Sondre Lereche – Foto: Divulgação

Por Lígia Krás

Entre os meus planos no início de 2020 estava conhecer uma cidade que é um sonho de infância: Bergen, na Noruega. A ideia era, em junho, assistir ao Festival de Música Bergenfest, que anualmente no verão europeu, leva muito rock, pop e indie e para a inóspita paisagem entre montanhas e fiordes daquela que também é a cidade mais turística do país escandinavo. Para entrar no clima, além de passar os dias pesquisando e curtindo fotos da cidade no Instagram, uma das músicas que não saiam da minha playlist era “Everytime” do cantor norueguês Sondre Lerche, natural de Bergen, que tem uma legião de fãs no Brasil e seria uma das atrações do festival.

Até que a pandemia do novo coronavírus colocou o mundo de cabeça para baixo e a companhia aérea cancelou meu voo. Enquanto isso, do outro lado do globo, Lerche, que há anos vive nos Estados Unidos, previa que o cenário por lá não seria dos melhores, e resolveu voltar ao menos temporariamente para a Noruega. Obviamente eu pensei que não seria esse ano que trocaríamos algumas ideias, mas o destino não brinca em serviço e recebi na minha caixa de o e-mails um release sobre um festival online no próximo sábado em que ele participa de uma ação pela Amazônia.

Bazaar bateu um papo com o cantor nórdico, que é uma das atrações do evento e que não deixa dúvidas: se não fosse norueguês, seria brasileiro. Os melhores trechos você confere a seguir:

MPB

“Eu cresci na Noruega amando Bossa Nova, provavelmente porque meu primeiro professor de violão era meio brasileiro e eu não queria aprender música clássica, então ele me ensinou canções do Tom Jobim”, conta Lerche, que começou a explorar a Tropicália, Os Mutantes, Caetano, Gilberto Gil e Gal Costa. “Me encantei com Milton Nascimento e o Clube da Esquina, aquela cena toda, e o DNA harmônico brasileiro acabou por fazer parte do meu próprio vocabulário. O meu favorito é, provavelmente, Chico Buarque, acho que ele é um dos maiores compositores vivos.”

Moda e música

Lerche tem muitos fãs no Brasil, onde tocou no Festival Indie PopLoad em 2015. De lá pra cá, amadureceu ainda mais, inclusive assumindo um estilo mais nordic-dândi. As inspirações vão desde as listras náuticas muito comuns no cenário marítimo da Escandinávia, até as bandanas no pescoço que (ele não nega) são uma referência emprestada de outro norueguês muito conhecido no Brasil, Morten Harket – vocalista da banda A-Ha -, de quem é fã assumido. Em nossa conversa, ele conta que a estética visual é mais recente em sua carreira, mas reconhece que também faz parte de uma performance na qual música e moda se integram para compor uma mensagem única sobre um determinado momento, uma fase da vida. E credita seu atual estilo à fotógrafa e stylist Jen Steele, que tirou todas as fotos do álbum “Patience” e se encarregou do seu figurino para a sessão em Palm Springs.

#EleNão

Enquanto eu planejava visitar a Noruega em 2020, Lerche esperava fazer uma turnê no Brasil neste outono, quando obviamente todos os projetos, de todas as pessoas, tiveram que ficar para depois. Não importa: do mesmo jeito que, quem me conhece, sabe que meu coração é meio norueguês, no caso do cantor, é inquestionável que, se não fosse nórdico, ele seria brasileiro, pelo amor que tem ao nosso país, com exceção do cenário político atual, como confessou em desabafo: “Fico horrorizado ao ouvir sobre o desempenho do atual governo em relação a diversas questões tanto humanitárias quanto ambientais, como no caso da Amazônia”.

Eco friendly

Por falar na Amazônia, coincidentemente, Lerche faz aniversário no mesmo dia 5 de setembro que foi estabelecido para conscientizar as pessoas sobre a importância da maior floresta tropical do mundo. Não é de se estranhar, portanto, que vai fazer parte de uma transmissão promovida pelo Greenpeace, neste sábado, para levantar doações em prol da floresta e seu ecossistema, que incluí proteção e assistência aos povos indígenas. “Espero voltar a um Brasil mais feliz, justo e seguro em breve. Minhas duas viagens ao país foram cheias de experiências incríveis e sei que voltarei para ver todos os meus amigos e seguidores em breve”, conclui Lerche, já em clima de saudades, a palavra mais bela e brasileira que pode existir no vocabulário.

Jen Steele – Foto: Divulgação

O evento

“No meu trabalho com artistas internacionais, principalmente noruegueses, percebi uma grande preocupação com o que está acontecendo hoje no Brasil com a Amazônia. Decidimos então unir forças para esclarecer os problemas causados pelo aumento dos incêndios e, juntos, fornecer recursos para ajudar os povos indígenas mais afetados ali”, diz Stian Olsen, da Flake Productions, responsável pelo show digital da iniciativa, que poderá ser assistido através do link www.amazonalarm.com.br .

Tudo o que for arrecadado durante o show irá para os povos indígenas que protegem a floresta d agora precisam ser protegidos por nós. O dinheiro será repassado ao COIAB – grupo de coordenação das organizações indígenas da Amazônia brasileira – que mobiliza voluntários, materiais e recursos em prol do movimento.

Foto: Divulgação

Serviço

Data: sábado, 5 de setembro.

Horário: 15h no Brasil/ 20h na Noruega.

Local: www.amazonalarm.com.br.

Lineup completo:

Aurora (NOR)

Donavon Frankenreiter (EUA)

Boy Pablo (NOR)

Agnes Nunes (BR)

Gard Nilssen e Outros Silenciosos (NOR)

Sondre Lerche (NOR)

Charlotte dos Santos (BR-NOR)

Nina Oliveira (BR)

Theodoro Nagô (BR)