Foto: Jorge Bispo, com styling de José Camarano e beleza de Vini Kilesse

Por Marina Monzillo

O sotaque de Manuela Dias é carioca, mas não dá para se enganar: a autora da novela “Amor de Mãe” é baiana de nascimento e essência. “[O sotaque] depende do assunto. Se eu começar a falar da Bahia, aí o negócio vem vindo… Apesar de morar no Rio e amar minha identidade, minha crença, minha verdade são baianas”, conta a escritora que, até os 19 anos, levou, ao lado da mãe, que é produtora cultural, uma vida quase nômade, morando em 20 casas diferentes em três estados – Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.

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Essa baiana, porém, é das pilhadas. Aos 42 anos, diz que está no “auge da aceleração”. Em pleno processo de criar uma novela sua pela primeira vez, um trabalho conhecido por demandar muitas horas, em ritmo intenso, Manu diz que aprendeu a “relaxar no fluxo”. “Durmo pouco, coloco isso na conta da minha ansiedade. Acho que a última vez que dormi oito horas, era neném. Faço meditação transcendental desde os 12 anos, isso me ajuda muito”, comenta ela, que não enxerga esse jeito de ser como negativo. “A gente fica tentando frear, mas acho que é natural. O Alain de Botton fala em um livro e é maravilhoso: os nossos ancestrais tranquilos não deixaram descendentes porque morreram de fome, de frio. Os ansiosos é que ficavam lá, juntando comida, tentando fazer uma casa sólida. A ansiedade é quase um fator de sobrevivência.”

Na atual rotina insana de trabalho, ela cria pequenos rituais que humanizam o dia. “Moro no Jardim Botânico e meu escritório é no Horto, venho andando, por dentro do parque, tiro o sapato e caminho na terra. Parece que estou em uma fazenda e, de repente, estou no computador de novo.” Momentos com a filha, Helena, de 4 anos, também fazem parte dessas escapadas de bem-estar.

Junto e misturado
Não dá para conversar com Manuela sem falar de maternidade. Ela já comentou, publicamente, sobre a dificuldade que teve para engravidar e a perda de três bebês durante a gestação e, na trama global, desenvolve personagens que vivem uma riqueza de situações relacionadas ao universo materno. “Para mim, a vida não é compartimentada, é totalmente integrada. Não foi à toa que, na hora que tive uma filha, escrevi uma novela sobre ser mãe. Trabalho com pessoas da minha família, amigos, com quem já fui casada e com quem me relaciono”, diz ela, que namora o ator Murilo Benício, um dos protagonistas do enredo.

“É muito misturado, tudo se alimenta. Penso em mim como mãe e acabo tendo ideias para a novela”, completa ela, deixando claro que não é a Lurdes, a Telma ou a Vitória, as mães da história, “mas todas comungam algo dessa experiência visceral que é ser mãe para mim”. “Amor de Mãe” tem sido um sucesso por propor um estilo narrativo bastante ágil, mas também pela autenticidade com que aborda questões latentes da sociedade. “Acredito, e não tem um pingo de demagogia nisso, que a gente precisa se expor, inventar histórias para questionar padrões morais, comportamentais, éticos. Não acho que minha novela vai mudar o mundo, mas que podemos participar dessa contínua construção.”

Pessoalmente, a novelista compara seu momento profissional com a oportunidade que um jogador de futebol tem de ir à Copa do Mundo. “Como dramaturga brasileira, que trabalha na televisão há 22 anos, queria muito fazer uma novela”, explica Manu, que chegou a atuar como atriz antes de se voltar para a escrita. “Não combinava comigo, sofria muito. Sofro também como autora, mas é um sofrimento produtivo, tipo dor de alongamento.”

Formada em jornalismo, ela estudou roteiro em Cuba com o Nobel de literatura Gabriel García Márquez e se diz fascinada por pessoas. “Fiz um trabalho que durou dois anos e meio no centro do Rio, chamava ‘Conte Sua História e Ganhe Um Real’. Pintei uma plaquinha e fui para a rua, com o bolso cheio de moedas e um gravador. Era uma pescaria, ficava parada e as pessoas vinham e contavam o que queriam”, relembra ela. “Era tanta carga humana que, no final, estava tonta, emocionada e abraçando desconhecidos. Era muito envolvimento, todo mundo é interessante se você realmente parar para ouvir.”

Ela acredita que todos nós nos defendemos, de alguma forma, dessa complexidade. “Se não, a gente fica paralisado com o tanto de humanidade que existe no mundo. A gente provoca um achatamento da paisagem humana para conseguir tocar a nossa vida, mas faz parte das incumbências da arte, por exemplo, fazer com que a gente reconecte a empatia que o dia a dia quebra.”

E Manu quer falar, ouvir, trocar e, mais do que tudo, continuar propondo reflexões. Terminando a novela, ela tem outros compromissos com a Globo, mas, se não tivesse, teria projetos próprios que ocupariam uns dez anos. “Quatro peças de teatro, dois longas, um livro que quero escrever. Coisas que quero estudar, um mestrado que quero fazer. Estou sempre quase devendo para o tempo, como o coelhinho branco da Alice, já nasci atrasada.”