Foto: Victor Pollak/Globo

A quarentena se estendeu para além do suportável para Fernanda Torres, que, confessa, já está vivendo uma segunda onda de ansiedade. Nos primeiros dias de isolamento, sua casa enlouqueceu. Teve cano estourado, curto-circuito e, assim, se viu expulsa do Rio de Janeiro rumo a Petrópolis, na região serrana.

O surto pandêmico foi tão latente, que ela até batizou um amigo (o esqueleto articulado que aparece na foto) com o nome de Pandemia. “Período de muita angústia, de medo do futuro; a serra nos salvou”, conta à Bazaar. “Tenho até vergonha de falar por ter tido a chance de me isolar em um lugar bonito, de pegar sol, correr, esperar passar ao lado da minha família. Um privilégio imenso quando se pensa na realidade de milhões de pessoas sem casa, água, esgoto ou internet para o ensino à distância, no Brasil.”

Muitas vezes, a dramaturgia serve como retrato ou fuga da realidade, em outras, age como um museu de grandes novidades. Não seria diferente em tempos pandêmicos, quando os principais players do mercado e as redes de televisão rebolam para entregar conteúdos inéditos.

Durante o enclausuramento, Fernanda gravou o “Diário de um Confinado” (Globoplay), com Bruno Mazzeo, um clipe para Gilberto Gil, escreveu para algumas publicações, voltou às telinhas na reprise de “Tapas e Beijos” e arrumou tempo para participar de lives sobre assuntos diversos, como a promoção de “Os Normais – O Filme” nos drive-ins brasileiros.

“Aprendi a viver um dia de cada vez, sem expectativa, me agarrei à horta, li ‘Ilíada’ e ‘Odisseia’ (Homero), que há tempos me aguardava, me matriculei em um curso online de italiano. Aos poucos, fui me acostumando com a rotina da vida sem futuro. E, para minha surpresa, ainda consegui trabalhar.”

Foto: Andrucha Waddington

Nesta toada, as personagens dela e da mãe, Fernanda Montenegro, divergem sobre o distanciamento social no episódio Gilda e Lúcia, da série “Amor e Sorte”, que estreia no dia 8 de setembro na Globo. Com texto de Antônio Prata e direção do marido, Andrucha Waddington, as gravações tiveram apoio do enteado Pedro e dos filhos, Joaquim e Antonio, além do sobrinho Davi e do diretor de fotografia João Faissal (que acabou virando parente, como ela gosta de contar).

A trupe experimentou esse novo jeito de produzir para a TV, operando tudo na marra, com equipamentos e figurinos entregues higienizados via delivery e equipe de supervisão por videochamada. Criada por Jorge Furtado, a série, com tramas independentes, conta ainda com os atores Lázaro Ramos, Tais Araújo, Caio Blat e Luisa Arraes, além de Emilio Dantas e Fabíula Nascimento.

Prestes a completar 55 anos, Fernanda Torres estava escalada para uma peça do diretor Felipe Hirsch (inspirada em “Adão e Eva no Paraíso”, de Eça de Queiroz) quando tudo parou. No ano que vem, ainda verá “Fim”, seu primeiro livro de ficção, estrear nas telinhas com Andrucha e Daniela Thomas na direção. “É impossível filmar com distanciamento. Tem traição, amor, Carnaval, Ano-Novo, enterro, orgia, maternidade, não dá”.

No elenco, Alessandra Negrini, Bruno Mazzeo, David Junior, Emilio Dantas, Fábio Assunção, Heloisa Jorge, Laila Garin, Marjorie Estiano, Thelmo Fernandes e participação da própria, que assina a adaptação. Seja na TV, no cinema, no teatro e nos veículos de comunicação, Fernandinha (como é chamada pelos amigos) está sempre em ebulição, como revela nesta entrevista à Bazaar:

Na serra, cada um tinha sua função no dia a dia? O que cabia a você fazer?

Sempre arrumei minha cama, lavei a louça e, lá, procuramos nos ajudar. Agora, de volta ao Rio, estamos sozinhos de novo e todo mundo contribui. Virei uma máquina de lavar louça e roupa. Os filhos aprenderam a dureza de manter a casa em ordem. O Andrucha gosta de cozinhar, meu filho mais novo também, eu cozinho, isso sempre foi um hábito aqui, um motivo de reunião familiar. O Andrucha rega as plantas, todo mundo ajuda. Mas tem uma limpeza profunda que é mais difícil de fazer. E ainda teve infestação de cupim, infiltração, obra na fachada do prédio com andaime na varanda. Tem horas que não tem jeito, e aí a gente volta para a serra e pede a ajuda de um profissional.

Foi fácil lidar com esse sentimento de reclusão ou você não teve tantos problemas para se adaptar a essa rotina?

Ainda não acabou. Nos quatro meses na serra, experimentei uma desaceleração muito boa, uma aceitação, um prazer de viver o dia pelo dia. Tanto que, quando o Andrucha teve que descer para gravar o “Sob Pressão”, senti medo de voltar, de quebrar aquela vida que a gente tinha conquistado. Agora, estou vivendo um período mais duro, estou cansada dessa paralisia, fico mais sozinha em casa com os filhos, preocupada com eles, com o isolamento, cansada dessa rotina. Rebato esse sentimento me ocupando, saindo para andar de bicicleta com máscara, escrevendo, desenhando… Mas estou com saudade do mundo, dos amigos, da vida como ela era e que talvez nunca volte a existir, é a minha sensação.

Você se permitiu aprender algo na quarentena?

Tenho muitos hobbies, desenho, bordo, faço crochê, torno de argila, cavei uma horta na enxada, plantei muitas árvores e fiz até uma colher e um garfo de pau, com uma madeira seca que encontrei no mato. Fora dar conta do Homero, sempre quis aprender italiano e avancei bastante nesse período. Também descobri o audiobook. Tinha um misto de curiosidade e preguiça de ler A Amiga Genial (Elena Ferrante), ouvia falar do livro, mas não tinha vontade de parar para ler os quatro volumes. Para treinar o italiano, baixei a tetralogia e descobri esse jeito de ler. É sensacional, porque você pode ouvir lavando louça, correndo, varrendo… e a Anna Bonaiuto, uma atriz italiana que gravou, lê genialmente bem. Me deu vontade de fazer isso no futuro com os meus livros e também com outras obras.

Com Luiz Fernando Guimarães, Marisa Orth e Evandro Mesquisa em “Os Normais – O Filme” – Foto: Divulgação

Personagens do passado são algo que você vê com bons olhos ou te assombram, já que você também está no ar agora, em “Tapas e Beijos”, e as pessoas sempre lembra de você como a Vani, de “Os Normais”?

A lembrança da Vani nunca me incomodou. Pelo contrário, sempre tive orgulho de ter encarnado o alter ego da maravilhosa Fernanda Young. Jamais me senti condenada à Vani, porque, na realidade, isso nunca aconteceu. Foi um milagre ter feito “Os Normais” com o Luiz Fernando Guimarães, com aquele texto sensacional do Alexandre Machado e da Fernanda e, na sequência, ter feito “Casa de Areia”, no cinema, e “A Casa dos Budas Ditosos”, no teatro. E, mais milagroso ainda, ter voltado para a televisão com outra série matadora, o “Tapas e Beijos”, ao lado daquele elenco primoroso. Nas pausas, quando não tinha fôlego e nem tempo para fazer cinema e teatro, comecei a escrever, lancei o “Fim”, “A Glória com seu Cortejo de Horrores” e passei a contribuir com artigos para publicações. Sempre pratiquei esse rodízio, teatro, cinema, televisão e, mais recentemente, a escrita. Essa alternância foi crucial para que eu me reinventasse, para que não ficasse presa ao sucesso ou ao fracasso de algum trabalho. Minhas personagens sempre me deram alegrias, jamais me estigmatizaram, ou me congelaram em um personagem ou estilo. Alguns trabalhos eu prefiro esquecer que fiz, outros, dão prazer de rever, mas não costumo me assistir.

Você tem medo de ser cancelada na internet?

O mundo se tornou um lugar muito aguerrido, bélico e as redes sociais ajudaram, porque elas se organizam em bolhas fechadas, realidades paralelas que não se conversam e que acirram as certezas de cada segmento da sociedade. Mas também tornaram o mundo mais democrático, as qualidades e os defeitos sempre caminham juntos. Eu me manifesto no teatro, no cinema, na televisão, nos livros, nos jornais, sou da velha guarda. A cultura do cancelamento é uma forma violenta de se valer de alguém para servir de exemplo, ela pode acarretar injustiças irreparáveis, mas considero as fake news mais preocupantes.

Vocês tiveram de colocar a mão na massa nessas gravações. Qual foi a coisa mais difícil desse formato, na sua opinião?

Colocamos a mão na massa em tudo. O Andrucha gravou como se não estivéssemos com uma equipe reduzidíssima. Eram cinco gatos pingados na equipe e duas atrizes. Fizemos carrinho, drone, chroma-key, iluminação noturna, diurna, steadycam, continuidade, figurino, cenografia, catering, diz aí… A ordem do dia colada na geladeira, doze horas por dia de trabalho. Cada vez que tinha que limpar o campo era com a gente mesmo, carreguei carrinho, ajudei a montar trilho… foi uma escola para os moleques. Pena termos passado por essa experiência por causa de uma tragédia pandêmica, mas foi inesquecível. O ponto alto dessa quarentena.

Na série, a personagem da sua mãe burla a quarentena. Vocês tiveram que furar o isolamento por algum motivo?

Fomos muito cuidadosos. Mas o episódio fala um pouco desse sentimento de quem chegou aos 80, 90 anos com saúde, sabe que não tem muitos anos pela frente e, de repente, perde a independência, é obrigada a viver isolada. O personagem da mamãe se nega a pôr a vida de molho, é uma mulher que foi jovem nos anos 1970, quando beber, fumar, pegar sol, nada disso dava câncer, cirrose ou ruga. Já a filha é o oposto, uma mulher do mercado financeiro, que passa a quarentena demitindo funcionários, uma liberal vegetariana, como a mãe a acusa de ser. Esses dois mundos díspares, da mãe e da filha, acabam se aproximando do episódio.

Trabalhar em família é mais estressante ou já estão acostumados?

Foi uma bênção ter uma equipe familiar presencial, resolvemos tudo no café da manhã, no almoço, com o diretor ali, para decidir. A rotina do trabalho à distância cansa muito, mesmo uma live, ficar uma hora diante da tela exaure, esgota, e fazer isso com uma equipe inteira é muito complicado. Nosso caso foi especialíssimo, parecia colônia de férias temática, film camp, com a molecada aprendendo. Se tudo der errado, podemos montar uma escola de cinema na serra. Estamos muito acostumados a trabalhar em família, tão acostumados que nem pensamos nisso. Quando se trabalha junto, você vira colega e tem a chance de conhecer pai, mãe, marido, mulher ou os filhos da maneira como eles existem no mundo, longe dos laços familiares. É uma intimidade diferente, madura, libertadora.

Vivemos um período singular na história do audiovisual, em que pessoas estão produzindo conteúdo de casa. Como você avalia o momento?

Quando comecei no cinema, o negativo era caríssimo, as câmeras pesadíssimas e custosas, os refletores que precisavam de um guindaste para serem movidos, o laboratório de revelação, as moviolas… Hoje, é possível editar com um programa caseiro, filmar, iluminar. Uma das coisas que fiz nessa quarentena foi um projeto de escola com o meu filho, uma reação em cadeia daquelas de desenho animado, em que um peso cai numa gangorra, que derruba um balde… acabamos montando uma traquitana imensa na serra, filmamos de vários ângulos, depois editamos, sonorizamos, foi divertidíssimo, e tudo com uma tecnologia simples e viável à mão.

Que reflexão faz sobre esse jeito de produzir as coisas com as próprias mãos?

Fui formada em coxia, no teatro, e depois participei de muitos filmes com esse espírito grupal. Sempre meti a mão na massa. O teatro é feito com nada e ensina que o principal é a tal matéria de que são feitos os sonhos, ou seja, o conteúdo do filme, da peça, da arte. Os melhores projetos que fiz na vida foram feitos quase na guerrilha. Não foi tão diferente assim no Gilda e Lúcia, embora eu não ache possível filmar por muito tempo com uma equipe tão reduzida. Sou pelo meio termo, não gosto de superproduções. Mas o essencial é o conteúdo, é a clareza do que estamos contando, é ter uma equipe unida em torno de uma ideia.

A série põe luz sobre as relações entre mão e filha. Vocês refletiram sobre o assunto ou existe algum tabu entre vocês?

Deve existir, não sei, não penso nisso. E se houver, eu não falaria disso numa revista. Refletimos menos sobre a questão mãe e filha e mais sobre a diferença de mundo das duas personagens. A da mãe, que viveu a revolução de costumes dos anos 1970, e a da filha tecnocrata terceiro milênio.

Estar em cena com a Fernandona é o sonho de muitos jovens atores. Como é para você não levar em conta que ela é sua mãe a ainda soar natural?

Faz tanto tempo que trabalhamos juntas, que nem penso nisso. Minha mãe é uma operária padrão, tem uma capacidade de trabalho muito superior à minha. Ela foi formada por diretores europeus do pós-guerra, pelo Gianni Ratto, que era de uma disciplina espartana. Ela aprendeu assim. Acredito que qualquer ator começará a se sentir à vontade depois de um dia de convívio com ela, porque minha mãe gosta da prática, da troca, do ensaio e não tem nenhuma vocação para diva.

Você está prestes a completar 55 anos. O que ainda gostaria de conquistar?

Nunca tive um objetivo, um lugar que eu quisesse alcançar, isso não existe, é pura perda de tempo. A vida é um imenso acaso, o importante é não atrapalhar e estar atento. E essa é uma idade interessante, você está maduro, fez muitos laços ao longo da vida. Minha relação com a Globo, com a Conspiração, com a Cia das Letras, com a Folha, abre caminho para muitas possibilidades, e só o tempo permite isso. A principal conquista são as parcerias mesmo. Esse é o lucro do negócio, é isso que te permite traçar um futuro plausível. Não existe arte sem o outro.

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