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Ai Weiwei ganha megaexposição em São Paulo

Depois de abrir estúdios de trabalho pelos quatro cantos do Brasil, o artista chinês inaugura mostra na Oca

by redação bazaar
Ai Weiwei - Foto: Divulgação/Ai Weiwei Studio

Ai Weiwei – Foto: Divulgação/Ai Weiwei Studio

Por Julia Flamingo

História e memória são pilares da cultura de um povo. E são esses dois elementos que qualquer ditadura tenta eliminar durante sua ascensão. “Cortar o mal pela raiz” é o que podem dizer alguns líderes. É exatamente para essas raízes que Ai Weiwei olha: traumatizado pelo esforço da Revolução Cultural chinesa, dos anos 1960 e 1970, de apagar o passado de seu país natal, ele resgata a história e cultura locais de qualquer país por onde passa e sinaliza, com fogos de artifício, suas relações com o presente.

Mais do que seu ativismo político e denúncias sociais, o grande trunfo de um dos maiores artistas contemporâneos é sua humanidade.

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Deixando Cair a Urna da Dinastia Han (2015) - Foto: Divulgação

Deixando Cair a Urna da Dinastia Han (2015) – Foto: Divulgação

“Ai Weiwei Raiz” é a grande individual do artivista chinês que inaugura na Oca, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, aberta ao público a partir deste sábado (20.10). Uma das mais esperadas do ano, a megaexposição chega ao Brasil em meio ao caos político e eleições presidenciais; polêmicas referentes às políticas culturais, como a taxação de obras nos aeroportos; e logo após o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que teve seu patrimônio inteiramente destruído.

O título da mostra celebra também a vontade do artista de resgatar técnicas e histórias locais brasileiras. “A ideia central é esculpir a cultura. Dar forma física ao que é intangível do Brasil”, conta Marcello Dantas, curador da mostra e que acompanha Ai Weiwei desde sua primeira exposição itinerante pela América Latina, em 2015.

Com cerca de 70 trabalhos, a individual traz obras importantes, como “Vasos Empilhados Com Motivo de Refugiados”, em que as imagens tradicionais de belíssimos vasos são substituídas por cenas que denunciam a situação precária dos refugiados (o tema, presente no seu trabalho, originou o documentário “Human Flow”, lançado no ano passado), e “Deixando Cair a Urna da Dinastia Han”, formada por imagens do artista derrubando, intencionalmente, uma urna cerimonial chinesa de dois mil anos.

Stacked Porcelain Vases as a Pillar (2017) - Foto: Divulgação

Stacked Porcelain Vases as a Pillar (2017) – Foto: Divulgação

Para preparar a mostra, Ai Weiwei desbravou o território brasileiro acompanhado por Marcello Dantas. Foram cinco viagens feitas no último ano e meio, desde São Paulo e Rio de Janeiro até Ceará e Bahia. Tudo está devidamente registrado no Instagram, para o deleite dos mais de 452 mil seguidores do artista-celebridade, que também prestou declarações de amor e posou para selfies.

Ele montou quatro ateliês em diferentes cantos do País e produziu esculturas inéditas que agora são apresentadas na exposição: raízes e modelagem em Trancoso (BA); ex-votos feitas por artesãos, em Juazeiro do Norte (CE); tecidos na prisão paulista do Tremembé; e porcelana em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo.

Cerâmicas produzidas por Ai Weiwei no Brasil - Foto: Divulgação

Cerâmicas produzidas por Ai Weiwei no Brasil – Foto: Divulgação

Porcelana Teixeira foi a fábrica escolhida para se tornar estúdio de produção da obra F.O.D.A. Material de grande interesse de Weiwei, a porcelana foi criada pelos chineses, que ensinaram suas técnicas aos portugueses, que, por sua vez, instalaram fábricas no Brasil colonial.

O trabalho de nome sugestivo, que remete às iniciais de quatro frutas típicas brasileiras – fruta do conde, ostra (um fruto do mar), dendê e abacaxi –, não foi fácil de ser realizado: “Quando Weiwei me apresentou o projeto, respondi que seria quase impossível, pela técnica elaborada e mão-de-obra específica”, conta Rachel Hoshino.

Dona da marca de utensílios de porcelana Hoshino e à frente da Lenneberg Lab, ela foi escalada para comandar a produção de 300 edições da obra, que vem sendo realizada desde março e é constituída por modelagens das frutas em porcelana branca e colorida. As peças estão sendo comercializadas para bancarem a mostra, e mais de 80 já foram vendidas.

Cerâmicas produzidas por Ai Weiwei no Brasil - Foto: Divulgação

Cerâmicas produzidas por Ai Weiwei no Brasil – Foto: Divulgação

F.O.D.A. aponta como alimentos manufaturados, que costumavam estar na mesa dos brasileiros, foram substituídos por produtos industrializados. O projeto se assemelha a Sementes de Girassol, um dos trabalhos mais emblemáticos de Weiwei (também presente na Oca). Ela é integrada por milhões de sementes de porcelana pintadas à mão por artesãos chineses, que levanta questões como produção em massa e perda de individualidade.

Sobre o resultado da produção, Rachel conta, satisfeita: “O que nós entregamos foi surpreendente até para os funcionários da fábrica: eles estavam desacreditados com o próprio trabalho, de fazer xícaras de café para boteco. Agora, eles ganharam vida, se encantaram em participar de um projeto de arte”.

Ai Weiwei - Foto: Divulgação

Ai Weiwei – Foto: Divulgação

Ai Weiwei Raiz
Oca: avenida Pedro Álvares Cabral, s/n – Parque Ibirapuera, São Paulo
De 20 de outubro a 20 de janeiro de 2019