Ana Paula Araújo – Foto: Reprodução/Instagram/@appaaraujo

Ana Paula Araújo lança o livro “Abuso – Cultura do Estupro”, pela Globolivros. A Bazaar entrevista a jornalista sobre o tema. Leia abaixo:

Como foi o processo de pesquisa para escrever este livro?

Continuei com meu trabalho normalmente na TV, então, para conseguir viajar pelo Brasil, tive que concentrar a maior parte das entrevistas nos fins de semana de folga e feriados. Partes das férias também foram investidos no projeto. Em lugares menos distantes, cheguei a fazer ida e volta no mesmo dia. Foi cansativo fisicamente e também psicologicamente, porque eram entrevistas sempre muito pesadas e quase não tive tempo de respirar entre uma e outra. Mas valeu a pena. Acho que consegui cumprir o que me propus: traçar um retrato da violência sexual pelo Brasil, levantar o debate, esclarecer sobre os direitos das vítimas e trazer caminhos sobre como podemos ao menos melhorar essa realidade

Como buscou e se aproximou de personagens?

A ideia era fazer um panorama geral, percorrendo todas as regiões do país, optando por alguns lugares onde sabemos que há um grande número de casos, especialmente envolvendo crianças, como foi o caso da Ilha de Marajó. Quis mostrar lugares diversos e também diferentes situações em que a violência sexual acontecia em todas as classes sociais e ambientes.

Como se preparou psicologicamente para fazer estas entrevistas e ouvir tantas histórias tristes?

Tive que voltar pra terapia. Foi muito duro dar de cara com minhas próprias lembranças e perceber como o abuso sexual, ou a ameaça dele, influencia a vida de todas nós, mulheres. Como passamos a vida fugindo de abusadores, o medo constante, a impotência mesmo diante dos ataques menos graves, dentro do transporte público, por exemplo. Por isso resolvi escrever o livro. Porque chega.

Você chegou a alguma conclusão do motivo do estupro ainda ser tão comum no Brasil?

Não conheço uma mulher que não tenha passado por uma história de abuso sexual, seja mais ou menos grave. Piadinhas absurdas e assédio no transporte público, por exemplo, são algo que todas nós conhecemos bem. Podem parecer pouco, mas fazem parte de uma cultura de desvalorização da mulher que também está por trás dos casos mais graves de estupro. Precisamos em definitivo nos unir e falar sobre isso. Conhecimento, discussão, informação são a base para qualquer mudança. Quis deixar minha contribuição para todas nós e para as gerações futuras, como a da minha filha.

Quais foram os relatos das personagens sobre a dificuldade de se fazer uma denúncia?

O Estado precisa dar condições para que as vítimas denunciem e sejam de fato acolhidas pelas instituições. Hoje, por medo, culpa ou vergonha, 90% delas não denunciam. A minoria que denuncia sai quase sempre sem a punição do culpado, seja pela investigação policial malfeita ou inexistente, seja pela justiça que muitas vezes desconfia da vítima e não tem sensibilidade para compreender a dificuldade em recolher provas nesse tipo de crime. Sem punição e sem uma educação que combata a violência de gênero, não há solução. E essa educação tem que chegar inclusive aos nossos policiais, juízes e médicos.

E se a vítima engravida, o sistema público de saúde está preparado para lidar com abortos?

A nossa legislação foi criada para dar todo o suporte necessário a quem sofre esse tipo de violência, mas nem sempre é executada. Como em caso de aborto decorrente de estupro, que é autorizado por lei mesmo sem que haja queixa na polícia. Basta a mulher ou o responsável por ela, no caso de menor de idade, preencher um termo com as informações básicas sobre o que aconteceu e passar por uma avaliação médica. Três médicos precisam aprovar o procedimento, porém muitos não seguem o protocolo, principalmente por medo de serem responsabilizados criminalmente depois.