principal da mostra “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes, e estreia nesta quinta-feira (31.10) nos cinemas, mostra as dificuldades das mulheres daquela geração.

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Eurídice sonha ser pianista, mas acaba se conformando ao papel que se esperava das mulheres de então: esposa, mãe e dona de casa. Sua irmã, Guida, foge de casa com um marinheiro, volta solteira e grávida e é expulsa da casa dos pais. “Eu não tinha olhado de maneira profunda para o que essas mulheres – minha avó, minha tia-avó – foram e o que elas poderiam ter sido”, diz Carol Duarte em entrevista à Bazaar. “Foi uma geração que lutou muito, mas também foi sufocada.”

Para mergulhar naquele período, Carol leu muitos livros de Clarice Lispector, teve aulas de bordado e etiqueta, conversou com mulheres de 80 a 85 anos, além de ter feito uma preparação intensa com a assistente de direção, Nina Kopko. No set de filmagem havia regras claras: ninguém podia falar ao celular, não se podia conversar, e ela tinha de ser chamada de Eurídice. Porque a câmera, de repente, era ligada e captava os atores na pele de seus personagens.

Os cuidados existiram também por causa das cenas difíceis. A noite de núpcias de Eurídice e Antenor (Gregório Duvivier), por exemplo, é perturbadora. “Dependendo de como a gente filmasse, poderia até ter homem que não acharia aquilo violento. Porque, de fato, na noite de núpcias, a Eurídice está embriagada. E ela está sendo violentada”, diz Carol. “Essa é uma discussão que estamos tendo hoje, de quando começa o estupro? Quando começa a violência?” Mas Antenor não é retratado como um homem mau. “É violento também, de outra forma, mas o homem tinha de cumprir um papel. Foi por aí a construção dessa relação. Eles se casaram, e era isso que tinha de ser feito.”

Sendo homem, o cineasta Karim Aïnouz cercou-se de mulheres no set. A diretora de fotografia e sua assistente, a sonoplasta, a assistente de direção são todas mulheres. “Foi muito mais confortável”, afirma Carol Duarte. “As mulheres tinham voz no set não porque o Karim era esse homem que dava voz a elas, mas porque tinham ativamente.”

Fernanda Montenegro está no elenco - Foto: Divulgação

Fernanda Montenegro está no elenco – Foto: Divulgação

O resultado do longa, que conta com uma participação de Fernanda Montenegro, tem sido gratificante. “Muita gente chora assistindo, inclusive homens. Um veio me perguntar se os homens eram horríveis daquele jeito mesmo”, diz Carol.

Diretor e parte do elenco em Cannes - Foto: Getty Images

Diretor e parte do elenco em Cannes – Foto: Getty Images

O prêmio conquistado em Cannes só deu mais força para o filme, que abraça sem medo o melodrama, em um ano especial para o cinema brasileiro – “Bacurau“, de Kleber Mendonça Filho, ganhou o prêmio do júri no mesmo festival, e “Babenco“, de Bárbara Paz, foi laureado em Veneza. “É interessante e contraditório ter ‘A Vida Invisível’ em um momento político de boicote e de corte de investimentos na cultura. Hoje, o filme representa também politicamente muito o Brasil. Dá uma força para continuar produzindo.”

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