Mariana Nunes representa mães solo e periféricas – Foto: divulgação

Não dá para fazer um filme de ação policial no Brasil sem falar sobre política, corrupção e racismo. E são exatamente essas questões que “Alemão 2” debate, de uma forma mais bem elaborada do que a primeira produção. O longa, que estreia nesta quinta-feira (31.03), se passa no Rio de Janeiro e reflete sobre as milícias e o projeto falho das UPPs na cidade, ao mesmo tempo em que tenta humanizar cada um de seus personagens. 

O filme é a sequência do sucesso de 2014 e pretende conquistar a mesma audiência, ainda que tenha demorado mais de sete anos para estrear. “Ele tem qualidade para ter um público ainda maior que o primeiro. É um filme de ação que não deve nada a um filme estrangeiro”, afirma Rodrigo Teixeira, o produtor.

Dirigido por José Eduardo Belmonte, a produção teve um processo de criação longo e colaborativo, com muitas mudanças desde o roteiro inicial. “A ideia surgiu já no último dia de filmagens de ‘Alemão’, mas ainda bem que demoramos mais para lançá-lo, isso nos deu a oportunidade de fazer tudo com mais calma e melhor”, diz Belmonte.

Enquanto o primeiro longa trazia basicamente o ponto de vista da polícia, a ideia do segundo era ser mais polifônico e ampliar as vozes que estão discutindo o tema. É o caso da inserção da personagem de Mariana Nunes, que representa as mães solo pretas e periféricas, e a ausência de segurança e políticas públicas que as amparem. 

Mesmo dentro da polícia o leque foi ampliado, mostrando personagens da inteligência, que planejam as operações, como o papel de Aline Borges. De cara fica evidente uma importante mudança que a sequência apresenta em relação ao primeiro filme: o protagonismo feminino. 

Leandra Leal e Gabriel Leone em “Alemão 2” – Foto: divulgação

“O primeiro roteiro que a gente recebeu ainda tinha muitos personagens masculinos, mas fomos conversando e entendendo que isso não era mais o reflexo da sociedade hoje e que a gente precisava realmente trazer essas mulheres fortes”, explica a produtora executiva, Marília Garske.

Além das atrizes já citadas, o elenco ainda contou com Leandra Leal e Zezé Motta entregando performances incríveis. Assim como Vladimir Brichta, Digão Ribeiro e Gabriel Leone, que dão vida à história do policial civil, Machado, e seus comandados ao realizar uma missão secreta no complexo do Alemão. O objetivo é prender um grande líder do tráfico de drogas, porém, a ação que deveria ser limpa sofre uma emboscada e os policiais ficam encurralados na comunidade tentando cumprir seu dever e sair de lá vivos.

Um filme de ação mas também de denúncia e reflexão, esse é o intuito de “Alemão 2”. Com críticas à política de extermínio da polícia e sua ação truculenta, o longa questiona o tipo de polícia que queremos. “Acho que o filme entrega um recorte interessante que é uma polícia mais plural. A gente sabe que a maioria dela é violenta, e mostramos isso também, mas temos alguns personagens pragmáticos, e até uma polícia idealista na personagem da Leandra”, afirma Vladimir Brichta.

O ator também falou sobre o processo de preparação do elenco e do roteiro do filme, no qual eles tinham uma palestra diferente a cada semana, a fim de entender mais da realidade que queriam mostrar. “Ao longo do tempo, a gente aprendeu que a polícia carioca é a que mais mata, a que mais morre e a que mais se mata. E isso não é interessante nem para a sociedade nem para a própria polícia, que também está doente”, destaca.

Digão Ribeiro é Soldado em “Alemão 2” – Foto: divulgação

Nesse sentido, o que o longa faz é tentar humanizar esses personagens, dos policiais aos bandidos, ao mesmo tempo questionando que tipo de polícia deve ser estimulada e desmistificando o estereótipo de bandido. “Todo o filme foi feito com um processo de escuta, então desde o início a gente entendeu que não ia fazer só um filme de ação, mas que ele ia ter uma responsabilidade muito grande”, conta Digão Ribeiro, que se destacou no papel de Soldado.

“A história se passa no Rio, mas fala de uma polícia despreparada que está no Brasil inteiro. A gente tem uma questão de segurança pública que não é resolvida nem discutida, com um filme como esse, a gente tem a responsabilidade de falar sobre isso e propor o debate, especialmente em um ano tão importante como o de eleição”, afirma Digão.

Para ele, a mensagem do filme é clara: “tem gente morrendo nas comunidades”. Embora o filme trate de outras coisas como o tipo de polícia que seria melhor, seu intuito principal é falar sobre essa política de extermínio. Existe uma guerra dentro das comunidades matando muitos inocentes, e tem alguém lucrando com essa guerra, um alguém que não mora lá. 

Além da estreia nos cinemas, que acontece nesta quinta-feira, a ideia é levar o filme para outros lugares, especialmente dentro das comunidades, onde esse caráter de denúncia e debate pode ganhar outros tons. “É um filme muito real, perturbador e que não traz respostas, mas uma discussão. O espectador vai sair confuso e mexido pelo que viu, o que vai fazer com que ele pense sobre, e é isso que a gente quer”, destaca Digão.