Alexia Bomtempo – Foto: Divulgação

Alexia Bomtempo é filha de pai brasileiro e mãe americana. Sua mistura elegante de bossa nova com jazz pode ser ouvida no recém-lançado “Doce Carnaval”, que conta com participações de Roberta Sá, Fernanda Abreu e Otto a Maïa Barouh e Josh Klinghoffer (ex-Red Hot Chilli Peppers).”Carnaval é estar junto, é cantar junto, com amigos, pessoas que você ama e que vem a amar”, conta a cantora e compositora à Bazaar. A gravação do álbum teve início no auge da pandemia e ela sentiu necessidade de se conectar, algo distante daquela realidade solitária. “Precisava cantar com outras pessoas que amo e admiro. Compartilhar, ouvir minha voz com outras vozes, queria carinho, queria festa”. 

Roberta Sá é amiga de longa data. Ainda no Rio, se conheceram quando faziam aulas de canto com Felipe Abreu. “Sempre a admirei como artista e como pessoa. Cantamos juntas em um show dela aqui em Nova York recentemente e o Alexandre Vaz (um dos produtores do álbum) estava fazendo a direção musical do show. Então, já tinha um ‘namoro colaborativo’ no ar”, conta ela sobre a faixa Banho de Cheiro, primeiro single e que acabou ganhando clipe dirigido pelo Cadú Fávero e Fabrício Tadeu, filmado em Santa Teresa.

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Domingo, com participação de Fernanda Abreu, é um samba-enredo da União da Ilha de 1977, uma declaração de amor ao Rio de Janeiro, sua cidade do coração. “O Mauro Refosco fez todas as programações da faixa e achamos essa pegada mais eletrônica e moderna a cara da Fernanda, que conheço desde o início da minha carreira. A voz dela caiu como uma luva nessa música que faz um retrato do estilo de vida carioca – e ela já sabia a letra inteira do samba de cór”, exclama. Fã de Otto e com muitos amigos em comum, ‘Mal Acostumada’ foi feita para cantarem juntos: “além de linda, o arranjo é meio misterioso e espacial, e revela uma ternura na voz do Otto que é sublime. Ele gravou a parte dele em São Paulo e fiquei emocionada quando ouvi”.

No trabalho, se arrisca a cantar em francês na regravação de “La Nuit Des Masques” (versão para “Noite dos Mascarados,” de Chico Buarque, em feat. com Maïa, cantora franco-japonesa indicada pelo pianista Philippe Powell (radicado em Paris e que também toca nesta faixa). Por fim, “Chameleon Lovers” é a única faixa autoral em inglês no álbum. Segundo ela, as texturas dramáticas e estranhezas sonoras pediam uma colaboração vocal e Mauro Refosco (que participou intensamente junto com os produtores Jake Owen e Vaz) sugeriu o Josh Klinghoffer, que conhecia dos tempos de Red Hot. “Comecei a ouvir o projeto solo de Josh, Pluralone, e fiquei encantada. Ele é um músico tão profundo, de uma voz tão única e particular, infinitamente interessada em diferentes tipos de música”, endossa. Com arranjo de cordas à la Ennio Morricone, Josh ficou completamente apaixonado e honrado com o convite. Dê o play em Doce Carnaval e Leia a íntegra da entrevista com Alexia:

Como o nome do álbum é Doce Carnaval… Qual a sua memória mais açucarada dessa celebração? 

Sempre entrei no Carnaval com curiosidade e entrega, fascinada pela tradição, qualidade musical, mistura liberdade e alegria coletiva… É impossível pensar na construção da sociedade brasileira sem essa festa, que tem uma relação tão significativa com a nossa memória afetiva, e que traz tanto encanto e lembranças doces. A primeira vez que assisti aos desfiles das escolas de samba, na Sapucaí, foi impressionante. Já tinha uns 20 anos e, apesar de ter crescido assistindo aos desfiles na TV e de ter participado tanto do Carnaval de rua do Rio, o que vi na Avenida, realmente, não esperava! Não conseguia acreditar que aquela manifestação cultural, aquele êxtase coletivo poderia existir tão perto de mim.

Tem a fantasia que melhor traduz esse momento?

A fantasia que você quiser, seja lá como for. O Carnaval é uma festa democrática, livre para todos, é um momento de se expressar e de experimentar sem medo. Gosto de inventar fantasias na hora, de juntar peças do meu acervo com roupas das amigas, misturar e criar em conjunto, assumindo esse espírito de improviso.

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Qual a mensagem ou linha que conduz esse trabalho? 

A mensagem que conduz esse álbum é o afeto. Doce Carnaval nasceu da minha memória afetiva, de querer me transportar para um lugar de aconchego e alegria em um momento de tanta incerteza que vivemos todos no auge da pandemia. Senti a necessidade de me conectar com a música que me trouxesse leveza e assim eu, Jake, Alexandre e Mauro fizemos uma pequena bolha e começamos a tocar músicas que nos remetessem à alegria do Carnaval brasileiro, algo que parecia tão distante da realidade do momento. 

Tem alguma história engraçada sobre os bastidores desse álbum?

Uma história curiosa é que, por conta de estarmos todos meio isolados, a ideia inicial era fazer um álbum com uma instrumentação mais minimalista, já que chamar muitos músicos para gravar no estúdio era praticamente impensável naquela altura. Mas a coisa foi evoluindo e acabamos convocando os amigos, cada um na sua casa, em diferentes partes do mundo, e assim contamos com a participação especial de tantos artistas e músicos, colaborando e cantando juntos, como uma verdadeira representação da harmonia e do encontro do Carnaval. Mesmo que parte desse processo tenha se concretizado à distância, sinto que o espírito coletivo está muito bem representado. 

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Lançar um quinto álbum é mais tranquilo ou ainda dá frio na barriga?

Ainda dá frio na barriga! Acho isso uma coisa maravilhosa, porque revela um grande amor e cuidado pelo que a gente faz. Existe uma certa tranquilidade, talvez ligada à maturidade, mas no sentido logístico da coisa, de já entender o passo a passo do processo de lançamento de um álbum – apesar de sempre rolarem surpresas. Acho que o mais importante é deixar o álbum ter a sua vida própria e seguir seu caminho… A gente nunca sabe aonde a música vai chegar e como essa arte vai impactar as pessoas, e isso pra mim é mágico. Eu espero ter esse frio na barriga pra sempre! 

Como classifica sua assinatura nesta mistura de Bossa Nova com Jazz e tempero americano?

Acredito que a única solução para o mundo é a mistura e a soma. Como moro em Nova York, precisamente no Brooklyn, um dos lugares mais democráticos do mundo, sinto essa mistura cultural na minha rotina e no dia a dia. A arte sempre é influenciada pelo lugar onde o artista se encontra e não teria como a minha música não absorver essa energia de Nova York, que é uma grande mistura de sons, nacionalidades, manifestações e referências. Faço música contemporânea, que bebe na fonte clássica da bossa nova e do jazz, com melodias brasileiras e toques modernos e diversificados, plural como a cidade onde moro.